Quinta-feira, 10 de Novembro de 2005

HAVIA NECESSIDADE?

haircut.jpg

Que um finório da Direita, mais sabido que os sabidos, nos explicasse, atirando em cara, coisas elementares como estas?
publicado por João Tunes às 23:10
link do post | comentar | favorito
|
10 comentários:
De macsilva a 13 de Novembro de 2005 às 20:42
Todos certos ou todos errados?

Entre as inteligências da praça, à direita, JPP afirma que a imigração “cuja demografia salva e condena a Europa ao mesmo tempo”, porque a salva “da extinção demográfica e condena-a a ser uma Europa em cujo espelho a antiga Europa greco-latina e judaico-cristã, a única que há, não se reconhece”, constitui um dilema que “não está apenas a fazer arder os carros, (mas) está também a incendiar a democracia política com ideias que lhe são alheias e hostis”; e que este “dilema só pode ser superado com intransigência na defesa da lei e do direito e na proclamação, sem dúvidas, de que não é legítima em qualquer circunstância, insisto, em qualquer circunstância, o uso da violência para obter objectivos políticos quando se vive em liberdade”.

Tal como os comentadores à sua esquerda, JPP não vai às causas, para além das imediatas e comuns a todas as juventudes modernas em função do tipo de desenvolvimento económico vigente. E, nas medidas de resolução da situação, diferencia-se deles porque não apela para melhores políticas de integração (mais diálogo, mais subsídios, melhores alojamentos e polícia de proximidade), mas pela observância intransigente da lei e do direito. Sem crescimento económico à vista, sabemos a que conduziriam ambas as medidas: maior dependência do Estado, num caso, e maior porradaria da polícia e prisões cheias. Salta à vista que no imediato estes tipos de medidas terão de ser aplicados, para obstar o óbvio: a continuação da violência gratuita e o descambar para maior violência. O problema, atenuando-se no imediato, contudo, manter-se-á latente, à espreita de nova oportunidade, pela renovação das causas: ausência de crescimento económico que solva o desemprego, incapacidade do Estado para a subsidiarização crescente e choques de culturas e de marginalização que o desemprego acentua.

De ambos, também nenhum tipo de análise sobre o uso que as classes do bloco do poder na Europa têm feito da imigração: recurso fácil em períodos de expansão económica, mão-de-obra barata e desqualificada, susceptível de conter a elevação do salário médio (aumentando a taxa de lucro), mas que actua, ao mesmo tempo, como forte constrangimento para a inovação tecnológica e como espoleta para os choques culturais que ciclicamente têm afligido a França (por exemplo). Para não falar nos impactos que a imigração tem nos países que dela são fonte.

Não admira que não falem disto, porque o discurso de todos vai no sentido de legitimarem a imigração como necessária para o desenvolvimento da Europa (ou determinante, como já ouvi a um blogger do Puxa Palavra). Este discurso, contudo, não deixa de ser surpreendente, nomeadamente, quando a Europa tem vindo a alargar o mercado interno, ampliando assim a livre produção e circulação das mercadorias e os níveis do consumo, e os baixos salários dos novos membros têm constituído um chamariz para a deslocalização do investimento produtivo no interior da União, actuando como factor de manutenção de salários médios baixos e como gerador de desemprego nos países de onde são oriundos os novos investimentos.

Ora esta política europeia apostada no aumento do consumo interno e na competitividade exportadora garantida pelo salário médio baixo e não pela inovação tecnológica, a qual não é incentivada precisamente pelo descanso que o salário baixo permite, não é modelo conducente à sua aproximação significativa do seu grande concorrente mundial (os EUA). Acresce que quando os americanos entenderem passar a não gastarem com a defesa europeia, por necessidade de reorientação desses fundos para outras zonas mais quentes, e forem os europeus a arcar com as despesas de defesa, os fundos disponíveis para o Estado Social Europeu serão ainda mais escassos, e todos os problemas originados com a imigração e o desemprego rebentarão então ainda com maior amplitude.

Eventualmente, os abalizados analistas consideram este cenário nas suas análises privadas, mas não o crêem passível de aplicação no médio prazo, daí não se lhe referirem nas análises públicas. Mas, ao ritmo a que as coisas correm, seria bom precaverem-se e não demonstrarem tamanha fé na panaceia da imigração e conterem-na, integrando de facto a que já não podem expulsar. Já lhes bastará a que não poderão conter, tamanha a pressão dos famintos oriundos dos países subdesenvolvidos que a cercam.
macsilva.


