Quarta-feira, 26 de Outubro de 2005

PICASSO, ESSE MALAGUEÑO

pic.JPG

Aqui lembra-se que, ontem, foi dia de efeméride do nascimento de Pablo Picasso. Confirma-se, está nos registos, Pablo Picasso, malagueño de nascimento (embora se tenha feito homem e artista em Barcelona), nasceu a 25 de Outubro de 1881, na cidade da costa andaluza.

E eu, de repente, com esta ajuda, "viajei" para Málaga. Porque, quem conhece Málaga, entende melhor Picasso. Porque aquela é terra que convida ao contrabando, comer tâmaras, gamar turistas ou ser-se um génio em alguma coisa (que mais não seja, olhar a terra e o mar e vontade incontida de descobrir o sortilégio das cores), porque a cidade é suficientemente grandiosa para só comportar uma multidão de medíocres (a maioria dos malaguenõs é demasiado parola, segundo o meu pessoalíssimo critério de embirrações).

[Achega: Para quem não conhece a cidade, sugiro que arranje um espaço de três dias (incluindo o tempo de viagem) e dé um salto a Málaga (não é longe) e mesmo que não se goste da cidade - eu não gosto! - o novel Museu Picasso lá montado é não só uma preciosidade requintada da engenharia e arquitectura museológica como está lá quase todo, seguramente o melhor, Picasso. E Picasso, visto em Málaga, entende-se melhor que metido em Paris, Barcelona ou Madrid. Talvez, em qualidade e profundidade, um dos melhores museus do mundo.]

Málaga foi, no tempo da República Espanhola, um dos principais centros de irradiação do anarquismo andaluz. Ao contrário de Sevilha e Cadiz, que se renderam facilmente, em Málaga houve uma resistência maluca e brava de bater Franco, mas, depois, venderam caro o seu insurrecto amor à liberdade libertária. Vieram milhares de fascistas italianos para vergar os malagueños, mataram-nos como cães, rua a rua, casa a casa, fizeram de Málaga (importante como ponto de ligação à logística do apoio bélico de Mussolini a Franco) um centro de vingança destinado a estirpar o desejo de liberdade espanhola e o seu direito a defenderem a República. [os fascistas italianos pagaram, com juros, depois e em Gaudalajara, morrendo aos milhares e como moscas varejeiras cobardolas, pagando as atrocidades em Málaga, revingando-se depois, é verdade.]

A cidade, a urbe impoluta de um povo indómito, massacrada pelos “fascios”, ficou irreconhecível. Sempre a conheci como uma das mais desinteressantes grandes cidades espanholas. Valeu-lhe, agora, um privilégio de nascimento - Picasso. E que privilégio! Picasso maior está em Málaga, Málaga é maior com Picasso. O que um patrício, depois de morto, pode fazer pela regeneração da sua terra! Porque, a própria cidade mudou para muito melhor, aligeirou o seu ímpeto turístico e mercenário, achou que devia merecer um Museu daqueles com um génio tamanho ali metido, ali nascido. Ainda bem. Por este andar, Málaga ainda volta, um dia, a ser terra de liberdade libertária, como se os fascistas italianos e os falanguistas não lhe tivessem dobrado a espinha. Nada é eterno, é verdade. Nem a vergonha. Valha isso.
publicado por João Tunes às 16:48
link do post | comentar | favorito
|
4 comentários:
De IO a 26 de Outubro de 2005 às 23:43
Brilhante, João!


De Joo a 26 de Outubro de 2005 às 23:13
Ah, onde chegaríamos se tivessemos de admirar autor e obra no mesmo plano de apreciação. Se calhar não líamos um livro, não víamos um filme, não apreciávamos um quadro... Concordo com o QR em como a melhor biografia de um autor é a sua obra. Se, no entanto, o autor tiver uma intervenção cívica, política e social relevante, obviamente que temos direito a formular juízo sobre ela. Mas não devemos misturar os planos na mistura de juízos, embora, em vários casos, entender a obra obrigue a entender o autor. E sobre Picasso (e sobre Chaplin), que foram homens de muitas mulheres, muita coisa de terrível se disse mas sem que se consiga distinguir o que é dito em verdade ou pelo ressentimento da substituição (uma mulher, e um homem, substituída talvez seja a pior fonte de informação sobre o sujeito com quem ela viveu). Obrigado pela simpatia dos dois - QR e IO.


De IO a 26 de Outubro de 2005 às 22:15
No chuinga, já te agradeci o enriquecedor comentário - continua a fazê-lo!, abraço, uma que ficou convencida de que, para além de ver o 'Guernica', ainda lhe falta Málaga.


De Quadrpede Rosa a 26 de Outubro de 2005 às 22:06
Sempre gostei da obra de Picasso, mesmo depois de ler o livro escrito por Genevieve Laporte - "Tão Tarde ao Anoitecer..."
A melhor biografia que podemos ter de um Autor- Criador é a sua obra; o perfil é colateral, assessório e, por isso, meramente insignificante. Acho eu!...


Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2007

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


.posts recentes

. NOVO POISO

. OS VOTOS E OS RATOS

. Bom fim-de-semana

. A Guidinha é que sabe...

. SABER CONTAR

. VIOLÊNCIA SOBRE AS CRIANÇ...

. UM CRIATIVO (ou a melhor...

. PROFESSOR EGAS MONIZ

. UM PARA UM

. REVISÃO

.arquivos

. Setembro 2007

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

blogs SAPO

.subscrever feeds