Segunda-feira, 14 de Novembro de 2005

FALEMOS DE FRANÇA, COMO CONVÉM

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Num apelo a que se escutasse voz que me pareceu ajuizada, própria para pensar e vinda de quadrante diferente, deu-se um “papo” interessante aqui estendido e de que não dispenso remissão. Infelizmente, ao meu caro amigo Manuel Correia, deu-lhe o bocejo e foi-se a desafios melhores e mais exigentes, deixando o fio da conversa desamparado quando ia, julgo, no seu melhor. Mas cada um gere os seus investimentos. E se há coisa que não exijo, à cabeça vem logo a companhia.

Julgo que conheço o suficiente de França (fui lá, estive lá, andei por lá, estudei e convivi lá, umas vinte vezes) e do seu chauvinismo endémico (os mitos da Revolução Francesa, da Comuna e do “Partido dos Fuzilados”, andarão longe disso?), para entender a dificuldade de ali se fazerem boas inclusões de “outros”. Cada francês, puro na sua impureza, dos tantos e diferentes que conheci, em maior ou menor grau (incluindo os do PCF e da CGT), julga-se um pequeno, médio ou grande napoleão. Mesmo que se orgulhe de ser, projectivamente, um “sans coulotte”, um “camisard”, um “montagnard”, um “communard”, um “fil du peuple”, um “partizan”, um “soixante huitard” ou um “communiste avec les coleurs de France”. E o que hoje ali acontece não representa nada que não previsse. A surpresa esteve, afinal, no tempo tardio em que se deu. Com todo o preço dessa demora requentada. E o despautério delinquente, patológico, como não podia deixar de ser, da revolta periférica da “terceira geração” com crença hooligan unificadora, só pode ser entendido nesse exacto grau de patologia da revolta ratardada e fácil (e a violência é sempre o mais curto caminho para "resolver" qualquer problema). Porque, mais que isso, é ofender a tradição e herança da luta e da transformação. Veremos no que dá. E o que, á solução, acrescentam os contemplativos na pausa para o estudo e a análise.

Mas se falar de casa dos outros é sempre complicado, proponho um regresso “a casa”. Temos, mais coisa menos coisa, hoje e aqui, dois milhões (ou mais) de nossos patrícios e co-cidadãos (entre antigos colonos e seus descendentes, mais os antigos combatentes da guerra colonial). São pessoas que lidaram com os africanos, em África, no tempo colonial ou por sua memória, pelo mando, pelo privilégio ou com rajada de G3. Em que o africano, que não era submisso, era “turra” ou, no mínimo, exógeno à vivência. Uns rangendo ressentimentos, outros presos ao encanto do sortilégio memorialista do altar dos “apartheid” à portuguesa. Hoje, temos aqui, também, acumulando-se, as comunidades imigrantes saídas de lá, os filhos dos pretos antigos e nossos criados, esses "turras júniores", espalhados em periferias, sempre em plano de inferioridade social, profissional e cultural. Pela natureza da realidade, voltamos a ter muitos (ou demasiados?) africanos, pretos, ao pé de nós. Agora “no nosso solo”, ao nosso lado e - sempre o já visto - no fundo da pirâmide, o lugar dos pretos. Numa cultura contida e heterogénea, mas armazenada e com capacidade de síntese eruptiva, danada por vir à tona, pelos muitos séculos a pisar pretos ou a olhá-los, quando muito, servis, distantes, não cidadãos nem gente, lá no outro passeio. O que fazer? Esperar? Mas esperar o quê? Que eles nos incendeim os carros e, depois, chamar a polícia ou apelar para parar e pensar?

