Segunda-feira, 21 de Novembro de 2005

PRESIDENTE CAMARADA

mina.JPG

Leio isto e percebo isto:

"Estive na guerra, vi morrer amigos meus e quando morre um soldado ou um militar português, seja onde for, evidentemente que isso deixa de luto todo o país e nos deixa de luto a todos nós” (Manuel Alegre, sobre a morte em combate do Sargento Comando João Paulo Roma, no Afeganistão).

Eu que também estive na guerra, contra a guerra, fazendo a guerra, a mando de um ditador parado no tempo, sob o comando de um actor feio como a noite mas maníaco de poses prussianas e disfarçado de general com um vidro redondo empoleirado teatralmente num olho, vergado sob o peso dos colonos - mais que os dali, da Guiné, os de Moçambique e de Angola (as jóias da coroa) - que cada um de nós trazia às cavalitas para afastarem com chicote e para longe, um chicote afiado pelos pides, a pretalhada na sua terra, eu entendo-o bem. Naquelas circunstâncias, ali parados para matar e morrer, sair vivo da merda, dos cus de judas, um camarada é camarada, é muito mais que patrício ou mesmo irmão, até que o mais amigo, o melhor amigo. Um camarada de armas na guerra é alguém que perdemos, ou podemos perder, nos braços, na força da juventude, sabendo que foi a pura sorte que evitou o inverso – sermos, nós, tripas ao léu, a dizermos-lhe “estou fodido, eu sei que estou fodido, foderam-me, estou mais que fodido, foda-se, diz por mim à Luísa que, agora que estou fodido, estou a pensar nela, só penso nela!”. Um camarada de armas, na guerra, é um pedaço de nós, alguém que morre no nosso lugar ou a quem nos pode calhar morrermos no lugar dele.

Este sentido, que a paneleiragem pacifista-folclórica não entende, não pode entender, perdura perante um qualquer nosso morto em combate, ontem, hoje e amanhã. Ficamos sempre com a sensação que ele lerpou no nosso lugar. Eu não sei quantos entenderam as palavras de Manuel Alegre. Porque se entendessem, se calhar não entendem e preferirão - talvez - o “amigo da Unita” ou o “cara de pau”, o candidato que apoio - o Presidente de Palavra e das Palavras - ganhava logo à primeira volta. Limpinho, porque um gajo teso e de alma límpida, que mantém, assim, esta camaradagem do tempo de guerra é o homem de sentimentos e sensibilidade que merece ser saudado em Belém, batendo-lhe a pala para o gozar e nos gozarmos. Em cumplicidade de camarada. Numa camaradagem que vai além da política, é, apenas e sobretudo, coisa de alma. Sei que pouquíssimo decido, eu só tenho um voto, como manda a democracia e assim está bem. Mas o meu voto será especial - é de um camarada.
publicado por João Tunes às 15:26
link do post | comentar | favorito
|
1 comentário:
De Carlos Indico a 22 de Novembro de 2005 às 16:16
Não sei quem disse, mas é verdade : ELA só nos finda quando morremos.


Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2007

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


.posts recentes

. NOVO POISO

. OS VOTOS E OS RATOS

. Bom fim-de-semana

. A Guidinha é que sabe...

. SABER CONTAR

. VIOLÊNCIA SOBRE AS CRIANÇ...

. UM CRIATIVO (ou a melhor...

. PROFESSOR EGAS MONIZ

. UM PARA UM

. REVISÃO

.arquivos

. Setembro 2007

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

blogs SAPO

.subscrever feeds