Terça-feira, 11 de Outubro de 2005

NA HORA DE FINADOS DO RACISMO DA TERRA

africa_203i.jpg

Pela mão da chuinga fui ler aqui. E li, antes do mais, o inevitável.

Qualquer ilusão podia desejar que uma história tão terrível e tão encharcada de crimes (como foi o colonialismo violento e racista da África do Sul) desembocasse num mar-de-rosas em que uma hipotética superioridade moral negra afagasse com luva branca a paz da herança da iniquidade racial e social. No caso, seria manter a estrutura da propriedade fundiária herdada do crime colonial que resultou em que 80% das terras (incluindo as melhores terras) fossem propriedade (esbulhada) dos brancos (10% da população).

O mundo rendeu-se ao génio de Mandela e do ANC e à forma superior como asseguraram a transição política e contiveram excessos e vinganças. Muita boa alma terá pensado que se tinha assegurado o paraíso político na África do Sul como herança eterna. E que a maioria dos sul-africanos se iriam, em honra a Mandela, resignar a manterem todas as iniquidades e esbulhos construídos por muitos tempos de colonialismo e apartheid, recusando-se o direito à democracia social e à emenda dos crimes de rapina das terras africanas. Ou seja, julgava-se que a vítima, em nome da paz com o carrasco, ia continuar sentado na cela mas agora de porta aberta.

E, note-se, o governo sul-africano não está a expropriar, sem pagamento, os fazendeiros que obtiveram terras por imposição violenta e coerciva do apartheid. Pelo contrário, está a pagar as terras a preços de mercado. Claro que, em qualquer parte do mundo, alguém que tem uma propriedade (porque é sua ou julga que é sua) tende a sobrevalorizá-la e achar sempre pouco o que outros se dispõem a pagar por ela. Acontece aqui, com courelas de meia dúzia de couves quando se quer construir uma estrada. Mas esta forma de resistir não pode ser uma forma de inviabilizar o processo de redistribuição de terras. E quanto mais resistência houver, e organizada for (e os boers não dormem), haverá a tendência de se optarem por medidas impositivas e mais expeditas. Onde não foi assim?

Claro que o Zimbábwe vem logo à baila mais os demónios do demonizado Mugabe (que hoje goza de fama pelo que fez de mal, mais juros intermináveis no que se diz que fez). Não está garantido que os novos proprietários negros das terras devolvidas aos africanos façam bom uso dela. Nem o contrário. A não ser que se use o argumento sibilino e malandro de que “a pretalhada é igual, e sempre igual, em toda a parte”.

Não faltarão também as vozes a clamarem contra o “racismo negro” a propósito destas medidas do governo sul-africano. Mas, na África do Sul, a história do racismo está tão preenchida e levada ao absurdo que estes gritos de alma só soam a hipocrisia. Até fazem lembrar as vozes de lamúria lusa clamando contra os “crimes da descolonização” como se tivesse havido descolonização sem colonialismo. A diferença está em que, queira-se ou não, continua a achar-se que um branco sofre sempre mais que um preto. Somos mais fraquinhos e sensíveis, dói-nos mais, é o que será.

No limite, não desejável, pela parte que nos toca, temos é de nos preparar para receber, acolher e integrar mais umas dezenas de milhares de “espoliados” da África do Sul, muitos dos quais se abrigaram no “regime e sociedade do apartheid” depois de terem sido “espoliados” em Moçambique e Angola.
publicado por João Tunes às 16:06
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