Segunda-feira, 17 de Outubro de 2005

MOÇAMBIQUE E UM CISMA NA IGREJA COLONIAL (1)

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Entre os factos mais sombrios (diria melhor, mais sombreados) da sustentabilidade da ditadura de quase meio século que oprimiu este nosso povo e o tornou invertebrado para, no mínimo, viver outro meio século ou mais a equilibrar lamúrias com impotências e desforras numa gestão campónia de pequenas valentias, nefandas cobardias e mestria a andar de joelhos e a esmolar ao Estado, foi o pilar ideológico e institucional desempenhado pela Igreja Católica.

Durante o fascismo português, ufanos de terem colocado um dos seus (Salazar) no poleiro absoluto, os representantes portugueses do Vaticano não só se desforraram à tripa forra da laicidade republicana e jacobina tentada (e que ficou a meio caminho) por Afonso Costa, como se entranharam no regime de ditadura e de forma a dar-lhe o seu verdadeiro suporte ideológico por via do nacional-catolicismo que transformaram os párocos nos mais eficazes comissários políticos do “Estado Novo”.

E quando Roma resolveu arejar-se com o Concílio Vaticano II, a Igreja Católica portuguesa ficou parada no tempo, nos privilégios, no domínio e no dogmatismo das posições adquiridas. O regime salazarista tinha-se de tal forma rigidificado e parado no tempo, os homens de sotaina estavam de tal modo estagnados na facilidade da preguiça pregadora na paróquia campónia que Salazar lhes oferecera como coutada de fé unicista, que o regime e a polícia não só colocaram João XXIII e Paulo VI no Índex dos subversivos, como a maioria esmagadora do clero lusitano assobiou e passou ao lado das mudanças conciliares.

O papel colaboracionista e instrumental da Igreja Católica com o colonialismo português, é um dos aspectos menos conhecidos da nossa história do Século XX. E este papel não representou, para colonos e missionários, uma novidade, antes vinha desde os “descobrimentos” em que caravelas, espadas, canela e crucifixo sempre viveram de uma fusão promíscua. Havia, pois, a tradição (e que tradição) a ajudar, com muitos séculos de fusão de ofícios. Mas a sustentabilidade do colonialismo português não se entende sem se perceber o papel das “Missões em África” e que tinha o objecto vertebrante de cristianizar como condição de afirmar e consolidar a presença e domínio portugueses.

Transformar os pretos em émulos ritualistas e submissos dos campónios transmontanos, beirões e minhotos nas suas missas de domingo, era missão de monta e indispensável para que o Administrador cumprisse a função (sobretudo assegurando a cobrança dos impostos, o recrutamento militar, a “contratação” de mão-de-obra), os comandantes militar e policial locais fossem obedecidos, o preto respeitasse branco (o inverso era dispensável), os colonos enriquecessem em paz, a bandeira portuguesa fosse venerada. Mas, cada coisa no seu lugar, não se desejava nem se permitia que o católico preto subvertesse a desigualdade racial que estava na base do poder colonial. Por exemplo, adquirindo e com isso se alegrassem, pela pertença à comunidade católica, sem laivos de abuso na ilusão de estatuto (ficassem lá pela igualdade perante Cristo, representante de Deus, nunca no abuso de também o quererem ser perante o Governador, representante de Salazar). Por outro lado, a debilidade da presença administrativa e infraestutural europeia na África portuguesa (a nossa ocupação territorial além das áreas das feitorias foi tardia e muito incompleta), impunha uma sábia distribuição de misteres e de negócio bem gerido – o Estado pagava as despesas da Igreja em África, esta supria debilidades estatais – nomeadamente quanto ao ensino “básico elementar” (condição importante de status de portugalidade) e algum apoio elementar à sobrevivência (ajuda sanitária e aprendizagem de ofícios).

Não há “bela” sem “senão”. Tudo foi correndo bem - às mil maravilhas até - mas houve quem estragasse a comunhão do contracto. Porque não há hipótese de a perfídia ser absoluta, mesmo no sistema mais iníquo, havendo sempre quem teime na dignidade e não trafique a inteligência e o coração. D. Sebastião Soares de Resende, bispo da Beira (Moçambique), estragou a festa eucarística e instrumental que colocava a Igreja ao serviço amorfo do colonialismo. Iniciando funções na Beira em 1943, que terminaram com a sua morte em 1967, o acaso levou a que um dos clérigos portugueses mais esclarecidos, cultos e bons, rumasse a África (Moçambique) e, inserido num dos domínios mais racistas da presença portuguesa em África, obstinou-se a transpor as mudanças operadas pelo Concílio Vaticano II (de que ele foi importante animador contribuinte) e coloco-as em gestão de conflito com o anacronismo do colonialismo esclavagista. As sementes deixadas por D. Sebastião Soares de Resende, de tão fortes, não pararam de germinar. O regime colonial-fascista e a facção cavernícolo-eclesiástica de Cerejeira e seus discípulos reagiram de formas brutais – por um lado, estribaram em Lourenço Marques (onde havia a importância de ser lá o arcebispado) um prócere do regime, um homem de profunda identidade ideológica com os colonos e o racismo (D. Custódio Alvim Pereira), fazendo com ele, com a PIDE e com os colonos mais extremados e mais racistas (em que, como costume, Jorge Jardim era inspirador e mandante), a tentativa de contenção e contra-ataque no centro e norte moçambicanos da vaga suspeita de “renovação missionária” (entretanto, “contaminada” pela ida de padres não portugueses) e em que os pretos deixavam de ser considerados como “portugueses católicos de segunda” - nomeadamente, os Padres de Macuti (Beira), os Padres de Burgos, os Padres Brancos e o bispo de Nampula (D. Manuel Vieira Pinto), a que se acrescenta a passagem não conformista de D. Eurico Nogueira como bispo de Vila Cabral.

A história da presença religoso-católica em Moçambique nos últimos tempos coloniais é, assim, extremamente interessante do ponto de vista da dissonância (nada de vagamente parecido ocorreu em Angola e nas restantes colónias), da conflitualidade infra-católica (posições extremadas nas trincheiras opostas de Lourenço Marques - reduto da retaguarda colonial e mimetizado culturalmente com o apartheid afrikander - versus triângulo Beira-Nampula-Vila Cabral, onde a luta armada dirigida pela Frelimo se impunha no terreno), de caso em que a perseguição policial e difamatória da PIDE e dos colonos mais racistas contra párocos foi violentíssima e da resistência coreácea da Igreja oficialista e do regime a absorverem mudanças na sua plataforma ideológica e casamento de regime (Concílio Vaticano II). É ainda do maior significado que a Igreja Católica em Moçambique, apesar de apresentar um património honroso de inconformismo face ao poder colonial por parte de alguns clérigos, só apresente protagonistas inconformistas ou racistas de origem europeia e nem um únco bispo negro tenha adquirido função vindo do seio de uma Igreja entranhada em séculos de presença africana.

Considero o tema, do ponto de vista da compreensão histórica do colonialismo e do catolicismo português, não só dos mais fascinantes por surpreendente como ainda acresce que está mal conhecido e pouco estudado. O livro do historiador Pedro Ramos Brandão (*) é, por isso (e para além do rigor do Autor) uma pedrada no charco. Venham mais.

(*) – “A Igreja Católica e o Estado Novo em Moçambique”, Pedro Ramos Brandão, Editorial Notícias.
publicado por João Tunes às 16:01
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