Quinta-feira, 27 de Outubro de 2005

PAGANISMO FÍLMICO (1)

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Entrei de conversa sobre cinema (ainda bem, porque estava farto de, com ela, discutir política, Moçambique, racismo e os camarões do Polana) com a Isabella e, depois de darmos uma volta pelo cinema italiano, a que se juntou outro cinéfilo primoroso que resguarda o seu nome próprio, acabámos, como não podia deixar de ser, nas pessoas, as que nos dão os rostos e as emoções e que tornam os filmes matéria humana – os actores e as actrizes.

Interessante o trajecto infalível dos caminhos nas conversas dos que gostam de cinema – aparece um facto, um episódio ou um objecto; vem um filme e depois um realizador à baila; cruzam-se devoções e embirrações; preferências patati-patatá; a erudição começa a fenecer na sabatina; foge-se para as pessoas que nos marcam as memórias com rostos – os homens e as mulheres que humanizaram as imagens e, afinal, os que são os homens e as mulheres da “nossa vida” feita fantasia.

A Isabella, ladina, antecipou-se e atirou com o seu culto pela Annie Girardot. O que ela foi dizer. Eu fiquei encolhido, sem fala, ciumento até, porque tinha essa mulher-actriz como alguém que era cá muito minha, privadíssima, guardada a sete chaves no meu baú dos sentimentos que o cinema nos pode dar. E lá lhe larguei um “Bravô!” assim que a modos para engraxar, passando-lhe a mão pelo pelo, com o intuito secreto de ela, lambuzada no seu ego, ficar deslumbrada com o consenso e dali não sair. Mas o remorso dói e por isso não passo sem confissão. Dei-lhe graxa sim, sem à verdade faltar, mas para ela fazer um stop narcisista e não ir por aí fora e ás tantas entrar-me nas minhas privacidades maiores e convidar para a mesa tertuliana as outras divas que me habitam o coração de fantasia – a Ana Mgnani e a Cláudia Cardinale. E mais não digo sobre elas para não tentar partilhas públicas que me tiravam o gozo do recato que deve enrolar qualquer devoção.

Magnani já se foi, Annie e Cláudia, por aí continuam a passear os seus olhares de grandes senhoras. Qualquer uma das três actrizes aqui referidas, têm (teve, no caso da Magnani), como qualquer grande mulher, e é isso que distingue uma mulher bonita de uma outra que seja feia (e isso só o sabemos quando elas caminham para os oitenta), a capacidade de envelhecerem com uma beleza serenamente amadurecida, em que cada ruga que acresce só realça o olhar, em que as mãos mais esguias e mais desenhadas ensinam a sabedoria do andar no mundo, em que os olhos nunca morrem de espanto seu e dos outros.

E é por assim pensar que considero uma frase pagã a de um dos “comentadores” do ”chuinga”, o que disse esta barbaridade a propósito da Annie: “Vi-a na TV5 não há muito tempo e, apesar do peso dos anos, continua altiva, forte, senhora.”. Ó homem, ”apesar do peso dos anos”? Ou o “comentador” é um catraio imberbe à procura de virgens casadoiras ou não devia atrever-se a falar de deusas. Mas, por favor e pelo menos, mais respeitinho. Está bem?

Fiquem-se com este riso único, o da imagem, porque nunca houve riso no cinema como o da Ana Magnani, que nos vira a alma do avesso e nos tira a idade. E passem muito bem, deixando-me as minhas divas em paz, quase só minhas.
publicado por João Tunes às 18:07
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5 comentários:
De Joo a 27 de Outubro de 2005 às 23:37
Continuem vocês a falar de cinema. Eu volto à política, o meu tema preferido.


De IO a 27 de Outubro de 2005 às 22:57
Ah ah ah!, já agora, o João da Cardinale tem que ouvir esta: eu só parti para a discussão da polítika, porque fui provokada!... de resto, só falo de passarinhos e estrelas lol - o Trastevere!, só de pronunciar, me vem o bairro, hoje boémio, à imagem! - mesmo antes de se atravessar a ponte, há uma livraria cujas obras custavam (1995) 1000 liras por cada 100 páginas. Um escândalo a comparar com o que por cá se pagava, então! - abraço, IO. - E, prometo, um destes dias, hei-de fazer um 'post' sobre outro berço do cinema italiano: Napoli, Nápoles, a belíssima cidade de Tótó, Sofia Loren e Massimo Troisi (o 'carteiro de P.Neruda').


De Quadrpede Rosa a 27 de Outubro de 2005 às 22:42
Mau! Anna Magnani só para os dois é descortesia a mais!...
Eu citei "Roma, Città Aperta" para dizer mais ou menos aquilo que é dito da Magnani - "qualquer filme com Magnani é um filme Magnani".
Sabíeis vós, ó detentores exclusivos da diva (que termo, apre!) que ela sempre viveu no meio do povo, no bairro mais pobre de Roma, o Trastevere? E que foi neste bairro rodada a película "Roma, Cidade aberta?" E que o povo a tratava por "Nanarella"? E sabiam seus egoistas, que a Magnani não foi receber o Óscar para a melhor actriz, exigindo que o mesmo lhe fosse enviado pelo correio?
Para a próxima, repartam com os amigos...
P.S.(post scriptum,nada de política)- Esta semana o tema é cinema, intriduzido por uma "gaffe" minha. É bom que mudemos de tema, de quando em vez, repartindo-o pelos dois blogues que se "guerreiam".


De Joo a 27 de Outubro de 2005 às 18:40
Negócio feito: Claudia só para mim; Mangano só para ti; Annie e Magnani para os dois. Afinal, mais fácil que nas transferências dos jogadores de futebol. Quanto a essa dos "efeitos artificais" , não concordo nada. Sabe-se lá de quantas mentiras se faz a verdade, cada verdade... Quantas não sei, mas que são muitas disso tenho a certezinha.


De IO a 27 de Outubro de 2005 às 18:21
Com a Cardinale, podes ficar... agora, esta Signora que tão bem homenageias, trouxe-me outra, que considero de igual gabarito: Silvana Mangano.
Um prazer, ler este teu texto - um beijo, outra saudosa fã deste cinema de verdade, que valia sem serem precisos efeitos artificiais...


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