Falemos de França. Falar de França é mais fácil, não é? O problema é quando não é a visita ao Louvre o motivo da conversa. Mesmo assim, antes lá que cá. Até...
publicado por João Tunes às 23:27
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7 comentários:
De Manuel Correia a 16 de Novembro de 2005 às 01:37
Prezado MacSilva, li alguma coisa sobre as «causas», mas não sei o suficiente para discorrer sobre elas. Não justifico nem apoio, em democracia, quaisquer daquelas destruições. A minha vizinhança (e algum estudo) de situações concretas de desemprego em bairros e zonas «difíceis» em Portugal, levam-me a ler o que se está a passar em França e noutros países com a humildade de quem conheceu fábricas de maus rapazes. Só lhe posso garantir que as receitas repressivas agravam tudo. Aqueles que exorcisam a desordem com a ilusão da força e estão dispostos a marchar para Bagdad ou Bobigny, estão a piorar tudo. Há quem advogue agir já e pensar depois. Porque é que a compreensão dos vizinhos é de vulto relativamenter às acções desesperadas? Porque é que os polícias suspensos por terem «exagerado» nas acções policiais repõem tudo em questão? Eu vou ao contrário. Há que evitar e não agravar la «pagaille». Cordialmente.


De macsilva a 15 de Novembro de 2005 às 18:47
Quando se acaba por remeter a causa dos distúrbios violentos e das destruições de bens para a "psicologia das massas" ofendidas, escapando assim à "sociologia de pacotilha" e à "política de talassa", mal andados estamos.

Se a moda pega, um dia destes temos a teorização da revolução popular levada a cabo não pelo proletariado explorado, nem pelo lumpen desqualificado, mas por esta nova categoria de "humilhados e ofendidos", vexados no seu direito ao niilismo.
macsilva.


De Joo a 15 de Novembro de 2005 às 16:23
Manuel, subscrevendo as tuas duas últimas frases, me fico. Abraço.


De Manuel Correia a 15 de Novembro de 2005 às 15:49
João, não é mentira a história da «racaille» (que nós estamos a traduzir por escumalha). Quando se lança uma bojarda dessas, como foi lançada, espera-se que o jogo livre dos sentidos desperte em cada um a inteligência de perceber se a coisa se lhe aplica ou não. Pelo que conheces (e nas entrelinhas vê-se que sabes bastante da França) não serão todos os que sentem excluídos que podem enfiar o barrete?
O que se está a passar tem bastantes traços inéditos. Apontei alguns e não consegui ainda muito bem perceber outros. Por isso não parto para a «acção» - talvez nem me competisse a mim partir, suponho... - nem finjo que para mim está tudo muito claro.
As forças policiais da França (que tb conheci) não podem contar com a minha solidariedade. A República Francesa desistiu das zonas «difíceis». A ordem republicana não pode funcionar a tempo parcial.
A minha solidariedade vai para os que querem trabalhar, viver melhor, realizar-se, quando tudo em volta lhes é adverso.
Les criminels se mélangent avec les bonnes gens partout. Même dans le quartier où Sarcozy habite.
Abrtaço.


