Terça-feira, 22 de Novembro de 2005

O ESCRITOR DA VIDA

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Se tenho obsessões de rejeição, e tenho-as, também acarto uma catrefa delas pela admiração, pelo prazer e pela estima. Que umas dêem para as outras, é o que me desejo. Não é por nada, apenas para ganhar o reino dos céus. A que acho que tenha direito, como cidadão republicano e laico, com os impostos e os votos em dia, mais um cadastro limpo de malfeitorias detectadas e levadas a julgamento judicial.

Gosto de ler, gosto de literatura. Não sendo esquisito na quantidade e na diversidade, julgo que consigo sê-lo quanto à qualidade. Porque não me vejo como armazém de livros e muito menos como seu fiel.

Gostar de um livro, gostar de um escritor, tem a ver com talento literário, mas também, sobretudo, com a queda no goto, no nosso goto. Porque entendo que um “bom livro” não passa, e é tanto, que um encontro entro o dito por um sábio do sentir e ver com um outro com a mesma vontade de dizer, embora sem o mesmo saber de juntar as palavras. E é, nesta base, simples e inquestionável base, que declaro e declararei que o maior escritor português foi, e é, José Cardoso Pires. Sem meças, apesar de lhe faltarem os louros do Nobel. E o Zé Cardoso Pires só deixou de merecer o Nobel depois deste prémio se sujeitar ao “mercado” e ao “marketing”, sobrando para saramago.

“O Delfim”, “O Hóspede de Job”, “A Cartilha do Marialva” e “Dinossauro Excelentíssimo”, sobretudo mas não só, são obras que me fizeram, na elaboração da minha estética da vida. Não terão chegado para compensar outros estrabismos, é bem verdade. Mas um escritor, a quem tanto se pede, não se pode pedir tudo. E como podia pedir-lhe mais, ao Zé, que dar-me essa revelação espantosa de o ler com a sensação de estar no escuro de uma sala de cinema, lendo-lhe as personagens feitas cinema vivo, com a sensação única e inquietante de termos acabado de nos cruzar com elas durante o caminho para o cinema feito livro?

Leio aqui (minha blogo-bíblia das efemérides culturais, mais da cultura nobre mas “esquecida”), que o Zé Cardoso Pires faria hoje 80 anos de idade se a gadanha não lhe tivesse chegado cedo demais. Fica o singelo preito da admiração sem limite.

Adenda: Corrigiram-me assim e desta forma bonita: “Ee fazia 80 anos... a 2 de Outubro deste ano. Mas deixa: hoje faz a filha mais nova e natal é quando a gente se lembra!”. Fico embatucado com o erro induzido. Mas o final amigo do reparo tem toda a razão dentro – hoje lembrei-me do Zé e dei-lhe uma folga de dias no aniversário, como prenda. Não fui íntimo do José Cardoso Pires, embora com ele tenha bebido uns copos e dado três dedos de conversa no “After Eight” ali para a Praça das Flores em noites de murmúrios calmos. E tínhamos um outro lugar comum de culto (o “British Bar” no Cais Sodré) onde cada vez que volto, agora falho da sua presença, lembrando-lhe os olhos de calmaria para beber mundo por cima de uma dentadura de força anímica dominando as linhas do rosto, me sinto com vontade de por ali ficar a beberricar relendo o “Delfim”, meu livro de todas as horas na memória de que, pela literatura, um gajo até pode ser melhor que aquilo que é, animado na esperança vã que o Zé entre portas dentro.
publicado por João Tunes às 15:32
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2 comentários:
De ana a 22 de Novembro de 2005 às 17:59
Só para que não fique um erro na tua feliz memória do Zé: ele fazia 80 anos... a 2 de Outubro deste ano. Mas deixa: hoje faz a filha mais nova e natal é quando a gente se lembra!


De IO a 22 de Novembro de 2005 às 17:43
Bem nascido, Zé!! Ainda, sábado, te gabava o 'Alexandra Alpha' - e o que o Delfim mexeu!... - abraço ao João, IO.


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