Terça-feira, 13 de Dezembro de 2005

UM ALERTA DE ALEGRETE PREOCUPADO

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Já previa que a candidatura de Manuel Alegre, com a sua dinâmica transversal inicial (a da captação de simpatia e apoio em eleitores de todos os partidos da esquerda e no centro não cavaquista), motivasse uma descomedida reacção dos aparelhos partidários, ciosos dos seus eleitorados. A parte conservadora e defensiva dos aparelhos, a que se perturba que qualquer alteração do "status quo" ponha em causa o rame-rame funcionalista e as suas clientelas e os dependentes (até dos postos de trabalho, em grande parte das autarquias), foi, como previa, a que mais rapidamente entrou em pânico. Da parte dos “governamentalistas” que temem que a dinâmica que leva Alegre até Belém, tire a quietude tecnocrática do cinzentismo socrático da inércia da maioria absoluta. Da parte dos aparelhos dos partidos de esquerda na oposição, na medida em que um virar á esquerda nas medidas governamentais (sobretudo com uma maior sensibilidade ao social e ao cultural) lhes pode retirar os pretextos para a contestação populista (que vive, também do seu rame-rame, com postos de trabalho à mistura, nomeadamente no sindicalismo do protesto).

Por isso, não é de estranhar que Soares seja o candidato benfazejo para os aparelhos do PS e do PCP (e hoje, não meto, por economia, a hipótese - que se me afigura continuar plausível - de que Sócrates deseja Cavaco em Belém) – porque se anuncia como um candidato para um mandato sem ondas que perturbem os papéis já praticados e já vistos, neste início de legislatura, de Sócrates a mandar e Jerónimo a protestar. E também não admira que Louçã, solto deste cambalacho e melhor preparado, esteja a desempenhar o papel que lhe compete de inconformista e a afirmar causas próprias e com uma performance bem interessante.

Obviamente que Jerónimo tem jogo a esconder, fazendo uma representação de duplicidade (usar o tempo de antena para a propaganda populista enquanto namora descaramente Soares e tenta forçar que seja ele a ir á segunda volta) e, por isso, só mostra uma parte da antipatia preocupada para com Alegre que vai nas almas políticas dos controleiros do PCP.

Naturalmente, a brutalidade da reacção aparelhística tinha de vir do PS contra Manuel Alegre. Primeiro, como filho enjeitado que se recusa a ser expulso de casa. Segundo, pelas consequências na atmosfera política de uma vitória de Alegre. Terceiro, porque Soares, desde que lhes acomodem os barões soaristas em boas sinecuras, esvazia Belém de capacidade de referência, deixando São Bento na paz da sombra das oliveiras.

Nada, pois, que surpreenda. No PS que controla a candidatura de Soares, vive-se a agressividade do desespero de que o grande combate a travar é, desesperadamente, meter Soares na frente de Alegre. E as armas de arremesso são as também previstas – atacar Alegre enquanto militante e dirigente do PS, não lhe largando as canelas, ora pressionando-o para que se demita do PS, ora propagando, e repetindo até à náusea, as putativas conflitualidades entre a condição de candidato e de deputado e dirigente do PS.

O que me surpreende, podendo ser fatal para os objectivos de Alegre, é o cordel que este candidato e alguns dos seus apoiantes e simultaneamente militantes do PS, têm dado ao estender da estratégia de destruição de Alegre, alimentando e prolongando polémicas sobre o binómio Alegre/PS. E isto é não entender que os apoios a Alegre, e de onde pode vir a dinâmica de o colocar em Belém, vai muito para além do PS, sobretudo do mundo da sua militância mais caseira. Fica a preocupação e o alerta. Para despacho de quem de direito. Mas, por favor, não amarrem Alegre a tricas do PS, porque isso estreita de tal forma a profundidade e a transversalidade da candidatura, colocando-o em fenómeno de reacção ás diatribes, sofismas e armadilhas manhosas dos soaristas, levando-lhes a água ao moinho (quem se remete a defender-se, acaba por reconhecer, de facto, a superioridade de quem ataca). Para a frente, os partidos são essenciais á democracia, mas há mais mundo que os partidos (e quanto a aparelhos, nem se fala).
publicado por João Tunes às 17:38
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4 comentários:
De Joo a 13 de Dezembro de 2005 às 23:21
Raimundo, ó Raimundo, olha que a Margarida pirou-se do "Puxa Palavra" e veio até aqui. Perde-lhe o voto, perde, que o Sócrates zanga-se.


De Margarida a 13 de Dezembro de 2005 às 22:20
"não amarrem Alegre a tricas do PS", diz o João Tunes. Mas não é o Alegre que anda todos os dias (ou quase) a provocar gratuitamente não só o PS como até os outros partidos? Como por exemplo achar que as assinaturas que angariou têm qualidade superior às dos outros?


De carlos alberto a 13 de Dezembro de 2005 às 21:17
Candidato Outono Inverno

Há pouco tempo, no dia 29 de Junho deste ano, o DN descrevia da seguinte forma a reunião do Grupo Parlamentar do PS com o Primeiro-Ministro, realizada no dia anterior:
«(…) No encontro, destaque igualmente para a intervenção de Manuel Alegre. Classificada por quem ouviu como claramente "colada às posições" do primeiro-ministro e do Governo. Na defesa da tese que as medidas tomadas são-no em defesa e em nome da manutenção do Estado social em Portugal. Uma solidariedade com Sócrates que Campos e Cunha está longe de conseguir entre os deputados.
O histórico socialista aproveitou a reunião para comentar a reacção dos sindicatos às actuais medidas do Executivo, considerando que estes acabam por prestar um mau serviço aos trabalhadores. O vice-presidente da Assembleia lembrou que este tipo de "contestação nas ruas só costuma acontecer quando o PS é Governo", chamando a atenção para o facto de com os executivos do PSD as estruturas sindicais serem bastante mais comedidas na sua contestação.
A questão da autoridade do Estado democrático também foi colocada por Manuel Alegre, que lembrou o facto de na recente manifestação dos polícias se passaram algumas fronteiras, com agentes a ofenderem directamente o primeiro-ministro.
A intervenção de Manuel Alegre foi particularmente bem acolhida pela sala, de acordo com os relatos feitos ao DN.»
A notícia nunca foi desmentida.


De Maio a 13 de Dezembro de 2005 às 18:13
Caro João Tunes, li atentamente o seu texto e, sem prejuízo de uma apreciação mais demorada e profunda que ele mereceria, peço-lhe encarecidamente que o faça chegar a Manuel Alegre ou ao seu staff.
Eu não quero um Portugal MAIOR, com Cavaco.
Do que nós precisamos é mesmo de um Portugal MELHOR com Alegre!

Saudações livres e democráticas!
Maio


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