Quinta-feira, 13 de Outubro de 2005

PASSAGEM DE ANO

69_70.JPG

Para que não se pense, e pecar em pensamento é gravíssimo, pelo post anterior, que tenho alguma coisa contra a Santa Madre Igreja Católica e os seus Bispos e Capelães Militares, trago aqui uma revelação “purificante” que passo a confidenciar.

Numa passagem de ano (a de 1969 para 1970), a minha primeira passagem de ano na guerra colonial, eu estava encafuado no quartel do Pelundo (Guiné) ao serviço obrigatório do exército colonial. Aquilo ficava lá para o centro-norte, perdido de quase tudo, com uns vizinhos civis manjacos que geriam as suas agriculturas de subsistência e as suas fidelidades cruzadas perante os seus chefes tradicionais, o poder bélico da tropa e os aliciamentos pelos guerrilheiros para a causa independentista. Eram simpáticos, abertos, com uma riquíssima cultura tribal, mas viviam no seu mundo, o mundo da cultura africana profunda e ancestral. No quartel-fortaleza só havia machos lusitanos fardados. Inventando entretenimento para aguentar a espera da guerra. Nesse dia, como tinha acontecido no Natal, as dores apertavam pela ausências familiares e do meio em que tínhamos sido formatados. Uma passagem de ano, pelo imprevisto de não se saber se se sairia dali, era mais momento de tristeza que de celebração. Era duro. E puxava á solidão e à emoção. Resolvia-se como? Ora, bebendo copos e reinando. Fugindo da solidão e da repetição da pergunta dorida sobre porque estávamos ali. Na hora da mudança de ano (que nada dizia ao calendário celebrativo manjaco), os machos da tropa lusitana fugiam das suas solidões e celebravam, improvisavam celebração, pela mudança no calendário.

Consegui encontrar uma fotografia dessa celebração de fim-de-ano no quartel do Pelundo quando a folha do calendário meteu 1970 no lugar do já gasto ano de 1969. É patética e de gosto duvidoso. Mas é real. E assim a partilho convosco. Fica aqui. Sou o segundo a contar da esquerda, dançando em honra da mudança de ano, no Pelundo, com um meu camarada e amigo, Padre e Capelão Militar (o do meio).

E fica o “atestado”: se já dancei com um Padre numa passagem de ano, como a imagem atesta, podia alguma vez menosprezar a Santa Igreja Católica e os seus Capelães? Ora essa.

Nota 1: Claro que as Senhoras encaloradas que aparecem no fundo da imagem eram (infelizmente) de ... papel.

Nota 2: Ocultei, na foto, a face do Capelão por não saber, passado este tempo, se ele mantêm, como eu, a alegria naif mas amiga e quase irmã, de recordar aquele "baile de passagem de ano" em que, na míngua de bajuda, nos restou dançarmos os dois.
publicado por João Tunes às 16:29
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