Terça-feira, 15 de Novembro de 2005

ALQUEVA, PORRA!

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Alqueva, tal como está, é um absurdo. Um monumento á estupidez do desperdício lusitano. Gastaram-se milhões, mais milhões, em cima de outros milhões, para desembocar no título inútil e grotesco de termos, em Portugal, com as águas do Guadiana, construído o “maior lago artificial da Europa”. Enterrou-se a Aldeia da Luz, mudou-se o ecossistema, uns barquinhos fazem viagens de vistas monótonas, acumulou-se uma imensa massa de água, com as margens a gritarem sede, para o quê?

Desde 1957, que Alqueva foi pensada para que o Alentejo da míngua e do sequeiro, degradada a terra com o abuso do trigo, virasse hortas de rabanetes, chá de tília, tomateiros, alho francês e os ricos ganhos na floricultura, florindo meio mundo e sacando-lhe uns cobres largos. Andou aos solavancos, ficou célebre a frase lá pintada, em letras garrafais, com uma mensagem de mescla bolchevique-anarco-alentejana, a do “CONSTRUAM-ME, PORRA!”. E construíram. Pois se era a salvação do Alentejo, arre porra, sigamos em frente. Lá está, a barragem e a água, no maior lago artificial da Europa. Uma massa líquida que, assim, é uma afronta à seca alentejana, à terra que continua a depender dos choviscos. Porque, desde Alqueva, dali, a água não se mexe. Dorme e evapora-se (uma vez ou outra, emprestam-se uns baldes bem aviados aos espanhóis para, eles sim, regarem as suas hortas).

Temos uma desgraçada tendência portuguesa para deixar as coisas a meio ou a um terço, baixando os braços quando a meta fica à vista. Então, descansamos para o cigarrinho, o café e um bagacinho, dois dedos de conversa que acaba por rodar por todos os dedos das mãos e dos pés, lamentamo-nos do Estado e do Governo, batemos os pés para afugentar o frio ou metemos boné para o sol, dizemos mal à vida, concluímos que somos uns tesos de merda, vamos à deita, mas só depois de uma anedota, dois copinhos e um pastel de bacalhau.

E parece que, para os responsáveis, a lei é a do silêncio. Alqueva é como um túmulo funerário, o melhor é esquecer, fazendo de conta que se finou. Caríssimo é, contas de agora, levar água dali para onde pode dar coisas que germinem. Muita massa, sobretudo em tempo de aperto. Se calhar, há estudos confidenciais, daqueles que não convém saber, e que concluíram que a água do Alqueva não presta para regar. De uma água que não pode ver terra, se a vê, pira-se e não entra. Ou, afinal, concluiu-se que o Alentejo é mesmo para secar. E que sobrem, etnologicamente, uns tantos alentejanos de museu. Para lembrar que habitaram o nosso sul e por causa das anedotas, porque nessas é que somos mestres e, aí, chegamos sempre ao fim para nos podermos rir.

Na próxima quinta feira, 17 de Novembro, pelas 18h30, na Ordem dos Arquitectos (*), vai realizar-se um encontro-colóquio, promovido pela Aldraba, com a participação de vários especialistas em diferentes áreas de intervenção. O programa pode ser conhecido aqui. Quem aparece? Melhor, quem quer saber de Alqueva?

(*) – Travessa do Carvalho, nº 21, Lisboa (entre a Praça da Ribeira e o Largo de S. Paulo).
publicado por João Tunes às 15:59
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