Quinta-feira, 13 de Outubro de 2005

ANGOLA E DOIS CROMOS DA BOLA

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Leio aqui dois registos dissonantes, vindos de Miguel Sousa Tavares e de Pepetela, sobre o apuramento da selecção de futebol de Angola para o Mundial de 2006.

No caso, como em qualquer caso, não haver unanimidade só é bom. Mas os argumentários esgrimidos por ambos, no meu ver, são mais que frágeis. O fio de lógica utilizado é velhíssimo, o da alienação pelo futebol. Mas não tem ponta por onde se pegue. Como se, por exemplo, as vidas dos povos de Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Timor fossem ter melhoria e maior mobilização para as “atenções daquilo que verdadeiramente interessa” porque as selecções destes países não foram apuradas. Ou se tudo corresse ás mil maravilhas nos países em que o futebol não é sequer um desporto de relevo e popular. Como, essencialmente, se na falta de um ópio não existissem sempre uns tantos mil ópios para a mesma finalidade – a da alienação.

Não sei se Pepetela gosta de futebol. Se calhar, não. E assim me fico, embora lamentando que tenha usado oração tão estafada na escolha de “bode expiatório” para os males angolanos. Outros devem ter sido os que serviram, na trintena de anos em que Angola não foi apurada e, mesmo assim, as coisas chegaram onde se chegou. E se Pepetela foi, como parece que foi noutros tempos, ministro ou coisa que o valha, o seu cartório deve ter algum registo de pecadilho seu e sem o impecilho do futebol a alienar as massas.

No caso de Miguel Sousa Tavares, a coisa fia mais grosso pois o arrazoado deste sujeito é mais que eurocentrista. Um comentador profissional que tem página semanal num jornal desportivo em que só fala de futebol, que não perde pitada para meter colherada sobre bola e defender (com que fanatismo!) as cores do seu clube, um cidadão de um País que tem Fátima em Felgueiras, Valentim em Gondomar, Isaltino em Oeiras, processos sobre pedofilia aos pontapés, assassinos de crianças em julgamento, desempregados que somam perto de meio milhão, pontes que vêm abaixo, viadutos que caem, fascistas na rua a gritarem “morte aos pretos”, Fernando Gomes na Galp, Armando Vara na Caixa, incêndios que não se controlam, bancos a arrecadar lucros nunca vistos, audiências máximas para lixo televisivo, já sobre Angola, não se alegra sobre a sua qualificação futebolística a pensar na miséria, nas contradições sociais e na corrupção angolanas! É obra! Obra de quem olha África e africanos com uma exigência sobranceira que dispensa em sua casa. E esta forma de usar estes dois pesos e estas duas medidas tem não só nome como por vezes rapa o cabelo a máquina zero, calça botirrafas e estende o braço com a palma da mão bem aberta.

Claro que a qualificação para um Campeonato Mundial acarreta notoriedade e entusiasmo que unifica mais pelo delírio e pela exaltação que pela consciência. Como um escritor da paróquia ser premiado com um Nobel. Ou um patrício ganhar a Maratona dos Jogos Olímpicos ou ter uma modelo boa como o milho a fazer as capas das revistas. Mas os angolanos, os angolanos da desgraça angolana, só ganham em que Angola seja mais conhecida e desperte mais curiosidade. Porque não há peneiras para tapar o sol. Quanto mais se falar de Angola, houver mais interesse por Angola, mais o bom e o mau de Angola serão reflectidos na opinião pública, mais expostas ficarão as suas contradições, mais fácil será terem voz na opinião pública local e internacional os que querem que Angola ande para a frente e tenha uma sociedade mais desenvolvida, mais justa, menos corrupta e menos contrastante. O futebol não é o "problema" da Angola ou de onde quer que seja. É apenas um desporto-espectáculo. E se é de massas, porque o povo adora futebol, querem tirar futebol ao povo para que o povo fique mais consciente e vá para reunião e manifestação resolver onde tem problema? Engano, tirem futebol ao povo e povo vai noutro lado para não pensar em problema. Porque se povo quiser resolver problema mesmo, e problema está em querer, povo resolve problema mesmo e com futebol.

Em textos anteriores disse, e mantenho, que esta confraria Angola-Portugal-Brasil para o Euro 2006 devia ser um princípio e não um fim. Falei até da necessidade de se meterem golos noutras balizas. Lendo MST e Pepetela, acrescento que, apesar deles e outros, uma festa é sempre bom começo para uma boa empresa.
publicado por João Tunes às 00:43
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2 comentários:
De Joo a 14 de Outubro de 2005 às 23:40
De acordo, Jorge, a subida da autoestima nunca fez mal a quem quer que fosse.


De NETO a 13 de Outubro de 2005 às 10:46
Há uns anos li que a vitória de Carlos e Lopes e Rosa Mota (já depois) tinham feito os portugueses acreditar que podiam ir mais longe e ser capazes de vencer no mundo tal como outros povos. I.e., luter de igual com outros mais fortes e vencê-los. Quem sabe este feito da seleção angolana não desperta o mesmo sentimento naquele povo. Que esta vitória seja o início de uma nova etapa. Relativamente ao escrito acima, assino por baixo.


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