Domingo, 13 de Novembro de 2005

CASAMENTO NÃO ANULA MAKA

African.jpg

Sugestão: Tente-se ler esta história (adaptada de dramas e documentos reais) à luz dos nossos conceitos de dignidade humana, masculina e feminina, homens e mulheres com direitos e deveres, sem culpas de lugar de nascimento, género ou cor de pele. Depois, lendo a história, pense-se um pouco no que foi a monstruosidade do colonialismo (no caso, o português). E, se assim tratando gentes, merecemos ali estarmos e mandarmos. Ou se, sequer, temos direito a uma ponta de saudade por lá termos estado da maneira que estivemos (falo, é claro, do ponto de vista histórico, diferente das circunstâncias pessoais).

--------------------------------

Laurinda Dias, Maria João, Rosa Ximbo, Lucinda Mukemba, quatro mulheres angolanas. Viviam em Terreiro, concelho de Dulangongo, Cuanza Norte, Angola, Colónia Portuguesa.

Em Maio de 1969, houve “maka” (= problema, chatice, contrariedade, distúrbio) na sua zona. A Pide foi lá e levou Laurinda, Maria João, Rosa e Lucinda, mais quinhentas outras mulheres, para o Campo de Concentração de S. Nicolau (no deserto de Moçâmedes). A acusação sobre estas mulheres foi simples e sintética – “maka” na sua terra. A pena aplicada pela Pide foi o internamento prisional das cinco centenas de mulheres de Terreiro, “a título definitivo”, no Campo de Concentração de S. Nicolau.

No mesmo Campo de S. Nicolau, milhares de homens angolanos já ali penavam desde a abertura do Campo, em Novembro de 1961. Secretamente, sem julgamento, sem acusação, sem formalidade outra que a de “fixação de residência em S. Nicolau” decidida pela Pide e confirmada por despacho oficioso do Governador Geral.

Entre os presos de S. Nicolau, estavam Sueta Panza (internado desde 1964), Manuel Domingos (internado desde 1963), Avelino Manuel (internado desde 1963) e João António (internado desde 1964).

Através do convívio entre presos e presas de S. Nicolau, Sueta e Laurinda, Manuel e Maria João, Avelino e Rosa, João António e Lucinda, apaixonaram-se segundo estes indicados pares. A direcção do Campo autorizou que se “amancebassem”.

Em Setembro de 1969, Sueta, Manuel, Avelino e João António, foram libertados do Campo com atribuição de “residência vigiada” em Luanda. Todos requereram, depois, respeitosamente, que as autoridades coloniais permitissem que as suas quatro companheiras, acusadas de “maka”, se lhes juntassem para constituírem famílias.

O Chefe da Subdelegação da Pide de Moçâmedes (entidade que, de facto, supervisionava o Campo de S. Nicolau), Sr. Augusto Leitão, um português, informou o seu Director, outro português, em ofício “confidencial” de 9 de Fevereiro de 1970, que os requerimentos de Sueta, Manuel, Avelino e João António, angolanos, mereceram o seguinte despacho do Secretário Geral de Angola, também português: “As penas são pessoais e não é pelo casamento que terminam”. Ponto final. Laurinda, Maria João, Rosa e Lucinda, angolanas, mantiveram-se em S. Nicolau, internadas “a título definitivo”. Como as cinco centenas de suas companheiras. Por causa da “maka” havida em Terreiro, concelho de Dulangongo, Cuanza Norte, Angola, Colónia Portuguesa, em Maio de 1969. (*)

-------------------

Baseado em histórica verdadeira (documentada nos Arquivos da Pide/DGS na Torre do Tombo) e apresentada por Maria do Carmo Medina no seu livro “Angola – Processos Políticos da Luta pela Independência”, Ed. Almedina, 2005.

--------------

(*) Em Maio de 1969, exactamente quando me meteram, mais uns quantos mais de mil, numa outra "maka" - a do navio "Niassa" -, aí embarcado fardado para cumprir e fazer cumprir a Ordem Colonial.
publicado por João Tunes às 23:59
link do post | comentar | favorito
|
1 comentário:
De legendas a 14 de Novembro de 2005 às 02:57
Obrigado por aqui trazer coisas que há que não esquecer.


Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2007

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


.posts recentes

. NOVO POISO

. OS VOTOS E OS RATOS

. Bom fim-de-semana

. A Guidinha é que sabe...

. SABER CONTAR

. VIOLÊNCIA SOBRE AS CRIANÇ...

. UM CRIATIVO (ou a melhor...

. PROFESSOR EGAS MONIZ

. UM PARA UM

. REVISÃO

.arquivos

. Setembro 2007

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

blogs SAPO

.subscrever feeds