Sábado, 12 de Novembro de 2005

ACHAM QUE O AMOUCHAM?

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Obviamente que os aparelhos partidários têm lógicas próprias de congregação, inclusão e exclusão. Está-lhes na natureza. Caso contrário, não seriam aparelhos, mas apenas amontoados de militantes. O problema, pois, não está aqui. A questão, do ponto de vista de ética política e partidária, assenta na forma e no grau de liberdade como estas lógicas se exercem. E que são, afinal, as montras do seu grau de democraticidade plural que, por défice maior, podem chegar ao conceito “militarizado” da disciplina partidária.

Com o PS no governo, usando a força da legitimidade da sua maioria absoluta, optando pelo “fogo fátuo” de apoiar uma candidatura (Soares) para perder para Cavaco a fim de com ele se entender, representando um jogo de combate de quimera, a candidatura de Manuel Alegre é não só subversiva como intolerável. Para o aparelho do PS e para o sentido de sobrevivência deste governo com esta política. Mas não só.

Pior que Manuel Alegre ser um socialista consagrado, um homem do partido, a assumir um papel de rebeldia relativamente à direcção do seu partido, e isso bastava para que fosse automaticamente detestado, é que Manuel Alegre não só se coloca como emergência de alternativa a Cavaco (baralhando o jogo de representação eleitoral), como ainda desnuda a opção derrotista do aparelho do PS face a Cavaco e atrai e mobiliza faixas importantes do eleitorado socialista. E acrescenta a estas faixas, uma significativa vaga de eleitores de esquerda das mais diversas proveniências plurais, conseguindo o que o PS, ou outro partido de esquerda, nunca antes conseguiram – a convergência e unificação de uma onda de apoio eleitoral do “povo de esquerda”, com um projecto, uma voz, uma liderança e uma bandeira. Através, sobretudo, de um apelo (que tardava) ao sobressalto da cidadania como forma de regenerar a vida política.

A esquerda portuguesa sempre sofreu do sindroma do primado das lutas hegemónicas entre as suas partes. E aí esgotou todas as suas “glórias”, exceptuando os casos limites de”engolir sapos” em segundas voltas, quando foi caso. Ou na transitória experiência unitária para a Câmara de Lisboa e que, em vez de progredir e extravasar, definhou na forma que se sabe. Traduzindo-se, intra-muros, em “triunfos canibais” – quantas Câmaras ou deputados o PS ganha ao PCP; ou vice-versa; quantos votos o Bloco ganha ao PCP e ao PS; como é que o PS e a CDU resistem à erosão do Bloco; vira o disco e toca o mesmo. Porque, se olharmos a história político-partidária depois de 25A, há uma persistência do jogo hegemónico, batata a ti e espinafre a mim, que só pode ser explicável por um vício bloqueante de rotina e de inércia.

A “onda Alegre”, ao saltar para além (não contra) o PS, agregando uma parte importante e enérgica do eleitorado de esquerda e de Abril, gerando dinâmicas que não se esgotam nem são aparelháveis nos controlos partidários, teria, mais cedo ou mais tarde, de merecer a esperada reacção dos “aparelhos”. Os quais, prisioneiros das suas ciosidades de projectos hegemónicos, teriam de se unir numa lógica de exclusão do “outsider”. E as sondagens que colocam Alegre como a única alternativa a Cavaco, precipitaram as iras dos aparelhos, do PS ao PCP. Elas estão aí, não podiam deixar de estar. E tudo farão para tentarem apoucar Alegre através da retórica da sua pretensa obrigação (maniqueísta) de escolher ser pró-PS (obedecer ao aparelho) ou ser anti-PS (excluindo-se do partido), apontando-lhe o destino (e o exemplo!) de um Zenha II. O que lembra o jogo estalinista com que sempre o PCP tratou os seus “renovadores”, retirando-lhe veleidades de capacidade de efeito de mudança ex-aparelho.

Nos cálculos dos aparelhos PS e PCP anti-Alegre, despeitados por ele ter, de facto, a capacidade de se bater com Cavaco e até derrotá-lo, não se terão contado com dois factores – primeiro, o arcaboiço de rebeldia do próprio Manuel Alegre e como as bofetadas o motivam e acicatam; segundo, a vaga de apoio a Alegre, os que aguardavam a oportunidade de exercerem a sua cidadania, que já extravasou e ultrapassou os aparelhos e vai assentando pés na cena política. Veremos no que dá.
publicado por João Tunes às 01:29
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1 comentário:
De RN a 13 de Novembro de 2005 às 02:23
Meu Caro oxalá estivesses a ver bem as coisas mas se muita da análise é certeira as conclusões estão erradas. Julga o "pobre de mim". Cá estaremos para ver. Se acertares tirar-te-ei o meu chapéu e ficarei muito feliz. Mas trata-se de uma grande ilusão. Tão grande como a dos que esperam - não é o teu caso - que do caos nasça a ordem (refiro-me à queima de automóveis, escolas, etc, nas "banlieus" das Franças)


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