De Joo a 15 de Novembro de 2005 às 14:31
Caro Manuel, Primeiro: reproduziste um mentira (repetida, repetida, só por repetida, será verdade), quando dizes “um Ministro da Administração Interna a chamar «escumalha» aos residentes dos subúrbios” (o Ministro francês). Ele não disse assim. E disse de uma outra forma que faz toda a diferença - ele, falando para os residentes dos subúrbios, afirmou que havia que acabar com a escumalha que os co-habitava e com eles se misturava. Ou seja, lembrando Mao e dando-lhe versão adaptada, separar as piranhas da água. Segundo: evidentemente que estamos de acordo com o estudar, estudar, estudar sempre. E estudar sempre, estudando tudo e de todos, acrescentando, o que não sei se o queres reconhecer, nem sempre acontecia na nossa comum e antiga “tribo política”. Sem preconceitos nem medos de contaminações. Sem necessidade daquele alerta que parece extrair-se desta tua prevenção num dos teus posts: “Os textos de JPP devem ser lidos com um cuidado especial”.
Diferente é pensar que há momentos de estudo e outros de acção. E que um não pode colidir com o outro. Quando o banditismo passa á violência, a mãe de todas as prioridades é combater o vandalismo e fazer-lhe frente, impedindo que alastre (nessa altura, é mais caso de polícia que de estudo). Estudar os fenómenos, estar-lhes atento, inovar nas soluções e nas medidas, deve ser feito antes ou, indesejavelmente, depois. Mas, com os hooligans em acção, a minha posição relevante é de solidariedade com a polícia, exigindo-lhe a máxima eficácia. Tentei dar pistas para que se esteja atento à carga de mistura potencialmente explosiva que representa, hoje e em Portugal, termos duas comunidades numerosas – a dos portugueses que foram colonos ou combateram em África (onde dorme um caldo de racismo); a comunidade africana que emigrou para Portugal (e que vão criando as suas fortalezas de exclusão). Para o que vejo como necessidade incontornável a catarse da presença portuguesa colonial em África, que passa necessariamente pela verificação histórica dessa presença e dos patamares do relacionamento humano que ali foram praticados, para que não se repitam aqui. Nesse aspecto, tenho procurado dar o meu modesto contributo, mas a maioria, constacto, prefere falar de Bagdade, Londres, Guantanamo, Nova Orleães, Paris. E esta tendência de atracção pontual onde parece que, das piores maneiras (isto é, sem alternativa nem superação), há uma violência que enfrenta e faz tremer o capitalismo e o imperialismo, o apelo ao “estudo” e à “compreensão”, muitas vezes (não será o teu caso, admito), não é mais que um fascínio suicidário (tb de revanche para com a vitória da democracia e do capitalismo sobre o socialismo científico) e que entronca numa filosofia de violência revolucionário de que julgo o JPP falou bem. Abraço.


De C.Indico a 15 de Novembro de 2005 às 13:24
1-A França não é a Europa.Mas tem a mania que "É a Europa".
1.1-É muito mal governada há muitos anos.P.ex.:Chirac é um ladrão.
2-É, dos países da Velha comunidade o mais Xenófobo.
3- Nas colónias os pretos não eram todos Turras, pelo menos em Moçambique, onde metade dos efectivos eram pretos.
4- Na minha companhia, ums 300 e tal, só 12 eram brancos, 7 de Moçambique e os outros de Portugal.É verdade que nos praças os brancos eram a minoria, e nos sargentos e oficiais a maioria.Nehum fazia a mais remota ideia das pretensões da Frelimo. Os que se declaravam indepentistas eram os brancos de Moçambique, que por azar a Frelimo não queria.
5-De qualquer modo, problema na França, e no resto da Europa, só marginalmente é de raça ou relegião.Ou já não há classes?, talvez não as mesmas de antigamente, mas outras?


De Manuel Correia a 15 de Novembro de 2005 às 01:32
João Tunes, acabas este teu poste com uma preposição que dá ao discurso um efeito suspensivo... «Até...». Se entreolhaste os postes que escrevi recentemente no PUXA, deves ter reparado que o título comum «Paris aqui tão perto (1) – (7)» revela o meu acordo com a ideia geral de que, muito para além dos nossos protestos de «multiculturalidade», a proximidade é grande. Não por termos proíbido o uso do lenço islâmico ou por termos um Ministro da Administração Interna a chamar «escumalha» aos residentes dos subúrbios, mas porque todos os factores sociais, culturais e políticos que se acumularam em França, também se estão a acentuar por cá. Se percebi bem o que dizes, estou de acordo. São questões a tratar agora, - antes de o baile ficar armado. Só não compreendo as tuas referências pouco lisongeiras à necessidade de estudar melhor as situações. Venho, tal como tu, de uma tribo política em que alguns costumavam dizer que não se pode fechar para balanço, isto é, para estudar, reflectir; que não se pode «parar». Eu continuo a pensar que, por vezes, o melhor é mesmo parar e tentar compreender melhor o que se passa. Quem já compreendeu, que avance; a quem tem dúvidas, como eu, que lhe seja tolerada a confessada ignorância.
Aquele abraço


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