Sexta-feira, 21 de Outubro de 2005

FALANDO A FALAR (1)

cumbija_maio_70.JPG

Obviamente que as circunstâncias impõem muito. No mínimo, condicionam. No caso de uma criança ou de um jovem, as circunstâncias são praticamente tudo. Como nascemos, onde nascemos, como e onde nos criam, as referências como baias, os modelos bebidos, são elas que nos fazem crescer e como crescemos. Assim, responder pelo que não está nas nossas mãos nem na vontade, sobretudo quando ela não é autónoma, ou, no mínimo, impotente, seria um absurdo, uma estupidez, senão uma canalhice.

Mas, virando adultos e cidadãos, temos o dever de honrar a memória, sermos limpo com ela e entender os porquês, o máximo de porquês sobre porque fomos assim e não assado, ou seja, os condicionalismos – os que nos limitaram e os que não fomos capazes de mudar. Deixarmos esqueletos ou sombras a guardarem a memória é uma recusa para se ser adulto e cidadão. Afinal, desperdiçar uma oportunidade de, pela memória, com a ajuda da cultura e da inteligência, ajustarmos contas, psicológica e culturalmente, com as circunstâncias que não permitiram nascermos e crescermos melhor. E também sermos justos para com aqueles que ficaram nas valetas do caminho por onde pudemos construir os nossos – pequenos, médios ou grandes - privilégios no nosso crescer.

Alguns de nós, por acaso de nascimento ou de crescimento, tivemos de fazer-nos homens e mulheres rodeados de paradoxos, metidos neles, alguns bens cruéis (para nós e para outros). Onde está o problema? E não deve tirar uma pinga de alegria por, assim, termos sido felizes a deixarmos crescerem-nos as raízes. Ainda bem, porque uma infelicidade aditiva não ia resolver um grão de infelicidade alheia. Mas uma susceptibilidade sobre as nossas circunstâncias, não é uma cumplicidade escusada até porque retroactiva?

Mandaram e eu fui defender o Império em África e a que chamavam o "Portugal do Minho a Timor". Ainda hoje estou para saber porquê e toda a natureza e essência do que estive a “defender”. Tenho esse direito, julgo. E, em história, não pode, não deve, haver “buracos negros”. Ninguém, em nome dos seus tabus, dos seus esqueletos, dos seus silêncios tecidos, das suas feridas, me vai roubar esse direito de perguntar e querer saber sobre essa minha memória, infelizmente partilhada por meio milhão de portugueses a quem deram uma G3 como noiva. Assim a velha e saudosa África não é coutada histórica dos luso-africanistas de morada, nascimento ou bens, é também assunto que respeita a todos, incluindo aqueles que mandaram para lá, defender "aquilo". Posso é enganar-me com o parceiro ou parceira com quem meto conversa para partilhar o querer saber e que não esteja para me aturar. Mas esse é o mal, ou equívoco, de mais fácil solução. Que me desculpem os respeitáveis luso-africanos com feridas mal cicatrizadas, mas eu não me calo porque não me posso calar. Porque quero e preciso saber.
publicado por João Tunes às 18:21
link do post | comentar | favorito
|
5 comentários:
De Quadrpede Rosa a 22 de Outubro de 2005 às 18:18
Vou meter a colherada na correcção de pormenor que a IO (Chuinga.i)promoveu no primeiro comentário a este post. Ora, o João disse (e bem)-Mandaram e eu fui defender o Império em África e a que chamavam... - ao contrário do que a comentadora reconhece como mais plausível -chamaram-me e fui defender os interesses do império (sede em Lisboa)-, estando no seu direito.
Parece estar no verbo empregue a divergência e, por extensão, nos "interesses" do Império.
Concordo com o João.
Na vida militar o chamamento equivale a uma ordem, ao mando.Ele foi mandado para a Guiné para defender o Império (que o era), independentemente de interesses claros ou obscuros que mantinham estas colónias desde os seus "descobrimentos".
Aconteceu a ele - aconteceu a quase todos nós - na mesma razão que levou a onda de jovens militares franceses para o norte de África, os Ingleses para as Malvinas, os Russos para a Tchetchénia, os Espanhóis para a América do Sul.
Eu estive em Moçambique, a maravilha de África. Sou anticolonialista. Sou pela independência dos povos. Empenho-me para que exista a Liberdade.
Não se crie,ainda hoje, na mente das pessoas que os militares estavam ao serviço dos colonos ou do Império : estavam ao serviço do País, bem ou mal gerido que fosse, e cumpriam um penoso dever no qual saíram eles como únicos perdedores... aqueles que sobreviveram ao "chamamento"!


