Terça-feira, 13 de Dezembro de 2005

O FRETE DO PASTEL DE BACALHAU

FLAMENCO.jpg

Pela primeira vez vi Cavaco, calmamente e nos vagares dos sítios próprios, estar num debate com o opositor a servir de pastelinho de bacalhau como acompanhamento ao sagrado e apetecido copo de três, celebrado, no final, com estalo de agrado.

[Bolas! Só este inefável Jerónimo me faz ter saudades de Cunhal. Precisando: sobretudo, saudades de Bento Gonçalves. Salvando-se aquela maneira canhota de tomar apontamentos com a mão esquerda (que, afinal, é dádiva genética), o resto é menos que fraco, mesmo indigente. E até aquelas mãos grandes e estendidas para a câmara, para darem a dimensão de ameaça de genocídio de classe, com o Gulag nas costas, nacionalizando-nos e submetendo-nos ao controlo operário, lembram-me apenas as manápulas do polícia militar que ele foi e como tal fez a guerra colonial a apanhar magalas mal ataviados ou com os copos nas ruas de Bissau (por curiosidade, ao mesmo tempo que eu e na mesma colónia, só que me coube o mato e a ele o policiamento da capital da colónia). Hoje, Jerónimo mostrou aquilo de que não passa – um antigo e esquecido aristocrata afinador de máquinas da idade da pré-informatização, com estatuto intelectual de delegado sindical (chumbaria, julgo, no exame de aptidão a dirigente sindical), bailarino exímio, cumprimentador de abraços e beijinhos, mais os méritos de cantador de fados operários e malandros. E de tanto se ter esforçado em levar Soares ao colo, até se esqueceu de combater Cavaco. Com o devido respeito pelo seu estado de saúde, uma pena que não tenha ficado afónico e deixado Cavaco a falar para o boneco.]

Pois vi e ouvi Cavaco e Jerónimo. E torci-me e retorci-me. Não pelo Jerónimo (fez o número, está feito, o que interessa é que tenha tido nota positiva do tutor Domingos Abrantes) mas pela calma de centurião catedrático de Cavaco a ensinar ao Jerónimo que as divisões de classe não são entre trabalhadores bons e trabalhadores maus (face à dicotomia CGTP/UGT esgrimida pelo Jerónimo para classificar decentes e indecentes acordos de concertação social).

Confesso, não gosto é de ver o Cavaco calmo, sorridente, dominador. O homem assusta-me. Como hoje. Sobretudo assim, a entrar na autoestrada sem pagar portagem por greve do portageiro. Pode ser que, na próxima, o homem se volte a estampar. Vamos lá ver. Vontade não me falta de ver isso, confesso, confirmando que sofro de parcialidade sofredora.
publicado por João Tunes às 23:11
link do post | comentar | favorito
|
2 comentários:
De Joo a 14 de Dezembro de 2005 às 00:48
Ó Margarida, leia a biografia do candidato Jerónimo no seu site oficial, sff. Foi lá que soube da sua experiência como PM (vulgo "chui militar") em Bissau (69/71). E sabe-se, quem não tivesse manápulas (mãos grandes), não ia para a PM deitar as luvas aos magalas mal comportados para os meter atrás das grades. Era uma questão de apetrechos naturais para a função - sem manápulas não dá (não dava, não dará) para se ser PM, pois o magala que pisava o risco, pirava-se.


De Margarida a 14 de Dezembro de 2005 às 00:35
O "argumento das manápulas" ou o grau zero da argumentação "política" do João Tunes. Francamente, para safar o Alegre, era preciso isso? As coisas estão assim tão mal?


Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2007

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


.posts recentes

. NOVO POISO

. OS VOTOS E OS RATOS

. Bom fim-de-semana

. A Guidinha é que sabe...

. SABER CONTAR

. VIOLÊNCIA SOBRE AS CRIANÇ...

. UM CRIATIVO (ou a melhor...

. PROFESSOR EGAS MONIZ

. UM PARA UM

. REVISÃO

.arquivos

. Setembro 2007

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

blogs SAPO

.subscrever feeds