Quarta-feira, 12 de Outubro de 2005

NÃO LÊS? VÊ OS BONECOS!

raimundo.JPG

O meu amigo Raimundo Narciso verrinou-me um resmungo na caixa de comentários: “Com tamanha produção não tenho tempo para ler tudo”. Percebi. Ando a postar demais e a estender o lençol. E, assim, a entupir o débito de leitura de quem por aqui passa e tem pouco tempo para perder. Terá razão. Aliás, um amigo tem sempre razão mesmo quando a não tem. Só que, arrostando com o terrível perigo de perder audiência (ai a “share”!), o meu débito de escrita só se consegue reger pela minha vontade de escrita. Já tentei ajustar a maquineta, no parâmetro dos posts/litro de leitura, e a coisa continua escangalhada. Nada a fazer, pois.

Mas o Raimundo, com a sua alfinetada de amigo, fez-me recuar aos meus tempos de infância quando ia, ferrovia acima, passar férias à minha Sabrosa natal e, saído de Santa Apolónia (e já desconto a imensidão de tempo de “atravessar o Tejo” para ir do Barreiro até à Grande Estação), passava a noite toda no “comboio correio” até São Bento e aí mudava para a “Linha do Douro” e chegava ao Pinhão no outro dia lá para o meio da tarde (depois, ainda sobravam duas horas de “carreira” do Pinhão até Sabrosa). Longos tempos esses quando os comboios andavam ao ritmo do vapor, não se devia levar roupa branca porque essa mudava para a cor simétrica por causa da fuligem carbonosa que entrava janelas dentro e o uso da “terceira classe” implicava encostar-se a carne e os ossos em cadeirame de madeira envernizada e rija como cornos. Pois nesses então longos tempos de “pouca terra, pouca terra”, o passageiro matava a chatice com uns passeios pelo corredor, um enroscar de corpos a tentar inutilmente amaciar a madeira teimosa de resistência, comer vagarosamente os farnéis preparados, tentar intercalar a modorra e o exercício de paciência com uma ou outra leitura. Com sorte, mas para os mais crescidos que eu de então, sobrava o acaso bem sucedido de uma aventura de amor rápido e ferroviário que, ainda estou para saber porquê, as viagens são tão convidativas (a tal pulsão libidinosa no ímpeto de satisfazer desejos sem atavismos das regras sociais ou matrimoniais durante viagens).

Nessas longas noites que ligavam as duas santidades ferroviárias (Santa Apolónia e São Bento), quando os ardinas espreitavam o tédio a incomodar os passageiros, estes apareciam, de sacola ao ombro a vendilhar inúmeros “livros aos quadradinhos”. Sabiam que a incomodidade do assento e do recosto e a luta contra o sono e pelo sono, criavam uma procura receptiva a qualquer oferta. Ou seja, como se diz hoje em marketing, criavam a oportunidade para a compra “por impulso” numa oferta rarefeita e reduzida à “venda de ocasião”. Normalmente, os “livros em quadradinhos” mercantilizados eram de segunda, terceira ou quarta mão, mercadoria comprada ao desbarato, via-se pelos fiapos e amarelo das folhas. Mas, os ardinas da ferrovia, valiam-se da ausência de concorrência.

Como disse, os ardinas dos “quadradinhos” espreitavam a hora certa para impingirem a mercadoria. Nem arribavam cedo demais, em que os sentidos, os critérios sobre preço e qualidade do produto, estavam vivos, nem demasiado tarde quando o sono já tivesse dominado os passageiros, deixando-os sem reacção a qualquer estímulo. [quando a malandrice me foi acrescentando saberes de observação, constatei que as "donas ferroviárias” carentes de sexo usavam a sabedoria dos ardinas na escolha do boa hora para o engate de descarga rápida] Era no lusco-fusco do meio cá meio lá, que eles abriam as portas dos compartimentos e apregoavam estridentes “olha os livros de quadradinhos, e quem não sabe ler, vê os bonecos”. Sábios eram estes ardinas, varridos hoje pelo temporal tecnológico das viagens rápidas, além da muita manha na hora do ataque, eles tinham o conhecimento exacto da clientela alvo e sabiam que, então, uma grande parte dos passageiros padecia do analfabetismo do tempo.

Voltando ao fio da meada e à “boca” do Narciso. Sei que este blogue usa e abusa da imagem. De tal maneira, que não consigo desfazer-me dessa ligação entre texto e imagem e de tal forma que não consigo teclar sem ter á vista a imagem associada. Pancada minha, que eu sei ser raramente conseguida em termos de harmonia e de gosto. Mas um blogue também é isso – a liberdade de experimentar, gozar e ir em frente pela impunidade do que é, por si, um produto volúvel e passageiro. Este blogue está, assim, cheio de imagens de todos os feitios. Há textos também. Alguns que releio e até gosto. Outros, que quase me arrepiam pela radicalidade da ligeireza. Sobrem as imagens, de que, na maior parte, só tenho o gosto pela escolha. E é por isso que, lembrando-me dos ardinas ferroviários, respondo ao comentário do meu amigo Narciso:

- Olha, se não gostas dos textos ou não tens tempo para os ler, vê os bonecos!


Imagem: E como falámos de transportes, saiu foto de Raimundo Narciso posando junto à velha carrinha VW do aparelho operacional da luta armada contra o fascismo de que foi dirigente (ARA – Acção Revolucionária Armada)
publicado por João Tunes às 22:07
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4 comentários:
De Joo a 13 de Outubro de 2005 às 21:46
Pois eu, cara Odete, não tenho saudades. Por um lado, a idade avançou e ninguém me vende o "ó tempo volta para trás", depois, o progresso é bem melhor (e com a perda desses tempos também a ditadura se foi). A memória, sim, essa não morre. Bem haja por me dar o privilégio da sua companhia.


De odete pinto a 13 de Outubro de 2005 às 17:55
Ai que saudades de quando ia de combóio até Aveiro e ali ficava a ver nascer o sol, ao pé da ria e a ver as leiteiras passar de bicicleta carregada com as grandes bilhas de alumínio, limpas, reluzentes.
E depois, noutro combóio, deliciar-me com a paisagem verdejante até S. Pedro do Sul !
A verdade é que a beleza retém-se na imagem e o desconforto esquece-se.


De Joo a 12 de Outubro de 2005 às 22:48
Ora bem, meu caro... Rosa (desculpe lá mas tenho escrúpulos em tratar alguém de "quadrúpede", raio de nick name esse...), registo que há mais visitantes de idade aproximada e que comungam das lembranças de tempos idos. E fico satisfeito, é claro. Apareça sempre.


De Quadrpede Rosa a 12 de Outubro de 2005 às 22:35
Com que então, o Amigo João, nessa sua infância pacata de Sabrosa (de saburosa, como alvitram alguns próceres?),a subir ao Castelo dos Mouros ou a jogar à bola junto do palacete dos Canavarros? Talvez a nadar nas então mais profundas e mais límpidas águas do Pinhão? Ou ainda a degustar os "Pitos" e as "Ganchas", esses monumentos gastronómicos de Eros, curiosamente transformados em memória de Santa Luzia e de S. Brás?
O mais certo, é o João Tunes reviver essas jornadas no "vapor de ferro" e sentir nas narinas o cheiro da hulha queimada e o conforto dos assentos de pau das carruagens sem míngua de conforto.
Ao escrever isto, também revivo, principalmente os trajectos que fiz em idêntico meio de transporte e com o mesmo recurso à memória visual e nasal.


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