Sexta-feira, 4 de Novembro de 2005

IRRITAÇÃO NA HORA DE ALMOÇO(revisto, por causa de um comentário que me irritou ainda mais)

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Pois África continua de mal a pior. A maioria quer vir para cá – assaltam Ceuta e Melilla, incendeiam carros na periferia de Paris, emigram como aves cheias de gripe. Enquanto lá, não se entendem, matam-se, esfolam-se, roubam, corrompem-se e desgovernam-se. Nuns sítios, exterminam-se em guerras tribais, noutros querem as melhores terras que só os brancos sabem cultivar. Abusam da intervenção dos militares, não têm maneiras a escolher Presidentes. Sem que deixem de ser pretos, sempre pretos (bolas, não conseguem, ao menos, mudar de cor?)!

Verdade que tudo seria pior se não tivesse havido a Conferência de Berlim, onde sabiamente se cortaram às fatias todas as identidades étnicas, os territórios foram sabiamente desenhados a régua e esquadro na distribuição das tutelas pelas bandeiras europeias. Caso o desenho tivesse seguido outros traçados, os das identidades étnicas, teríamos agora, em vez de lutas tribais dentro dos Estados, guerras entre Estados, o que seria muito pior, talvez a autodestruição africana. E, então, nada nem ninguém poderia fazer o que fosse por eles.

Alguma coisa a Europa e o Mundo ganharam com a conquista e ocupação de África. E ainda se ganhará alguma coisita. Também ninguém faz nada só por fazer ou de borla. E, como diz o outro, que é professor, os europeus e os americanos, mais os australianos, têm de pagar os seus almoços. Não fomos lá para explorar, fomos só para almoçar.

Infelizmente, além de nos pagarem os almoços, alguém tinha de os pagar pois não há almoços grátis, os africanos não aproveitaram aquilo que os europeus deram a África – a civilização educada e o sentido de gestão das coisas públicas, educação, saúde, habitação, boas maneiras, religiões monoteístas, temerosas e boas para obedecer. Deixámos África cheia de escolas e quadros, universidades ao virar das esquinas, repleta de elites, sentido da ética e da honradez, humanidade no trato, o primado do sentido da igualdade de qualquer ser humano perante Deus e a Lei, ensinámos que xenofobia e racismo são crimes de selvajaria humana. Distribuímos e ensinámos a distribuir a riqueza, com os seus empresários modernos, aprendizes das boas técnicas da gestão, com burguesias nacionais e classes médias, tudo à maneira para que o liberalismo, como no resto do mundo, fosse o farol do futuro africano. Ficaram estruturas económicas, extractivas, transformadoras, industriais e agrícolas, prontas para que as matérias-primas africanas sejam aproveitadas lá, transformadas lá, com o valor acrescentado pronto a ser investido em desenvolvimento e em bem estar em África e pelos africanos. Ficaram bíblias, livros, jornais, boas bibliotecas mais boas leis, nem uma gota de alcool, de sexo vadio e opressor ou sequer prazer de ver um gajo torcer-se e enrolar-se com o chicote ou um tiro na barriga. Deixámos estradas para que os comerciantes comerciassem e as colunas militares progredissem no terreno. Tirámos as tribos anquilosadas da dispersão dos seus pastos e cultivos junto às linhas de água e orlas de florestas para dentro de "aldeias estratégicas" onde lhes fosse assegurada protecção militar e policial, ensinando-lhes o bom ordenamento urbanístico, com igreja, escola, maternidade, enfermaria, missão apostólica e posto de cipaios, prevenindo contaminação de ideologias exógenas. Igrejas também ficaram muitas, para se baptizarem, comungarem, casarem e rezarem, como os europeus lhes exemplificaram nos seus rituais de bons costumes pios em que espiavam a natureza de presença de esclavagistas beatos mas espertos, embora cruéis.

Se não aproveitam o bem que lhes fizemos, nós outros que só lá fomos para pagarmos os nossos almoços, não venham agora chatear-nos na hora do almoço. Amanhem-se!
publicado por João Tunes às 12:46
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15 comentários:
De Joo a 8 de Novembro de 2005 às 13:16
O que é essa das "cinco linhas"? Sou dono da casa e a regra é: estendam o guardanapo como bem entenderem. As únicas regras que imponho é: nada de insulto, nada de calúnia, nada de racismo, nada de xenofobia, nada de propaganda grátis. Daí para a frente, qualquer opinião, em qualquer tamanho, tem guarida.


