Terça-feira, 15 de Novembro de 2005

POR FO

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Evidentemente que todo o mundo da dependência do marketing livresco pré-marcado, os iconografos hoje orientadores dos leitores made FNAC, esses novos escravos consumistas e bem pagantes, riu-se quando Dário Fo, em 1997, recebeu o Prémio Nobel da Literatura. Podia lá ser. Um pantomineiro italiano, mais arlequim que escritor, actor, encenador, dramaturgo, extrovertido, homem de esquerda sem peias nem cartilhas, um louco a desbravar os limites da imaginação e a dar-lhes asas sem fim, ser reconhecido pela Academia Sueca no altar da literatura. Um escândalo.

Sim, foi um escândalo. Com todas as razões e mais uma. Ou menos uma. Porque, tardou nada, o Nobel degradou-se ainda mais – deram-no a Saramago! E, honra de Dário Fo, depois de a Academia Sueca se render ao marketing da portuga Caminho (em justiça, deviam ter dado o Nobel ao Zeferino Coelho, o editor militante e genial, não a um seu mercenário escritor de redundâncias de impacto, contratadas à peça), a exigência literária perdeu a capacidade de balizar critérios.

Pois, Dário Fo foi salvo, no pós juízo, por Saramago. Porque tudo é relativo. Em termos de respeitabilidade, nada que tenha a ver com o talento. Fossemos por aí e ainda hoje não engolíamos que o Nobel não nos tivesse calhado, em vez do marketeer da escrita ao metro e a prazo, aos nossos monumentos literários no talento – Pessoa, Aquilino, Torga, Sophia, Carlos Oliveira ou o maior génio consiso e criativo da escrita portuguesa contemporânea – o enorme José Cardoso Pires (o homem que foi capaz de meter dentro de romances curtos, quase cinema, com o mais apurado decantar da língua, o mais importante do viver português).

Pois, de Dário Fo, muitos de nós guardarão a peça ligeira que um dia se viu, gostou e se esqueceu. Pudera, militantemente lido, de Fo não restava quase nada. Mas, se não for pedir muito, sobretudo aos saramagianos de culto, leiam isto, este naco (*):

“Mal Bruno e o meu pai saíam, eu fazia tudo para chamar a atenção de Belelià (assim se chamava a namorada do Bruno). Gostava imenso dela, com aquele pescoço comprido, as mãos macias e os dedos de Nossa Senhora, e sobretudo aquelas mamas redondas! Quando me aninhava nos seus joelhos, sentia-me enlanguescer, as minhas faces coravam. Sim, confesso: eu, a partir do momento em que vim à luz, gostei logo de mulheres, ao ponto de perder a cabeça! Se calhava estar com uma mulher luminosa como Bedelià, com aquele cheiro a flores e a fruta que emanava da sua pele... Meu Deus, que pedradas! Nos seus braços eu farejava-a com a gulodice de um drogado.”
“A minha mãe também era bonita e fresca, tanto, e talvez mais ainda, do que Beledià ... imaginem, quando eu nasci tinha apenas dezanove anos! A minha mãe está acima de qualquer comparação... o cheiro da minha mãe fazia-me nascer água na boca, dava-me vontade de mamar, de me aninhar dentro de cada sua curva ou pequena concavidade. Nos seus braços não havia vento nem calor. A sua tepidez dissolvia todos os medos: eu estava mesmo no ventre do universo!”


(*) – Extraído daqui: “A Terra dos Mezaràt”, Dário Fo, Edições Ambar.
publicado por João Tunes às 23:15
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