Terça-feira, 1 de Novembro de 2005

A CARTA DA ANA/SIGA

Guien_Carta_Siga_PauloRamos_v2.jpg

Sei que é abuso, mas não resisto. Talvez a intenção de clarificar me absolva. Sei lá. Só que esta história calou-me fundo. E confio na cumplicidade dos meus camaradas Luís e Virgínio, para me perdoarem esta (mais uma) parasitagem. Mas, acreditem, aqui o pecado maior é o de gula. Mais, concedo, também o da inveja pela sinceridade descarnada.

Saber o que andámos a fazer por África e nas guerras coloniais, passa necessariamente por entender o “outro lado”. Só quando conseguirmos equilibrar a percepção das partes, saberemos o que aquilo foi em termos de drama comum. Na altura, não era possível. Imediatamente a seguir, também não. Tudo esteve fresco e a queimar a memória com feridas. Ainda agora, anda para aí meio milhão a querer dignificar uma juventude rasgada de canhota na mão. Outros, ainda mais, que apanhámos em cima do corpo e do espaço, ainda clamam contra os “crimes da descolonização” (queriam mais, muito mais!) ou suspiram de saudades do quente feitiço africano na hora do pôr do sol (com serventia de pretos dóceis). E o “outro lado”? O lado dos que nos mataram e nós matámos? Existiram? Quem eram? Seriam pessoas como nós? Um tiro a entrar no peito custava-lhes tanto como a “nós”? Eram?

Esta falha, julgo, é o que falta para completar o quadro. Sentirmos a humanidade concreta do “inimigo”. E, por essa via, completarmos o ciclo humano de ligação entre “nós” e os “outros”. Ultrapassando, assim, o racismo impregnante que perpetua a cultura colonial que nos está agarrada à pele, sendo capazes de olhar os africanos como humanos nossos iguais, do melhor até ao pior, recompondo-nos de um estatuto de supremacia que precisava de Pide e de pólvora, onde só os podíamos olhar de cima para baixo, tornando-os, finalmente, vistos como homens. E, assim, tornando-nos homens, nós, como todos os homens. Não para nos diminuirmos ou autoflagelarmos, apenas para crescermos como homens e agentes históricos. Ou seja, em termos de “psicanálise social”, superarmos a nossa falha narcísica como europeus e como colonos que impede adquirirmos uma personalidade adulta e estruturada como povo que andou séculos por África e necessita, sem dor ou com dor necessária, de se libertar do peso dessa “fatalidade”, em que oprimimos para compensarmos as nossas debilidades de povo de país pequeno. Até para nos reencontrarmos como povo europeu, que agora trilha caminhos da Europa. Em que nos queremos iguais.

Mais tarde ou mais cedo, a coragem perante a memória teria de servir a luz em cima da mesa. Pingo aqui e acolá, acabaremos por construir o nosso caminho de povo adulto. A história da Ana/Siga, uma enfermeira/esposa/mãe do PAIGC, capturada pela tropa colonial com uma carta de amor e cuidado, é um excelente testemunho contado aqui. Obrigado Virgínio, obrigado Luís.

Imagem: carta apreendida à Ana/Siga, do arquivo do Virgínio Briote.
publicado por João Tunes às 00:27
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1 comentário:
De C.Indico a 2 de Novembro de 2005 às 17:40
Interessante que estas reflexões, neste momento, também estão a ser feitas em Moçambique,em relação á Frelimo.


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