Terça-feira, 15 de Novembro de 2005

ESTÁ TUDO LÁ?

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No mais estimulante livrinho em leitura neste todo ano e quase a findar (*), encontro, como citação e inspiração, esta frase de Bruno Bettelheim “De um homem, basta que me dêem os primeiros sete anos de vida, está tudo lá, podem ficar com o resto.”. E fico-me a cismar sobre a sentença. Não tenho nenhuma certeza imediata sobre o seu rigor, mas entendo que sirva ás mil maravilhas para alertar os pais e mães sobre a necessidade de cuidarem bem da prole quando ela desponta personalidades. Concordando que, se na infância não está tudo, estará muito importante de nós.

Levando a sentença de Bettelheim aos limites do rigorismo, diria, sobre mim, que fui feito para a absoluta insignificância e que tenho passado a vida a tentar remendar o que remendo já não consente. E que assim continuo, mas de insignificante nunca passando.

Nasci de pais envelhecidos, armado em transtorno, nada de desejado e menos ainda como projecto, um décimo primeiro filho tardio e fruto de uma qualquer imprevidência. Os meus pais, camponeses transmontano-durienses sem terra, fazendo sempre contas á subsistência hora a hora, não devem ter feito grande festa por mais aquele escolho que lhes complicava, ainda mais, a vida. Dos primeiríssimos tempos, só recordo o sabor doce da chupeta improvisada feita de um torrão de açúcar metido dentro de um pedaço de pano de linho e das inevitáveis “sopas de cavalo cansado” (feitas com vinho, açúcar e pedaços de pão) e que serviam ás mulheres camponesas para deixarem os filhos “sossegados” em casa enquanto iam para o amanho das terras. Pela idade dos meus pais, e porque o horizonte de vida era – na época – bem curto, não conheci avós, a não ser a imagem difusa de um rosto de velha muito velha que terá sido uma avó materna em fim de vida. E, da primeiríssima infância, é tudo.

Lembro-me depois, com mais nitidez, nos meus quatro anos, da minha irmã mais velha que, grávida e quase a parir, abalou para Pedras Salgadas com o marido e decidiu, provavelmente por imposição da minha mãe que não encontrava forma de me cuidar, levar-me agarrada ao seu bem escasso enxoval. Por lá estive o tempo suficiente para ter a alegria de ser tio com quatro anos e pouco mais que a lembrança de magníficas corridas de cavalos que lá se faziam. Sei que, depois, vim parar a Albarraque, perto de Sintra, talvez por novo emprego do meu cunhado. A memória aviva-se um pouquinho mais com as visitas dos meus tios (ele, barreirense e trabalhando nos escritórios da CUF) que, não tinham filhos, me tiravam o retrato, me achavam um menino bonito e esperto, e que acabaram por me adoptar como filho substituto. Sei que fui viver para o pé da Praça do Chile, em Lisboa, e por lá assentei na Escola Primária, fazendo a primeira classe com aproveitamento e distinção. Mas mesmo dessa memória da minha iniciação escolar, o que me marca mais foi o nervosismo do primeiro dia e ter voltado a casa todo borrado calções abaixo por não ter tido a coragem de pedir para ir à casa de banho.

No ano seguinte, os meus tios mudaram-se definitivamente para o Barreiro, onde entrei na segunda classe e donde saí já feito homem pronta para a guerra. Dessa segunda fase de infância e da juventude, tenho lembranças quase todas bem arquivadas, vivas e fortes na memória. Mas, para o caso, não adiantam. Quando cheguei ao Barreiro, já tinha sete anos. E, segundo, Bettelheim, já não adianta, estava feito para o resto da vida. Será mesmo? Teimo na dúvida. Por auto-estima, é claro. E rebato: como é que o “tudo da nossa vida” pode caber num post?

[Como disse, o meu tio era um fotógrafo compulsivo. Gostava de registar os grandes e os pequenos momentos. A fotografia da imagem foi uma das que me sobraram do meu espólio infantil. E é a minha primeira fotografia. Estaria a caminho dos três anos. Está aqui reproduzida na íntegra. Um dia, já moço espigado, para o confrontar com as fragilidades da sua vaidade de fotógrafo amador, critiquei-o por causa do enquadramento em que me tinha cortado os pés. E ele explicou-me que não se tinha tratado de falta de talento, simplesmente eu estava descalço (só comecei a ter direito a calçado mais tarde) e ele quiz evitar esse traço social para a posteridade. Entendi, desculpei, mas ainda hoje não lhe agradeço essa piedade castradora. Se é fraca a memória da minha meninice, assim, com o enquadramento composto pelo meu tio, nem os meus pés de criança posso rever.]

(*) – “A Terra dos Mezaràt”, Dário Fo, Edições Ambar.
publicado por João Tunes às 20:13
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6 comentários:
De Joo a 17 de Novembro de 2005 às 22:48
Espero, caro Lutz, que tenha entendido agora porque sou de esquerda sem conseguir ser liberal... Culpa do Bettelheim. Abraço.


De Lutz a 17 de Novembro de 2005 às 13:48
Oxalá o Bettelheim não tenha razão! Estou quase certo que não tem.
Um belo post, gostei de lê-lo. Abraço,


De Joo a 16 de Novembro de 2005 às 23:53
Claro, Raimundo. Abraço.


De RN a 16 de Novembro de 2005 às 19:46
Meu Caro Tunes reparando melhor fiz uma observação infeliz para a qual peço a tua benevolênte comiseração. Invoco a meu favor o adiantado do sono àquela hora. Como deves calcular também acho que "os homens não se medem a palmos" e menos ainda a sapatos. Um abraço


De Joo a 16 de Novembro de 2005 às 01:16
Não, o meu tio fotógrafo nunca, que saiba e disso tenha prova, falhou um enquadramento. Era mesmo bom como fotógrafo amador. Aliás, a sua amizade com Mestre Augusto Cabrita, o genial Augusto Cabrita, barreirense de gema, tinha também a ver com cumplicidade de co-entendidos na arte de fotografar. Para o padrão social da época, estamos no após-guerra e no mundo rural salazarista, o mais frequente era os meninos filhos de camponeses pobres não usarem calçado. Quando o passei a usar, lembro-me do tempo que persistiu depois ver os meus companheiros de aldeia sem qualquer calçado. E, por exemplo, a minha mãe nunca usou o quer que fosse nos pés, recordo-me das suas solas dos pés calosas, sempre descalça até morrer (1971). Aí, sim, estendida no seu caminho para a última morada, levou uns lindos sapatos pretos com fivela que os filhos lhe comprámos, escolhidos pelas minhas irmãs. Foi a sua estreia de sapatos e não se queixou que lhe estavam apertados.


De RN a 16 de Novembro de 2005 às 01:00
Não terá sido desculpa do teu tio? Falhou a pontaria e zás ficaste sem pés.


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