De Joo a 13 de Novembro de 2005 às 16:21
Caro Manuel, não concordo com o reducionismo de meteres nas costas e na conta dos soviéticos, o “défice teórico e... prático” com que a violência foi encarada como “meio de transformação política”. O certo é que o leninismo foi universalizado e adoptado como bom para qualquer lugar onde se entendesse acelerar a mudança. E se as forças revolucionárias em todo o mundo aceitaram o funil das concepções leninistas sobre o estado e a revolução, há aí uma co-responsabilidade múltipla que não se pode enjeitar. E, particularmente o DKP, no tempo da República de Weimar, ajudaram e de que maneira a radicalizar ainda mais os postulados leninistas. Foram os comunistas alemães, não os soviéticos, que inspiraram a política de “classe contra classe” e a identificação da intervenção socialista não violenta e parlamentar na vida política (a dos sociais-democratas) como de “social-fascismo”. E, curiosamente, aparente paradoxo, a violência dos duros do DKP tinha a pretensa função desesperada de (re)cumprir Marx, ou seja, levar a revolução para “onde ela devia ter nascido” (a Alemanha, com o seu proletariado numeroso, mobilizado e combativo, numa sociedade industrializada e culta). É depois da derrota da revolução violenta na Alemanha, que encalhou em Hitler, que Estaline virou a “violência revolucionária” para dentro de muros, primeiro contra os kulaks e depois contra os comunistas e desistindo da “revolução internacional”. [Se olhares, hoje, para a vida partidária alemã, constatas que continua a viver o esqueleto sectário do DKP (meia dúzia de fanáticos) e que, não resiste comparativamente com o poder de saudade do PDS, os nostálgicos moderados da RDA. Não tendo sido sequer possível fundir DKP e PDS após a reunificação (nota: claro que o PCP tem relações fraternais com o DKP e o seu “unsere zeit” e meras relações de simpatia cúmplice com o PDS)]. Finalmente, quando a violência revolucionária, como conceito, dominou na Internacional Comunista, muitos dos seus principais quadros eram alemães e a primeira língua ali utilizada era o alemão. Essa tradição vingou adormecida ou eruptiva na “escola revolucionária” ao longo dos tempos, com altos e baixos (mais baixos que altos, devido aos interesses de Estado da URSS), uma espécie de marxismo-leninismo (que tem pouco de Marx e alguma coisa, não tudo, de Lenine) que joga entre o exposto e o desejado, reduzido ideologicamente a pouco mais que um ajuste de contas do ressentimento. E veríamos, aqui, se a pacóvia concepção oratória de “classe contra classe”, papagueada por Jerónimo, levasse a uma erupção social que depois fosse politizada...

Julgo que JPP tem razão quando refere que, os da esquerda revolucionária (de todos os quadrantes) sempre se deram mal (bem demais) com o papel da violência. Que sempre temos uma tendenciazinha para sermos mais complacentes para com ela que com o chato parlamentarismo burguês. Está-nos na história. E nas nossas formações políticas. Ficando-nos esse impulso de vislumbrar razão, causa e transformação onde um desesperado, ou grupo de delinquentes, se tresloucar, atacando um símbolo do poder capitalista ou imperial que podem até ser o carro do vizinho ou a fábrica em que não quer trabalhar. No resto, no que dizes de JPP ou de Marcelo, terias razão e propósito se, cada vez que se lêm ou ouvém, tivéssemos de filtrar a opinião com os todos das figuras. Raramente concordo com eles, mas não os tenho em Índex, uma e outra vez até concordo. Foi o caso. Abraço.



