Quarta-feira, 9 de Novembro de 2005

GRITO A PRECISAR DE ECOS

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É um conto ou crónica, o que lhe quiserem chamar. Eu chamo-lhe grito. Vem de um nosso patrício (jovem lhe chamaria, se tivesse a certeza que ele não achava este tratamento como mostra de galão de arrogância de um “mais velho”) que autodefine o objecto do seu blogue como “ÁFRICA VISTA PELOS OLHOS DE UM BRANCO”.

Mais que um grito, o Jorge Neto lança um grito de amor, desespero e apelo.

“O B. tem 14 anos e um corpo de esqueleto desenterrado. A sua pele africana perdeu a cor cacau. É agora um retalho de tecido crestado e quase transparente. Os nossos olhos sentem a textura dos ossos do B. por debaixo da pele. São ossos firmes, mas fracos. Firmes porque ainda aguentam B. de pé. Fracos porque essa firmeza tem os dias contados. B. é magro, magríssimo. Tão magro que a sua sombra, projectada pelo sol de fim de tarde no chão avermelhado, é mais gorda que ele. Muito mais gorda que ele. Fosse B. a sua sombra e seria um menino forte e saudável. B. fala pouco. Custa-lhe. Quando pronuncia palavras, uma tosse convulsa e cheia de expectoração quase lhe atira os pulmões boca fora. No seu cérebro nascem ideias infantis, próprias da idade, que a voz mal consegue explicar. E nascem sonhos que B. nem sonha que nunca se irão concretizar. A cada convulsão de tosse, B. puxa as calças para cima. Do tempo que passei com ele, esta é a imagem que mais guardo. Depois de cada tossidela uma inspiração, para recuperar fôlego, e um puxar de calças. Cadente, como um ritual que se cumpre, o gesto evita que o resto do físico se desnude e mostre o que falta da miséria do seu corpo. A cara do B. já está deformada pela doença. E as costas, cá em cima, fazem aparecer uma marreca de reformado. B. não é reformado! Nem nunca o será. Não vai à escola, o B., mas isso talvez não seja muito importante para os pais, que sabem que ele vai morrer daqui por uns tempos. Ou talvez não saibam. Talvez pensem que a doença de B. é curável. Ou talvez pensem que a doença de B. foi um mau olhado. Talvez, até, nem saibam que B. é doente!”
”B. (com permissão dos pais) aceitou deixar-se fotografar para uma campanha publicitária de luta contra a Sida. Com uma condição: queria uma bola de futebol. Contrato assinado, B. desliza frente à lente com o esférico nos pés... não, não desliza porque não consegue. B. limita-se a dar uns toques e a agarrar a bola que as crianças vizinhas, cobiçosas, contemplam. No final, agradece a bola e confessa que vai dormir com ela "para sempre". Quantos dias irá B. repousar com a bola a seu lado? É difícil prever um número exacto. Mas serão poucos, pois B. não tem acesso àqueles comprimidos, que não sabe o nome, mas que prolongam a existência e minoram a agonia dos seropositivos. Teve azar o B. Contraiu a doença no pior local do mundo para se ser seropositivo, África. Se B. fosse Europeu... ou Americano... Mas B. não quer saber disso para nada! Apenas a sua nova redonda companheira lhe importa. Vai dormir abraçado a ela para sempre. Até que uma dessas manhãs a bola se desprenda dos seus braços e role pelo quarto, mole, inanimada e venha alguém buscá-la e a atire para a cova onde B. estará. Morto e incapaz de abraçar a bola de novo.”


A ler o texto completo, incluindo o apelo ao apoio à campanha da UNICEF, com que nos solidarizamos, aqui.
publicado por João Tunes às 15:46
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