Segunda-feira, 10 de Outubro de 2005

O ALCÁCER-QUIBIR DO IMPÉRIO COLONIAL (4)

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Guiledje, no Sul da Guiné-Bissau, está actualmente em ruínas e ao abandono. E Guiledje, para os portugueses e os guineenses, não foi uma qualquer aldeia perdida no mato em que a vegetação venceu a presença humana. Ali se deu o Alcácer-Quibir do Exército Colonial Português. Ali o PAIGC assegurou a sua vitória irreversível no caminho da independência e abriu caminho à descolonização das restantes colónias portuguesas.

Passados estes anos, que serviram para a floresta avançar e dominar o que restava de presença humana e guerreira em Guiledje, não há razão para que as feridas da guerra e as memórias coloniais e anticoloniais continuem a sangrar para destilarem ódios e ressentimentos. Muito menos há razão alguma para que portugueses e guineenses continuem em trincheiras diferentes ou sequer de costas voltadas. Portugeses e guineenses sofreram muito em Guiledje. Cada um, na época das armas, agarrado à sua causa e cumprindo as suas ordens. Cada um procurando sair vivo daquele braseiro.

Em Guiledje há sofrimentos portugueses e guineenses ali enfiados. Ali morreram muitos de nós de ambos os lados, de lá vieram muitos estropiados de corpo e de alma, mais uns tantos de lá saíram com a memória dorida pela raiva e pela impotência. A guerra acabou há muito. Há tanto tempo que poucos são os portugueses (talvez, o mesmo com os guineenses) que querem que dela se fale, remetendo tal assunto para a esfera privada e grupal de uns tantos velhos malucos que, enquanto se vão reformando da vida útil, contam histórias chatas do tempo que lá andaram e ainda se tratam por camaradas e amigos, dão abraços fortes de emoção armados em “ginjas” e põem-se a debitar “lembras-te?” e depois nunca mais se calam.

A Guiné-Bissau é um País independente e soberano. Como Portugal, Angola, Moçambique e os outros bocados do velho e defunto Império Colonial Português. É tempo de nos cumprimentarmos, respeitando uma honra a recuperar pelos tempos em que nos metralhámos, cada um no seu lado. E, sempre que possível, recuperar do tempo mal perdido em conflito e em morte, caminhando na mesma direcção, dando mãos naquilo em que se puder ajudar. Julgo que é o nosso dever para com a História. Mais que um dever, é, estou certo, o mais decente que pudemos fazer. Para que a vergonha ou o ressentimento não nos sobrem para acumular ao sofrimento e às perdas irrecuperáveis.

Uma ONG denominada "AD – Acção para o Desenvolvimento”, a intervir na Guiné-Bissau e que já leva catorze anos de existência, vai arrancar com o ”Projecto Guiledje” que tem por objectivos a recuperação do aquartelamento de Guiledje e a criação de um Museu de História (que recupere as memórias dos dois lados), bem como projectos que ajudem a desenvolver a zona sul da Guiné e a criar habitabilidade e postos de trabalho – um pólo de ecoturismo, um centro de formação rural e um viveiro florestal.

Considero o “Projecto Guiledje”, não só altamente meritório como susceptível de congregar meios e vontades de muitos portugueses (independentemente de terem estado ou não na guerra e, para os que estiveram, em que frente combateram) para que perdure uma memória e um empreendimento que honre a nossa presença no local onde os soldados portugueses mais sofreram em todas as frentes da guerra colonial, o nosso Alcácer-Quibir do Século XX, também o ponto chave da caminhada para os povos africanos que conquistaram a independência. Fazendo de Guiledje um ponto de encontro de honras e de reconciliação. Quem sabe se, assim falando, alguns me oiçam e até concordem. Para esses, pergunto: “vamos meter mãos à obra?”.

Imagem: A equipa da ONG ”AD – Acção para o Desenvolvimento”.
publicado por João Tunes às 17:42
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2 comentários:
De Joo a 11 de Outubro de 2005 às 13:25
E vamos apoiar a ONG?


De IO a 11 de Outubro de 2005 às 00:13
Obrigada por este importante conjunto de 'posts', pelo que me ensinaram - abraço, IO.


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