Segunda-feira, 10 de Outubro de 2005

O ALCÁCER-QUIBIR DO IMPÉRIO COLONIAL (1)

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Todos os impérios têm os seus pés de barro. Sobretudo quando o centro imperial tem fracos e limitados recursos. Salazar, por teimosia e confiando que tinha artes e manhas para cozinhar uma caldeirada geo-política e geo-estratégica na panela da “guerra fria”, não aceitou, mesmo depois da lição que o desastre da Índia proporcionou, a evidência de que o colonialismo tinha os dias contados no mundo.

Numa criminosa fuga em frente, Salazar, em vez de preparar o fim do império colonial, salvaguardando transição, laços, bens e gentes, perante a ameaça em Angola no princípio dos anos sessenta, resolveu meter o povo português, sacrificando a juventude portuguesa, num braseiro suicida e num jogo de ilusões. Empurrou para África novos fluxos de colonos ávidos de riqueza rápida, amarrou ainda mais a economia portuguesa à dependência das matérias-primas africanas e colocou os mercados coloniais como meio de escoamento da produção metropolitana, deu a cada jovem (somaram meio milhão!) uma G3 como noiva para, em África, matarem e morrerem. O braseiro começado em Angola, depressa alastrou à Guiné e a Moçambique. Sabe-se, mais ou menos, como as coisas correram e que depois acabaram. Versões sobre isso há muitas, até as dos loucos que falam em culpas dos “crimes da descolonização”.

O ponto fraco da empresa militar colonial sempre foi a Guiné. O meio era inóspito e favorável à guerra de guerrilhas, a ocupação territorial portuguesa era muito limitada, o povoamento colonial fraquíssimo, os recursos locais eram escassos, a população natural – repartida em dezenas de etnias – tinha um nível quase nulo de “assimilação portuguesa” (a maioria esmagadora dos quadros de baixo e médio nível na Administração e nos serviços eram caboverdianos), os países fronteiriços eram santuários do anticolonialismo (Senegal e Guiné-Conacri), no comando da guerrilha anticolonial encontrava-se um dos líderes africanos mais cultos, obstinados, cosmoplitas, talentosos e carismáticos (Amílcar Cabral). A guerra colonial na Guiné foi sempre, desde o seu início, uma guerra perdida para o Império. Foi artificialmente prolongada porque “não podia cair” e por causa de Angola e de Moçambique. Salazar, e depois Caetano, acreditaram que podiam impor uma vitória decisiva em Angola (no fundo, a estrutura colonial não podia era dispensar Angola). Salva Angola, poderiam entregar Moçambique à “independência branca e racista, tipo rodesiano, à Jorge Jardim” e largar a Guiné. Mas até que Angola estivesse segura no património neo-colonial português e, como tal, reconhecida e apoiada pelas potências ocidentais, não se podia retirar de lado algum. Fosse qual fosse o preço em vidas e outras perdas, havia que evitar o “efeito dominó” que se previa caso se desse a sempre eminente derrota militar na Guiné com o sequente efeito na guerra em Moçambique e que acabaria por chegar a Angola, onde se tinha atingido, a custo, um impasse militar que, a qualquer momento, podia andar ou desandar. E esta lógica, este imbrincado, não só não permitia outras saídas como condenava os militares portugueses na Guiné a cumprirem missões de desespero e martírio, não para ganhar mas para aguentar. Enquanto os movimentos de libertação (PAIGC, Frelimo e MPLA) sabiam que derrotar o colonialismo na Guiné era essencial para não perderem Angola e Moçambique. O combate final teria de ser na Guiné, ali ganharia o colonialismo ou o anticolonialismo. E foi.

A perda de Guiledje, no sul da Guiné, a 23 de Maio de 1973, foi o Alcácer-Quibir do império colonial português. Foi ali, naquele dia, que o exército colonial português beijou, no chão da debandada e da loucura da empresa impossível, a derrota militar do império. Princípio da derrota na Guiné, condições para a derrota em Moçambique e em Angola. O que veio a seguir foram meros “episódios do efeito dominó”. Embora dramáticos e traumáticos. Como Salazar, aliás, já tinha avisado, sabedor que era da teia fatal que tinha urdido e a que nos tinha amarrado.

Guiledje é, pois, “o momento”. O grande momento da derrota e do fim. Ou, se se preferir, o “ponto final”. Como Goa havia sido o “sinal”. Tentar perceber o império colonial, como acabou e porque acabou, sem conhecer a saga e a desgraça desesperada de Guiledje é só saber uma parte da missa.

Imagem: Debandada de militares e civis de Guiledje em foto obtida aqui
publicado por João Tunes às 16:17
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