Terça-feira, 18 de Outubro de 2005

FOI-SE O MELHOR GUARDA-REDES DO MUNDO

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Para quem gosta de futebol, apreciando os artistas, sabendo que um bom artista é a base do espectáculo e que a melhor equipa é a equipa com mais artistas jogando em colectivo, a notícia da perda é terrível.

Carlos Gomes foi – só! - o melhor guarda-redes português e dos melhores do mundo em todos os tempos. Dos que vi actuar, só Yashin se lhe aproximou dos calcanhares. Carlos Gomes transformava uma baliza num rectângulo pequeno onde as suas luvas, comandadas por um corpo de instinto felino, pareciam cobrir todos os espaços. Ao pé dele, Damas, Bento, Baía, Ricardo, Quim, ou outros tais, foram ou são - vá lá! - esforçados aprendizes.

Ser homem de vida aventureira, rebelde e atribulada, não permitiu que a sua classe assentasse na poeira de todo o sucesso devido ao seu talento único. Foi um barreirense sempre com a PIDE à perna. A que nem o facto de envergar as cores de um clube recheado de legionários graúdos e viscondes de linhagem lhe valeu grande coisa, até porque estes eram relapsos na hora dos pagamentos e se havia coisa que irritava o grande Carlos Gomes era pagamentos atrasados ou curtos. Correu mundo, fugindo ao desatino da sua cabeça de inconformista informal. A sua fuga de Portugal ficou célebre – sabendo que ia de cana no fim de um jogo, inventou lesão para, ao intervalo, dar à sola do País, iludindo a vigilância dos pides. Voltou ao Barreiro, onde se fez jogador a aprender com esse imenso mestre que foi Francisco Silva, para morrer e recolher à terra que lhe deu vida.

Não sei se será possível, para mais com a mediocridade que aí anda à solta, que alguém lhe dispute o título, ora incontestado, do melhor atleta a defender um rectângulo de pesca aos golos.

Glória à memória de Carlos Gomes, os meus pêsames à família sportinguista.

Adenda: Outro barreirense adoptivo como eu, o Manuel Correia, fez um post com uma linda imagem de escultura (em que duas mãos reduzem uma bola à dimensão de uma esfera domesticada) e um texto magnifíco de Helberto Helder. Acabámos os dois por baralhar os nossos posts e depois sairam dois "postes" a servir de baliza à memória do Carlos Gomes (a blogo-dinâmica em acção). Boa ideia esta - gaba-te cesto! - de oferecer a um génio a defender redes, uma baliza com dois postes e nenhuma barra. Portanto, acabou-se, o génio descansa em paz e ninguém mais (nem a memória do genial José Águas) o obriga a voltar ir de gatas buscar a bola ao fundo da baliza. Merecido, Olé!
publicado por João Tunes às 16:13
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2 comentários:
De Manuel Correia a 18 de Outubro de 2005 às 17:49
João Tunes, Fiz uma baliza (com os dois postes) e associo-me à homenagem, sem esquecer que o pontapé de canto foi teu. Assim o meu poste fica em boa companhia, e tb um pouco menos «abstracto». Obrigado.


De Manuel Correia a 18 de Outubro de 2005 às 16:47
João Tunes, Obrigado pela visita e comentário. Foi coincidência. Soube da morte dele pelo teu poste. Mas aceito que fique tb como essa homenagem que descobriste. Um abraço


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