Sábado, 26 de Novembro de 2005

CAMPANHA PRESIDENCIAL DE OUTROS TEMPOS

pt^leg.gif

Ex.mo Senhor Presidente da Câmara Municipal do Barreiro,
Os legionários abaixo assinados encarregados da propaganda Nacional neste Concelho, vêm junto de Vª. Exª participar o seguinte: no dia 12 de Junho, pelas 12h30, junto ao Parque desta vila e do café conhecido pela Boleira, fomos provocados por um indivíduo de nome António Perdigão, morador na Rua Heliodoro Salgado, Pateo nº 20, porta nº 24, que nos chamou piratas, bandidos, ladrões e mais frases que não percebemos. Não querendo por forma alguma levantar atritos, entregámos o caso à patrulha da GNR que se encontrava mais próxima do local, que por sua vez lhe deu ordem de prisão na qual foram desobedecidos, pois o dito indivíduo conseguiu fugir embora perseguido por nós e pela dita patrulha que tinha como chefe o guarda nº 94. Esperando que V. Exª não deixará de dar seguimento a esta participação que é o desejo destes legionários que estão sempre prontos à primeira chamada para defender a Pátria.
A Bem da Nação.
Barreiro, 12 de Junho de 1951
Cândido José Tavares, Manuel Félix, João Soares, Joaquim Peralta.
(*)

Nota: Após a morte de Carmona, improvisaram-se peseudo-eleições (a queda do nazi-fascismo ainda estava fresca) em que o candidato do fascismo foi Craveiro Lopes, enquanto a Oposição Democrática apresentou a candidatura do Professor Ruy Luís Gomes, a qual foi rejeitada com o argumento da sua falta de “idoneidade cívica e política” (lembre-se que Ruy Luís Gomes era já, na altura, um prestigiado professor universitário). A propaganda do regime era entregue aos legionários, os lambe-botas para todo o serviço. O incidente relatado, pelo seu picaresco, revela como os pobres legionários suavam para, no Barreiro (e noutros locais), cumprirem as suas tarefas de faxinas do regime e como, depois, ajustavam contas com os que não lhes iam nas caras, nas fardas e nas funções. Esta denúncia dos legionários foi depois encaminhada pelo Presidente da Câmara Municipal do Barreiro (Manuel da Costa Figueira) para o Comando Policial a fim de que se iniciasse a sua punição prisional. Repare-se no preciosismo de, não tendo apanhado o indivíduo, os legionários sabiam, com toda a precisão, o seu nome e morada. Eram assim as “campanhas eleitorais” para a Presidência da República no Estado Novo até que, depois das “eleições” de 1958, com Humberto Delgado, se passou, para se evitarem mais agitações, a que a eleição se procedesse através de um pré-seleccionado Colégio Eleitoral composto por dignatários do regime.

(*) - Carta-denúncia da Legião Portuguesa transcrita no livro “A Fábrica e a Luta em Construção”, Armando Sousa Teixeira, Ed. Avante
publicado por João Tunes às 22:26
link do post | comentar | favorito
|
5 comentários:
De Joo a 30 de Novembro de 2005 às 14:15
Posso fazer-lhe um pedido, caro JG? Desenvolva esse testemunho da sua infância algarvia. Há malta aí que julga que a democracia vem do tempo do D. Afonso Henriques e que, para variar, Salazar (aquele ou outro) vinha agora a calhar para meter isto na ordem e na prosperidade. Abraço.


De JG a 28 de Novembro de 2005 às 02:38
Nasci numa terra de pescadores e operários da indústria conserveira (Vila Real de Santo António), de Pides e de bufos. Estranha (e óbvia) mistura. Esse odioso símbolo verde também lá estava, por cima duma porta à saída da vila. Sempre lhe tive temor. Quando passava naquela rua mudava de passeio. Era como se ali estivessem monstros. O pai de um dos meus melhores amigos estava preso em Peniche por denúncia de um daqueles homens que entravam naquela porta. Era um garoto de dez ou onze anos, nessa altura. Até hoje, esse horror perdura.


De luikki a 27 de Novembro de 2005 às 14:52
pelo andar da carruagem parece que há quem qurira voltar a esses tempos.....


De Joo a 26 de Novembro de 2005 às 23:50
Não, o código com números é uma prevenção contra o "spam" que andava a inundar as caixas de comentários. Não me parece mal, apesar do ligeiro incómodo.


De Carlos Indico a 26 de Novembro de 2005 às 23:32
Lembro-me perfeitamente: braço direito ao alto, face erguida.Éramos uns quinhentos.
QUEM MANDA : SALAZAAAAAAAAAAAR!!!!!!
E ele a comer chicharos fritos, com uma mantinha nas pernas, a Maria a servir os grelos cozidos.
Pode-se ser mais feliz?
As meninas nos quartos.
Os generais a pensarem no Restelo, os capitãos em Odivelas, os Majores em Oeiras,graça a Deus veio a Guerra.
Esta coisa de repetir os algarimos marados é para evitar os ignaros, os estúpidos ou os iletratíciosos?


Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2007

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


.posts recentes

. NOVO POISO

. OS VOTOS E OS RATOS

. Bom fim-de-semana

. A Guidinha é que sabe...

. SABER CONTAR

. VIOLÊNCIA SOBRE AS CRIANÇ...

. UM CRIATIVO (ou a melhor...

. PROFESSOR EGAS MONIZ

. UM PARA UM

. REVISÃO

.arquivos

. Setembro 2007

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

blogs SAPO

.subscrever feeds