Quinta-feira, 27 de Outubro de 2005

PAGANISMO FÍLMICO (2)

visconti195[1].jpg

Alguém, e alguém é muito, mais que o Romeiro do Garrett, talvez para me desfeitear, só pode, expressa que foi a minha paixão de ilusão, aquela curtida no escuro do cinema quando a vida se interrompe e ficamos feitos só olhar com a vida a passar para a vida do écran, e uma ilusão vale mais que mil realidades, numa confissão minha a merecer cumplicidade como prémio, sim, porque eu não me confesso aí pelas esquinas, muito menos com qualquer um ou qualquer uma, esse alguém, voltando à meada, entra-me caixa de comentários dentro e espeta-me esta farpa de desdém: “Com a Cardinale, podes ficar... “ (a afronta fica a bold para jamais ser esquecida). Vejam lá que até me apeteceu dizer, displicente como um maduro de papo cheio: pois, é claro, “está verde, não presta” (fica também a bold a vontade de mandar a desfeita morder o pó do tapete). Mas não disse, nem digo, porque a consideração a isso obriga, por menos me chateei mas por muito mais perdoei, estando tempo de um compasso diplomático no bloganço que, para mais e para menos, anda por aí assanhado com as presidenciais. Não disse, e não digo, mas engulo, a enorme custo, a desfeita sobranceira. Pior, não bastando o olhar de arrasa sobre a minha idolatrada Cláudia, vem-me, pimpona, meter-me, a contraponto, a mamuda morenaça da Silvana Mangano. Ora bem, entendido quanto ao critério. E hora da desforra. A Silvanita, minha cara, fez um neo-realismo de trazer por casa, adornou ancas, pernas e mamas, mais uns olhitos de carneira mal morta, vestiu vestido de chita a arrastar pelo vale do Pó para adivinhar pernas bem torneadas, e que mais? Ficou-se por aí. Acabou como começou, previsível, as mesmas ancas, as mesmas pernas, as mesmas mamas, o mesmo olhar standard a posar para o “la minute”. Trabalhando com realizadores sabendo da poda, espremida no fraco talento, o que Deus lhe deu, além das guloseimas dos belos seios, o melhor que deixou mais foram os vestido de chita planando no Pó. Dirá a opositora e inimiga dos meus sonhos de ilusão, que a Cláudia não andou longe nos adornos e nos facilitanços corporais. Pois não, é verdade, ganhar a vida a isso obriga. E que matéria-prima aquele corpo tem, maior que a mina de oiro de maior reserva. Mas um homem, um artista, o maior de todo o cinema italiano e arredores, um conde ainda para mais, marxista também, porque não, um esteta ímpar, um realizador que fazia cinema, ópera, teatro, pintura e sinfonia enquanto filmava, agarrou na Cláudia-corpo, e transformou-a numa deusa-actriz. A ela e ao canastrão mafioso do Alain Delon, mais ao canastrão mor - cow-boy e trapezista chamado Burt Lencaster, e fez, não só de Cláudia, também de Delon, sobretudo de Lencaster, génios de representação, nesse filme único, irrepetível, chamado “O Leopardo”. Cláudia aguentou-se onde a Silvanita (Mangano) só daria olhinhos, boquinhas, ajeitar de cabelo e levantar as bainhas do vestido à maneira da Beatriz Costa. Revejam a célebre cena do “baile”, melhor: o “fim-de-baile” de “O Leopardo”, depois digam-me se há cena maior no cinema. E, depois de Visconti, a Cláudia, a divina Cláudia, deixou só de ser olhos, lábios, boa perna, seios generosos e tudo o mais. Passou a diva. Com quem então, a Silvanita é que era, ó camarada? Está bem, está bem. Uff, estava a ver que não chegava ao fim do desabafo contra o desaforo...

Na imagem, Visconti preparando com CC e Burt a famosa cena do "baile" de "O Leopardo".
publicado por João Tunes às 23:14
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3 comentários:
De Carlos a 28 de Outubro de 2005 às 04:07
puxa!!! e eu a pensar que o botão que o faz disparar era outro!... com que então mangusso, hein?


De Joo a 27 de Outubro de 2005 às 23:35
Desisto, pausa ao cinema, volto á política. Temos aí as presidenciais. E é preciso alargar a cidadania... E quem não salta, é ...???


De IO a 27 de Outubro de 2005 às 23:22
xiiii!... - pois, é , João, na imagem que fiquei da tua diva não entrava Visconti... mas, não ta roubo! - até porque, entretanto, me lembrei de outra Senhora, desta vez, e de novo, francesa: Moreau, que dizes?, vi-a, pela última vez a fazer o que até a mim me custou a acreditar, da própria Duras - foi cá uma confusão para o meu olhar!, só mesmo uma grande actriz o conseguiria. Abraço, IO.


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