De Manuel Correia a 13 de Novembro de 2005 às 04:35
João, obrigado por me sossegares. De facto a teoria leninista do «elo mais fraco na era do imperialismo» dispensou a verificação das «condições objectivas» que Karl preconizou. Acho que os soviéticos nunca deixaram de se ressentir desse défice teórico e... prático. Mas adiante. «Lumpen» para os «putos» que julgam ter inventado uma nova causa, parece-me forçado. Bom tu lá sabes da elasticidade com que ajustas o conceito... Quanto ao JPP, estamos de acordo num ponto. É um intelectual bem artilhado, estimulante e produtivo. Acrescento, em paralelo, um «terrorismo ideológico» espantoso. Marcelo Rebelo de Sousa confessa que o seu desiderato fundamental para os cenários políticos é o da «estabilidade». Faz derivar dele o resto, prenchendo as lacunas com ética cristã, mercado «bem» regulado e «bom senso». JPP apresenta-se como laico e justifica «à outrance» a pax americana. Suponho que nunca mais perdoará aos franceses (a estes, claro) não terem alinhado com a Grande Coligação na Guerra do Iraque. É esse rasto de ressentimento que me enjoa. A França, e Paris, particularmente, estão afinal aqui tão perto. PS (salvo seja) Também gostei do nosso almoço e tenciono repetir. Um abraço


De Joo a 12 de Novembro de 2005 às 21:21
Amigo Manuel, claro que li todos os teus posts (eu não perco um!) sobre o assunto. Interessantes como exercícios cépticos, angustiantes e interrogativos (bem necessários, por isso, porque a dúvida e a reflexão nunca estão a mais, nisso concordo). Mas, objectivamente (ou seja como interpretações do fenómeno e, na dúvida, a defesa como reflexo de defesa e contra-ataque perante ela, a malfadada necessidade memorialista de um "guia para a acção"), acho que o JPP te deu (nos deu) uma goleada brava. Pela minha parte, senti-me na necessidade de rever (repensar) o que julgava saber (ah velho Engels!) sobre violência, democracia, rebeldia e revolução. Dando por mim a pensar o paradoxo de questionar como é que Karl e Friedich só vislumbravam socialismo nas sociedades capitalistas e democráticas mais desenvolvidas (na terra deles é claro, na Alemanha, ou - vá lá - Inglaterra) e, ao mesmo tempo, postularem a violência como "parteira da História". E que alguma coisa aqui andava errada, tanto que, desmentindo-os e negando o marxismo, a revolução prevista e desejada se deu ... na Rússia. E se os bolcheviques fizeram uma revolução com um proletariado "de fresco" (em termos históricos e de consolidação de espírito de classe) rodeados de "kulaks" por todos os lados, ao contrário das profecias de Marx, liderados por políticos emigrados, porque raio o "lumpen" de arredores de Paris e da nossa Cova da Moura, não hão-de ser um novo desmentido de Marx? Estou a ser demagógico? Se calhar, o que preciso mesmo é de mais um almoço fraterno e dialéctico com a tua amiga e estimulante companhia. Abraço.


De Manuel Correia a 12 de Novembro de 2005 às 02:41
Acabo a minha charla sugerindo, modestamente, «que tentemos compreender melhor». Não estou virado para «explicações». Nesse sentido teci uma série de comentários no PUXA-PALAVRA [puxapalavra.blogspot.com] (passe a publicidade) que sublinham aspectos que JPP (entre outros) silencia. Tb estou de acordo com as inquietações expressas por MacSilva (sem ironia) e não me deitei a «justificar» ou a «inocentar» crimes praticados. Uma boa parte dos detidos (a quase totalidade, ao que parece) não são estrangeiros. São franceses. E esse é outro desafio para aqueles que (como nós) tentam «repensar a Europa.


De Joo a 11 de Novembro de 2005 às 22:20
Continuo a gostar de vos ler. Mas agradeçam ao JPP a inspiração. Eu só meti link. Ele não tem "comentários" não é? Estejam á vontade, continuem. É que nada melhor que um direitinha sofisticado para nos dar à manivela.


De macsilva a 11 de Novembro de 2005 às 19:20
Lê-se e (quase) não se acredita: “escravos”? Não conviria explicar melhor?

Ao contrário do que afirma o articulista (PP), a violência nem sempre é condenável, nomeadamente, quando é exercida como instrumento de legítima defesa por quem foi alvo de violência, ou, mais prosaicamente, porque ela, queiramos ou não, é uma constante na história e o principal instrumento de promoção (ou de empecilho) das mudanças necessárias, que por vezes tardam em acontecer por outros meios.

Vem-me à memória a violência praticada por revoltas de operários (e muitos eram os quase escravos da época), que nos alvores do século XIX destruíam máquinas e outros instrumentos que no imediato lhes acarretavam a redução do salário ou os jogavam no desemprego e ainda em maior miséria. Dependendo do lado da barricada, nesse tempo talvez a apoiássemos ou criticássemos. Hoje, à distância, alheados dos dramas pessoais de cada um dos protagonistas, poderíamos ser levados a criticá-la, porque retrógrada, mas ainda assim resta-nos compreendê-la.