De RN a 22 de Outubro de 2005 às 01:12
Logo às 13h 30m! Qualquer dia escrevo algumas coisas sobre a minha "África". Não cheguei a ir porque, em 1968, quando me procuraram andava ocupado fora de casa e não cheguei a receber a convocatória.
Mas em 1962 e 63 dei muitas recrutas, em Elvas (RC1 e BC8) a preparar a rapaziada para a guerra. Contra o que se possa imaginar um alferes com boa ligação aos recrutas seus instruendos pode, em certas circunstâncias, ter uma razoável capacidade, (com riscos, é claro) para lhes explicar que "inimigos" iam combater e de quem era a pátria onde iam fazer a guerra. Quase sempre consegui explicar que a instrução que lhes ministrava devia ser só para se defenderem e não para ganharem uma guerra que só era justa do outro lado.
Um Abraço


De IO a 21 de Outubro de 2005 às 23:02
Conto-te uma história (com h, não estória): o pai de uma amiga, no final dos anos 50 tentou dar o salto para França, não havia emprego para ele no Sabugal. Foi agarrado na fronteira lusa e metido na choça. Dois dias depois, foi informado que, se aceitasse ir para Angola, era um homem livre. Ele foi... Sei de n histórias assim, tenho outra amiga, poeta com maiúscula, que traz família, aqui das beiras, a quem o pão, finalmente, veio de terem aceite ir para os colonatos do caminho de ferro de Benguela. Volto a dizer, não é o meu caso, não me estou a defender (pai + mãe sou 'branca de 7ª' e não houve fome na origem da partida do trisavô). Sabes, o Mia Couto disse uma vez que, em Moçambique, "os brancos pobres eram mais racistas que os ricos". Infelizmente, concordo com ele: era um tempo em que havia mais ricos cultos que agora - parece às vezes... e culto, para mim, é acima de instruído.
ABRAÇO, acho óptimo estares a meter alguns dedos na ferida, IO.


De Joo a 21 de Outubro de 2005 às 20:29
Semi-convencido, aceito a correcção. Mas como a questão está ainda nebulosa, do ponto de vista da história, cedo e não faço finca pé (um dia destes explicas direito os meios coercisos utilizados pela máquina repressiva para levar os colonos servirem de "tampão", julgo que te referes em particular aos do vale do Limpopo...). Mas já dei o toque de consenso.


De IO a 21 de Outubro de 2005 às 20:07
João: aqui, acho que o correcto é 'chamaram-me e fui defender os interesses do império (sede em Lisboa) - que, cá para mim se estava completamente nas tintas para os colonos. E não falo de mim, mas vê o caso dos coitados que iam daqui para os colonatos, fazer de tampão humano. Sim, houve uma geração inteira que se sacrificou, não à vontade dos colonos, para quem o regime inventou a História que lhe interessava (e daí o chorrilho de asneiras que muitos deles contam agora), mas à pouco inteligente política colonial-fascista de Lisboa. Abraço, IO.


Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2007

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


.posts recentes

. NOVO POISO

. OS VOTOS E OS RATOS

. Bom fim-de-semana

. A Guidinha é que sabe...

. SABER CONTAR

. VIOLÊNCIA SOBRE AS CRIANÇ...

. UM CRIATIVO (ou a melhor...

. PROFESSOR EGAS MONIZ

. UM PARA UM

. REVISÃO

.arquivos

. Setembro 2007

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

blogs SAPO

.subscrever feeds