De macsilva a 8 de Novembro de 2005 às 12:50
Lamento meu desconhecimento da regra e só posso constatar a minha incompetência para a desejada síntese. Os desenhos, esses, vimo-los todas estas noites nos noticiários da TV. Talvez eles ajudem a compreender esta outra abordagem da saga dos "jovens incompreendidos".


De C. Indico a 7 de Novembro de 2005 às 23:25
Macsilva:
A blogaria não aconselha nos comentos mais de, nesta casa, 5 linhas.É uma opinião pessoal.Estamos como os putos, sem desenhos não percebemos histórias compridas.


De macsilva a 4 de Novembro de 2005 às 19:55
Agradeço ao Manuel Correia a atenção da resposta e ao João Tunes a indulgência pela usurpação do espaço.
Como disse, baixei os braços, mas não fiquei convencido, longe disso. Correndo o risco de prolongar desnecessariamente este tema, rectifico o MC quando pensa que me referia às comunidades imigrantes em Portugal, porque não particularizava; e respondo a uma outra questão que ele trouxe à baila (e que já ouvi também a Jorge Sampaio): a lembrança, que deveremos ter sempre presente quando abordamos as questões relacionadas com a imigração, de que também nós temos extensas comunidades de emigrantes (imigrantes noutros lugares).
Como todos os imigrantes, de hoje e de todos os tempos, quem parte para terras estranhas procura melhor sorte, porque as suas lhes foram madrastas. O problema da imigração, portanto, é não só antigo mas concomitante às assimetrias do desenvolvimento, e tem, em (quase) todo o lado, o efeito de contenção dos salários (ainda que com outras contrapartidas para a economia em geral). Não se pode dizer que tal espírito de aventura seja louvável, porque é apenas mais fácil acolher-se onde o desenvolvimento já existe do que lutar para que ele aconteça nos lugares de naturalidade, mas é compreensível, nomeadamente, porque a vida de cada um é curta e as mudanças demoradas e incertas.
Em muitos países de destino, os que daqui emigraram foram tidos como pretos, porque a cor da pele, ainda que não tão tisnada, não engana as ancestrais miscigenações. Curiosamente, porém, nunca se ouviu dizer que estes, pretos entre brancos, boçais quanto baste se comparados com os cosmopolitas autóctones, se armassem ao pingarelho e participassem em distúrbios violentos e de massa nos países que os acolheram. Pode-se compreender que haverá muitas razões para que os nossos emigrantes tenham sido (e sejam), como imigrados, diferentes dos imigrados africanos, tal como destes se diferenciam outras comunidades de imigrados (vejam-se as de eslavos que proliferam pela Europa). Deste modo, a condição de termos grandes comunidades de emigrantes por esse mundo fora em nada abona para que não condenemos quem não se integra nem pretende integrar-se e pretende prolongar noutros lugares a vida de sobrevivência à custa de expedientes, do roubo e da violência.
Parece-me, e posso bem estar enganado, que com algumas comunidades africanas acontece mais qualquer coisa que faz com que frequentemente adoptem padrões de vida diferenciados (nalguns aspectos próximos dos de culturas tribais e de economias de subsistência) e resistam à integração nos países de acolhimento. Nada, porém, que o tempo, pelas sucessivas gerações, não transforme, mas as similitudes com os comportamentos dos pretos americanos na sua própria terra, ou dos nossos próprios ciganos, leva-me a crer que a integração plena é coisa demorada. Isto, porque cada um é coisa diferente do que pensa ser, não é meramente moldado pelo contexto cultural e herda comportamentos que outros já perderam ou aprenderam a sublimar melhor. As teorias dominantes do multiculturalismo e do humanitarismo não ajudarão muito, mas o tempo, sempre o tempo por caminhos ínvios, se encarregará de ir acomodando o que agora parece inacomodável.


De C.Indico a 4 de Novembro de 2005 às 19:23
Muitos países africanos há 20 anos eram mais ricos do que hoje. Veja-se o caso da Zãmbia.
Por a culpa ao capitalismo também a ponho, mas tanto a Portugal como a Angola.Não é com déspotas sanguinários e ladrões, como o Nino e o DosSantos que esses povos saem da aflitiva miséria em que vivem.Os ditos, e quadrilha anexa, não são uns ingénuos enganados pelas petrolíferas. Sabem bem o que fazem.Apesar de ter estado na Guerra Colonial,e não com Bic, não vou em paternalismos em relação ás ex-colónias.Não confundo as Cliques para quem o Orçamento é o seu bolso, com o povo.
A verdade é que acabada a colonização, novas guerras se iniciaram, porque TODOS queriam TUDO.
A Verdade é dura, mas tem de se dizer:os povos das ex-colónias foram traídos pelos Movimentos de Libertação. São independentes, já é alguma coisa. Mas os estômagos e os cérebros estão mais vazios do que nunca.É uma imensa tragédia.


