Quarta-feira, 16 de Novembro de 2005

ALÉM DA ICONOGRAFIA

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Anunciado para o final deste mês, sai o terceiro volume da monumental e corajosa “biografia política” de Álvaro Cuhal, feita por José Pacheco Pereira. Neste tomo, o período estudado é o de 1949/1960, ou seja, o dos anos de prisão do líder comunista português nas masmorras da Pide.

Inicialmente previsto para ser em três volumes (dois já estão publicados), terá havido necessidade de um desdobramento, havendo ainda lugar, posteriormente, a um quarto tomo para o período 1960-1974. Isto porque JPP não quiz meter mãos à obra de biografar Cunhal na sua fase pós-25A (e bem, devido à proximidade histórica deste período).

Em termos de relevância politóloga, julgo que o essencial de Cunhal, a sua marca decisiva sobre os comunistas e a política portuguesa, com o seu manto unificador e monolítico a moldar o “ser, estar, sofrer e conspirar comunista”, desenhado e construído segundo um modelo bolchevique-estalinista-nacionalista, com os alicerces metidos na luta pelo controlo do partido na “fase de reorganização” nos anos da 2ª Guerra Mundial e no imediato pós-guerra (constante do 2º volume da obra de JPP), estarão no esperado quarto volume (em que ele, fugido da prisão, conduz o partido até levar na cara com o imprevisto putch-revolução de 25A e que foi um realíssimo desmentido à sua tese-desejo do "levantamento nacional").

Quanto ao período da prisão, agora a conhecer retrato, naturalmente o mais interessante (interesse não pequeno) será uma visão mais clara como Cunhal, desde a prisão, para além do seu martírio heróico, acompanhava a vida do partido, sublimava o seu isolamento (permitindo-lhe a “disponibilidade” para se espraiar como romancista e pintor) e procurava influenciar um partido em profunda crise de dificuldades e sectarismo, desembocando nos sismos que foram as mortes de Estaline e do seu culto através do cataclismo do XX Congresso do PCUS (em 1956). De relevo ainda, foi no tempo da prisão de Cunhal, em 1957, que se realizou o famoso V Congresso do PCP, com a grande “mancha” de levar o partido a um “desvio de direita”, ainda muito mal conhecido, pretexto posterior para Cunhal (após a sua fuga da prisão e mando absoluto no partido) reforçar o centralismo interno, fidelizar indefectivelmente e de maneira absoluta o PCP ao PCUS (sobretudo, depois de Brejnev tomar o lugar de Krutchov, em 1964), criando a sua “corte dirigente” (ainda hoje, apesar de muito envelhecida, a puxar os cordelinhos ao Jerónimo, como puxou, até os gastar, a Carvalhas), muita dela com submissão canina a Cunhal e ao “socialismo real” por expiação eterna dos “desvios do V Congresso” em que tinham sido actores e encenadores.

A grande evidência, e vergonha, da manutenção e incapacidade do PCP em enfrentar a sua própria história, trazendo-a à luz do dia (com os seus, inevitáveis, pontos luminosos e outros sombrios), em que só pode pesar uma “má consciência” preservada conspirativamente (assim ampliada), é refugiar-se no iconografia monolítica e unipessoal (de que é exemplo recente, o lançamento em DVD do “Até Amanhã Camaradas”) e no fecho a sete chaves dos seus arquivos aos historiadores, é que é através de JPP que mais a fundo se pode ir até ao conhecimento possível do PCP e de Cunhal. Antes isso que nada. Ou pior, que a história se confunda com a propaganda.

Para mais dados sobre o projecto do 3º Volume e de onde foi tirada reprodução da capa, ver aqui.

Adenda:
O eventualmente entendido, pelo aqui escrito, como sendo uma cega promoção deste livro do JPP, não deve, no entanto, e para que conste, levar a baixar a guarda e que o mesmo dispense, de forma alguma, ser lido com os competentes cuidados preventivos e para os quais o Manuel Correia, em boa hora, nos alertou (cito): “JPP, que se apresenta quase sempre como um tematizador que oscila entre a lucidez inesperada e a perversão intelectual de ocasião.(...). Os textos de JPP devem ser lidos com um cuidado especial.”. Cuidados e caldos, nunca fizeram mal, mesmo ao mais prevenido. Allez!
publicado por João Tunes às 15:43
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