Terça-feira, 1 de Novembro de 2005

O CHEFE ADRAGÃO

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No último post, inspirado na leitura de um livro de Armando Sousa Teixeira, aparece a caracterização dos “sucessivos chefes todo-poderosos, autênticos títeres do regime” que tiveram como funções principais, à frente da direcção da populosa Oficina da CP no Barreiro, não só domarem o seu espírito revolucionário, reivindicativo e de classe, como, na medida do possível, chantageando emprego, ordenado e carreira, tornarem aquele baluarte operário numa força de apoio ao fascismo. E AST nomeia alguns - Rui Ulrich, Fernando de Sousa, Raul Esteves, Mendia, Bruschi, Garcia, Adragão.

Destes, só conheci o último - Victor Adragão. E bem, demasiado bem. Não porque eu tenha sido ferroviário ou aparentado. Mas porque Victor Adragão foi, nos anos cinquenta e sessenta, um quadro destacado do fascismo português que, colocado no Barreiro, tinha missões mais amplas que aquelas que desempenhava na CP. Ele, não só dirigia as Oficinas da CP (status profissional), como acumulava com as de Presidente da Câmara Municipal, do comando da Legião local e era, ainda, o Comissário da Mocidade Portuguesa.

Nesta última qualidade, ele chefão da Mocidade Portuguesa, o miúdo que eu fui, obrigado a frequentar a milícia juvenil do regime, não esquece as sessões obrigatórias de sábados à tarde na Escola Alfredo da Silva, no Barreiro, a aprender o “marcar passo e direita, esquerda, volver”. E menos esquece ver o Adragão, esse careca gordo e de faces vermelhas, fanático do Estado Novo, empoleirado no varandim de bancada, braço estendido, a gritar-nos e ensinar-nos tardes de sábado a fio, enquanto marchávamos: “Quem manda? Salazar! Salazar! Salazar!”.

Em toda a minha vida, Adragão terá sido o Chefe com quem menos aprendi. Melhor dizendo, ele deu-me uma vontade imensa de aprender o inverso daquela mensagem carneiral em que tanto se esganiçou. Assim, talvez no fundo tenha uma dívida pedagógica a pagar-lhe.

Imagem: O velho barco a vapor “Évora”, que - a par do “Trás-os-Montes” - foi a “ponte” que ligava Barreiro a Lisboa. Nos meus primeiros tempos de Barreiro, depois vieram os "diesel" e a Ponte Salazar.
publicado por João Tunes às 23:19
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5 comentários:
De Joo a 3 de Novembro de 2005 às 16:49
Estou a ter agora, pela Madalena, notícias sobre Adragão. Desde que saí do Barreiro (bastante antes do 25A), nada mais soube dele. Não sabia sequer, se estava vivo ou morto. Fica o registo-depoimento (que agradeço) a dar a saber que, em democracia, não foi feliz. Junte-se, na lista dos infortúnios, às décadas em que muitos barreirenses foram infelizes por ordens suas.


De madalena a 3 de Novembro de 2005 às 09:22
Morreu há pouco mais de 3 meses e teve uma vida muito infeliz. Só o conheci, por razões familiares, já depois do 25 de Abril.


De Manuel Correia a 3 de Novembro de 2005 às 00:34
...estou a ver que podemos combinar um almoço dos antigos chefes de quina (extraviados). De um lado as elites; do outro os graduados (falhados) da MP. Vamos a isso! Ah!, e parabens ao João pelos postes a comentar as memórias do Barreiro «antigo».


De Joo a 2 de Novembro de 2005 às 17:11
"Chefe de Quina" tb eu fui (fui "promovido" por castigo e com diploma entregue pelo Adragão que me disse na cerimónia: "Pensavas que te livravas da MP? Não, és promovido a Chefe de Quina..."). A frase de descarga dos "lusitos" transcrita não a conhecia, mas é deliciosa... Obrigado.


De C. Indico a 2 de Novembro de 2005 às 16:37
Quando se fala da M.P., fui chefe de quina, ainda me pergunto como é que nós, putos, com 9/10 anos, já apontávamos o dedo á fivela do cinto e diziamos baixinho:
Sou soldado soviético
sem Salazar saber.
Se Salazar soubesse
seria sério sarilho!


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