Sexta-feira, 28 de Outubro de 2005

MEMÓRIA E TECNOLOGIA

20.JPG

Vasculho em fotos velhas e esquecidas. A nova maquineta puxa para isso – passar para o computador as velhas recordações metidas em caixas meio esfareladas e só remexidas de quando em vez. Há que actualizar, usar a tecnologia para melhor rebobinar a memória. Raio da memória, bem vinda seja a tecnologia.

Na reorganização que a coisa impõe, fica a noção de como a câmara faltou em tantos momentos de registo perdido. Em alguns casos, ainda bem, porque senão iria corar de embaraço. Noutras não, a foto que falta, a que não se tirou ou a que se perdeu, seria documento único e essencial para rever rostos, momentos e emoções. Raio de perda da memória, nem a tecnologia te salva.

Da infância, o que (re)encontro, chega-me. Não foi assim tão fulgurante que merecesse mais. Da juventude, mais ou menos. Há documentos a mais e redundantes e outros (demais) a menos. Depois, os filhos têm suporte a dar pelas barbas, está ali quase tudo e o que não está não esqueceu.

O que sinto sobretudo falta, nas fotos velhas, é o registo dos grandes amigos que me passaram pela emoção. E, ao gerir a memória, esforçando-me por isso, sem o auxílio da imagem, fica-me uma dor de perda indocumentada, a incapacidade de rever rosto ou gesto, situar uma precisa figura, o seu desenho, na neblina de uma fraternidade comida pelo tempo. Que teve o seu tempo. E passou à história, à nossa história, sem um registo de posteridade. Dói-me isso.

Encontrei esta, em que estou com um dos meus amigos que tive como mais irmão. Por sinal, um, talvez o mais puro do meu grupo, mas a quem a puta da gaja teve pressa em ceifar e quando tinha tanto sacana para se virar. Vá lá, ficou-me esta foto do meu sempre querido Zé, esse guardador de sonhos e quimeras, engenheirando tramóias para rasgar liberdades e imaginar imaginações, agora reduzido a um quadrado pequenino de cartolina amarela e recortada nos lados, onde não coube essa amizade com vontade de mudar o mundo para melhor. Ficando, para o retrato, apenas o abraço juvenil de desafio cúmplice e de afirmação fraterna. Merda para a tecnologia que também é mestra a trazer revolta de volta. E não julguem que eu queria os meus "vinte anos" de volta, bastava-me, agora, o meu amigo Zé. Stop. Já passou.

Imagem: Dois amigos, João e Zé, São Domingos de Benfica, dezanove anos eram as idades.
publicado por João Tunes às 16:54
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