Sexta-feira, 25 de Novembro de 2005

CONTRA OS FADOS DOS NOVEMBRISTAS

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Eles falar, vão começando a falar. Os vencedores e os derrotados. Falas entupidas, às golfadas controladas, com a história fresca e a quererem ficar bem no retrato para a história. Mas é positivo, essencial, que os depoimentos comecem a ser debitados. Para que, mais tarde, a história decante as manhas das justificações, contorne as sombras e ilumine a verdade histórica.

Visto à distância, o registo maior é que o 25 de Novembro foi uma estória com um final feliz. Valha-nos isso. Perdendo muito do 25 de Abril, deixou, como herança, o essencial e mais sagrado – a democracia, a liberdade, a possibilidade de escolha. Mas recuperou do 24 de Abril, as desigualdades, a iniquidade do capitalismo selvagem, a marginalização social e cultural de muitas e importantes franjas da sociedade portuguesa, a iconografia dos tecnocratas e da contabilidade pública, a liquidação do conceito do adquirido, o amorfismo português para matar o rumo ao destino nacional.

O 25 de Novembro libertou-nos das perversões e entorses da máfia vanguardista de civis e militares. Dessa nomenklatura canalha de iluminados que nos queriam felizes à sua maneira, sob o preço da infelicidade durável e sem prazo, porque simples ovelhas do seu redil ideológico. Mas perdemos o melhor do 25 A, sobretudo a alegria da generosidade, o prazer de ter em cada patrício um camarada para construir um futuro melhor. E essa alegria, que cheirava a cravos, encaminhando-se para ser a nossa perdição, também podia ter sido a nossa salvação como povo pequeno mas teso de vontade. E hoje, uma verdade como saldo, o que somos, sobretudo, é um povo de ressentidos sem capacidade de apontar o dedo e exigir a solução. Por aqui andamos, já nos basta.

Não é, ainda, altura do falar verdade. Nos vencidos e nos vencedores. As palavras são medidas, compostas, subordinadas a efeitos. Se nem os vencidos confessam tudo, os vencedores ainda o fazem menos. E uma meia-verdade não é pior que uma mentira? Porque os protagonistas têm mais a esconder que a revelar. Sobretudo essa ala direitista do 25 de Novembro, a da desforra, ontem e hoje encostada ao seu resultado. Eu leio Loureiro dos Santos, Tomé Pinto, Eanes, Jaime Neves e outros mais, só me surpreendendo porque não os vejo de nariz comprido, à moda do Pinóquio. Eu leio Otelo, Vasco Lourenço, Duran Clemente, Costa Martins, Tomé e outros tantos, a surpresa é a mesma. E se Cunhal morreu sem dizer um avo do que sabia (nunca o diria), Costa Gomes idem e Isabel do Carmo continuando a compor a sua auto-estima, o que nos resta? Esperar. Pelo tempo e que o vento levante a poeira da história.

Adenda:

Recomendo que não se esqueçam de ir aqui e lerem esta entrevista. Falam dois que sabem (um historiador espanhol – o que ajudará na distância perante a paixão - e o então responsável do CC do PCP pelo “sector militar”).

Pela minha parte, já dei, em tempos, o meu depoimento de participação pessoal - que não chegou a ser mais que um projecto – mas que revela uma parte do que se pretende esconder. E que resumo:
1) Sendo então militante de base do PCP (condição de que não passei nem nunca quis passar), no fim da tarde de 24 Nov 75 (antes, portanto, de os paras actuarem), trabalhando numa empresa industrial da zona oriental de Lisboa, mandaram-me mobilizar um “pelotão” na minha empresa (escolhi-os segundo as experiências e especialidades dos que tinham feito a guerra colonial) para irmos para uma escola primária em Marvila à espera de armas que nos seriam entregues a partir da Fábrica Militar Braço de Prata a fim de actuarmos para consumar a “revolução socialista”. Fomos, lá estive com o meu “pelotão” à espera de meios, juntamente com outros “pelotões”, esperámos até às últimas horas dessa noite, altura em que tivemos ordem para desmobilizar e irmos cada um para suas casas (a versão foi: perdemos, há que organizar a retirada).
2) Numa reunião convocada no dia seguinte, foi dada indicação para se preparar a eventualidade do “regresso à clandestinidade” (destruição de identificações partidárias e materiais comprometedores).
3) A minha experiência, igual à de tantos mais, demonstra que houve uma acção que contou com a direcção do PCP (antes do movimento dos paras!). Do “outro lado”, naturalmente houve mais, muito mais, que aquilo que hoje contam.

À distância, partilho inteiramente o sentimento do Raimundo Narciso quando ele diz: “Não estou arrependido. Nem do empenhamento (as nossas circunstâncias!) nem da... derrota!” De facto, na altura, estava disposto, e cheio de vontade, de combater, de armas na mão, arriscando a vida e ceifando vidas, contra a revanche do fascismo e pela “revolução socialista”, seguindo obedientemente a orientação suprema do PCP. Hoje, passados estes trinta anos, só posso manifestar alívio e agradecimento aos que nos lerparam a aventura e, ainda, conseguiram conter a ala fascistóide metida, e bem metida, nas suas hostes. Devendo-lhes, termos, hoje, democracia, liberdade e direito a escolha.
publicado por João Tunes às 16:37
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1 comentário:
De Carlos Indico a 25 de Novembro de 2005 às 19:01
É mesmo assim, é,uma síntese quase comovente.
E mais pena por a sobra boa estar estar a azedar.
Haja esperança.


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