De Joo a 4 de Novembro de 2005 às 18:47
Continuem a conversar à vontade. A casa é vossa. E estou a gostar de vos ouvir (ler).


De Manuel Correia a 4 de Novembro de 2005 às 18:42
Para não abusar da hospitalidade do João Tunes, nem deixar macsilva sem resposta, resumo assim o que penso. No plano da apreciação que fazemos dos países africanos, conta tida das abissais diferenças que entre eles há, sublinho o que disse anteriormente. Quanto à presença de trabalhadores africanos em Portugal, sou sensível ao que o macsilva expõe. Neste caso (que não é aquele de que me ocupava) sugiro que apreciemos a situação usando o filtro das numerosas comunidades de emigrados portugueses que há um pouco por todo o mundo. O método ajudará, por certo, a produzirmos uma visão menos massificada (indiferenciada) dos trabalhadores estrangeiros no nosso país. Cordialmente.


De Joo a 4 de Novembro de 2005 às 18:21
Ora bem: uma irritação vale mais que mil livros de história. Agradeço a animação. Nem esperava tanto. Assim, valeu mais que a pena.


De macsilva a 4 de Novembro de 2005 às 18:07
Agradeço ao Manuel Correia as duas coisas muito simples que teve a gentileza de me dizer. Como não as compreendi, baixo definitivamente os braços.

Não sem antes lhe dizer também duas coisas muito simples (embora indo contra o uso que o autor do blog possa desejar para este espaço de comentários).

"Os europeus não se enxergam quando se queixam da violência dos africanos"? Não se enxergam mesmo? Isto é, terão os europeus que aceitar nas suas terras os distúrbios e a violência de quem acolheram (por caridade ou necessidade de contenção dos salários, não vem agora ao caso) e persiste em não se integrar, ainda que vivendo, em grande parte dos casos, da caridade pública institucionalizada?

Se os europeus não são mais donos das suas próprias terras (países) e todos têm o direito de viverem onde lhes der na real gana e como lhes der na real gana, visão coerente com a economia do capitalismo global e liberal, porquê que os europeus são ainda colonialistas e neo-colonialistas? Terão os europeus actuais que aceitar passivamente os desmandos e a violência das comunidades imigrantes que não se integram, como que para remir os pecados das violências e pilhagens dos seus antepassados colonialistas? Se assim for, quando acaba a pena? É eterna?

"A pilhagem das matéria-primas (...) continua com a regulação internacional do comércio..."? Mas, então, sendo agora países independentes, os africanos continuam sendo pilhados só porque não sabem valorizar as suas riquezas naturais ou produzir outros bens com preços competitivos? A troca capitalista, lá porque é uma troca desigual na qual mais ganha quem produzir a menor custo é por si só, e apenas, factor de pilhagem de uns por outros? Então porquê que uns passaram, com o tempo, de pilhadores a pilhados e vice-versa?

Posso estar enganado, mas parece-me que sob as vestes da condescendência para com os desmandos de todos os desvalidos deste mundo está o velho e relho discurso do humanismo marxista que remete todos os males para o capitalismo.

Infelizmente, apesar das alternativas anti-capitalistas que foram postas em prática se terem mostrado bem piores do que o sacana do capitalismo, alguns saudosistas parecem confinados ao guetto ideológico, travestido agora de bons sentimentos humanitários.


De Manuel Correia a 4 de Novembro de 2005 às 16:38
Pela minha parte, direi ao macsilva duas coisas muito simples. 1) que o olhar interessado da «Europa» colonialista e neocolonialista, tem de ser filtrado por alguma decência. Os europeus não se enxergam quando se queixam da violência dos africanos 2) que a pilhagem das matérias primas (reparem que não pus aspas em «pilhagem») continua com a regulação internacional do comércio e a ajuda «desinteressada». É verdade que os africanos não são melhores que nós. Tornam-se aborrecidos é quando, - parafraseando o autor do poste - nos vêm «irritar à hora do almoço».


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