Que abismo, contudo, separa a violência das revoltas de antanho da violência gratuita das revoltas de agora. Então, aqueles julgavam que destruindo as máquinas, identificadas como objecto das suas desgraças, teriam de regresso seus empregos; hoje, estes não lutam por empregos, talvez por melhores subsídios (e alojamentos pessoais, direito a todas as diferenças e…) ou nem sabem porque se revoltam e destroem o que lhes aparece à frente.
E não deixa de ser interessante que os revoltados de hoje tenham a apoiá-los toda a esquerda estatizante, defensora do Estado nosso paizinho (não apenas do Estado previdência), que exige deste a estabilidade eterna e a segurança de meios de subsistência que a dinâmica da vida social raramente proporcionou, a não ser apenas a prazo nos Estados totalitários (porque também aí, ainda que não definido, o prazo estava mais do que anunciado) e à custa de sacrifícios mil.

Mas concordo com o MC de que isto não se explica com uma “sociologia de pacotilha”, nem com uma “política de talassa”, mas talvez se possa explicar, sem descer à charlatanice da “psicologia das massas”, com uma apreciação um pouco mais demorada da “economia-política”, desta mesma que faz com que se recorra à imigração em situação de ausência de necessidades de povoamento, apenas para benefício das classes do bloco do poder (que não apenas da classe dominante) e para alguns imigrantes mais afortunados, esquecendo que as elevadas taxas de natalidade dos imigrantes terão no curto prazo efeitos de crescimento do desemprego, gerador de todos os descontentamentos sociais e mais alguns.

A ninguém vejo questionar a imigração do ponto de vista dos seus efeitos globais (económicos e culturais) nos países de destino, muito menos nos que são sua fonte; apenas se aborda o benefício económico que ela acarreta para os países de destino (e, mesmo assim, confundindo benefício de curto prazo com os seus efeitos a médio e longo prazos) e nem uma linha sobre os seus efeitos nos países subdesenvolvidos que dela são fonte (talvez porque estes necessitem, no fundo, é de exportar gente, tão elevadas são as suas taxas de natalidade). E também não vejo uma linha sobre as baixas taxas de natalidade na Europa e sobre a necessidade de inverter a situação, não fossem tais denúncias ou campanhas chocar-se com o hedonismo vigente. Mas era o que deveria ser discutido.

Isto não envolve quaisquer receios xenófobos ou racistas, porque as trocas globais acabarão, com o tempo, por esbater as diferenças (de toda a ordem) e por impor a livre circulação das pessoas (como já hoje impõem a dos bens). Envolve apenas a preocupação com a manutenção de tão acentuadas assimetrias de desenvolvimento (e com o seu crescimento, nalgumas regiões), para as quais acaba por contribuir a emigração dos países subdesenvolvidos.

macsilva


De Joo a 11 de Novembro de 2005 às 17:03
Explica, Manuel, explica. Eu sou todo ouvidos...


De Manuel Correia a 11 de Novembro de 2005 às 13:45
Quando os «escravos» se sublevam há sempre quem se aproveite, quem explique, quem fique incomodado. Normalmente, esquece-se quem ateou o rastilho. Clássico. Suponho que a uma «sociologia de pacotilha» sejamos tentados a juntar uma «politologia de talassa». A pressa em «explicar» de um modo tão redutor o que se passou e está a passar em França e ailleurs impressiona. Sugiro que tentemos compreender melhor. Acho que ainda estamos a tempo.


De mfc a 11 de Novembro de 2005 às 01:02
"Não importa que falem mal de mim...importa que falem". Não sei de quem é a frase, mas é bem conhecida e assenta como uma luva a essa criatura da quadratura!


Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2007

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


.posts recentes

. NOVO POISO

. OS VOTOS E OS RATOS

. Bom fim-de-semana

. A Guidinha é que sabe...

. SABER CONTAR

. VIOLÊNCIA SOBRE AS CRIANÇ...

. UM CRIATIVO (ou a melhor...

. PROFESSOR EGAS MONIZ

. UM PARA UM

. REVISÃO

.arquivos

. Setembro 2007

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

blogs SAPO

.subscrever feeds