Sexta-feira, 21 de Outubro de 2005

MOÇAMBIQUE E UM CISMA NA IGREJA COLONIAL (3)

menino.JPG

“Pergunta – O nosso sistema é completamente anti-racista. Pode esclarecer o Arguido em quê se baseia para afirmar que existe em Moçambique um racismo ainda pior que o racismo da Rodésia ou da África do Sul?”
“Resposta – O Arguido repete a razão dada anteriormente: as diferenças económicas tão abissais existentes em Moçambique levantando automaticamente as barreiras sociais no mundo cultural, social e político sem possibilidade imediata de solução. No entanto, na Rodésia e na África do Sul não é tão irritante o desnível económico e os povos negros ao terem mais cultura e preparação, mais tarde ou mais cedo reclamarão os seus direitos humanos. É por isto que o Arguido considera o racismo de Moçambique pior do que o apartheid. Declara-se, no entanto, como padre e como homem totalmente antiapartheid, pois segundo o Arguido o apartheid é a coisa mais contrária à dignidade humana e à essência do Evangelho.”

“Pergunta – O Arguido critica noutra homilia a situação social de Moçambique e chega a afirmar que os filhos dos africanos são mais inteligentes do que os filhos dos europeus e no entanto não podem estudar. Entra também noutros campos da ordem administrativa e política ultrapassando os limites espirituais e apostólicos da sua missão.”
“Resposta – O Arguido respondeu que não disse que os filhos dos africanos são mais inteligentes que os filhos dos europeus, o que o Arguido disse foi que alguns filhos dos africanos são mais inteligentes do que alguns filhos de alguns europeus. No entanto, todos os filhos dos europeus de Moçambique estão a estudar e os filhos dos africanos estão quase todos a guardar gado. Deus não quer isto.”


(do livro de Pedro Ramos Brandão, “A Igreja Católica e o Estado Novo em Moçambique”, Ed. Notícias)

[O trecho faz parte do depoimento judicial de Alfonso Valverde, um dos “Padres de Burgos” aprisionado pela PIDE no final de 1971, levado para a cadeia de Machava, sendo-lhes organizado processo em Tribunal Militar, libertado no final de 1973 através de uma “oportuna” amnistia que evitou o impacto do seu julgamento. Os “Padres de Burgos” foram presos depois de denunciarem os vários massacres – Wiriyamu foi apenas o que ficou mais famoso – na região de Tete cometidos pelo exército colonial.]
publicado por João Tunes às 12:38
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2007

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


.posts recentes

. NOVO POISO

. OS VOTOS E OS RATOS

. Bom fim-de-semana

. A Guidinha é que sabe...

. SABER CONTAR

. VIOLÊNCIA SOBRE AS CRIANÇ...

. UM CRIATIVO (ou a melhor...

. PROFESSOR EGAS MONIZ

. UM PARA UM

. REVISÃO

.arquivos

. Setembro 2007

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

blogs SAPO

.subscrever feeds