Segunda-feira, 17 de Outubro de 2005

BASTA YA

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Longe de mim deitar mão à empresa falida de tentar perturbar a serenidade da consciência do companheiro Evaristo. Nada disso. E, se com ele continuo a conversar, é por lhe reconhecer os méritos do fair play e da paciência própria de um sereno argumentador-tribuno e homem de causas fortes.

Obviamente que é complicado pretendermos entendimento nas embirrações. As do Evaristo estão bem expostas através do seu soberto teclar (sem ironia!) – ele não pode, nem com molho de tomate, com a Helena Matos, o José Manuel Fernandes, o José Pacheco Pereira e mais alguns. Esses, quando escrevem, já sabem que os espera, no dia seguinte, uma rajada kalash do Evaristo. E, confesso, se continuo a ler esses plumitivos (para os quais o ratio da minha concordância/discordância anda, em média, pelos fifty-fifty), em grande parte isso se deve ao facto de eles continuarem a insistir em escreverem apesar dos lombos crivados de buracos “abrangentes”. E, depois, é claro, vem o Império do Mal, os malvados States, a fonte da ignomínia à face da terra. As minhas embirrações também são mais que conhecidas, ou seja, são topadas de ginjeira. E, julgando não ter critérios de base e de valores assim a modos que coisa parecida com as antípodas do Evaristo, tenho a minha “via própria de embirração” – dou preferência de alvo onde a ignomínia casa com a hipocrisia da pretensa defesa da igualdade e da fraternidade. Porque acho que o crime contra a liberdade cometido por um paladino da libertação é infinitamente mais grave que se for cometido por um safardana confesso ou o pai inógnito de um skin-head. Não, é claro, quanto aos que sofrem (para esses é igual penarem numa prisão paquistanesa ou cubana) mas sobretudo pelo dolo adicional da hiprocisia e do disfarce pela capa da utopia generosa usada pelos carcereiros. A bandalhice da demagogia também é um critério de apreciação.

Tenho dúvidas, mais que mil, sobre as boas intenções da Administração dos EUA quanto à democratização e recuperação das liberdades em Cuba. O mais certo é haver aqui um empate técnico canalha entre hipocrisias e propagandas de Fidel e Bush. Mas julgo que, como o embargo a Cuba nada adianta e só atrasa a via democrática aos cubanos, se o regime de ditadura castrista fosse capaz de dar sinais de abertura (por exemplo, libertando os jornalistas presos e permitisse algum grau de progressão na liberdade associativa e eleitoral), a opinião pública internacional já tinha imposto a evidência da obsolescência do embargo a Cuba. E a quem serve este empate canalha? Naturalmente, aos que querem a perpetuação da ditadura cubana e, em simultâneo, aos que apostam que ao fim do castrismo se siga uma convulsão violenta e um retrocesso da dignidade cubana (a trágica “desforra”). Para os que, como é o meu caso, desejam uma transição pacífica - sem humilhações - de Cuba para o campo da democracia e dos direitos humanos, embargo e prisões políticas são os caminhos de acirrar, extremar e preparar mais sofrimentos para um povo que não o merece, bastando-lhe já, nessa contabilidade, ter sido martirizado tantos anos pelas ditaduras de Baptista e Fidel.

Pela sua parte, o Evaristo, afirma agora, alto e bom som, que “A questão do bloqueio não tem a ver com os "amanhãs que cantam", nem com os prisioneiros políticos”. E depois desbobina o rol relativizante dos presos no Paquistão, no Egipto, na Birmânia, na Austrália e, claro, os prisioneiros tallibans da base americana de Guantanamo. E consegue passar assim, incólume, misturando no mesmo saco tudo quanto é preso, sem um aceno sequer aos prisioneiros políticos que pedem solidariedade aos amantes da liberdades desde as masmorras cubanas. E remata o caro Evaristo: “Este é o meu pensamento. A minha consciência está serena”. Com certeza, por quem sois. Já o finado Almirante tinha orgulho na serenidade do bom povo português.

Enfim, cada qual no seu pensamento e na sua consciência. Aqui como no resto. Poupemos pois os cartuchos porque, ou muito me engano, outras “guerras” de diferença teremos, em breve, pela frente. Tanto mais que conseguimos discutir com ardor sem perder o respeito e o gosto em conversar (haja deus!). É que, se as coisas aquecem como prometem, temos pano para mangas de conversa entre um declarado apoiante de Cavaco (como o Evaristo se assumiu) e este ”Alegrete”, também assumido, que só lá quer ir com água lisa.

Até á próxima, caro Evaristo. Com um abraço.
publicado por João Tunes às 23:22
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