Segunda-feira, 28 de Novembro de 2005

SOBRE UM “EXEMPLO ALEMÃO”

ecoeduca.jpg

Se forem à “tabanca” do Lutz podem ler os mais enfronhados e vivos debates sobre a liberdade religiosa a que assisti na blogosfera (não perder os ricos e animados recheios das “caixas dos comentários”, há lá de tudo, autêntico bazar chinês e de chinesices).

Diga-se que o Arquitecto e Cavalheiro Lutz se desenrasca bem, com elegância, paciência e pertinácia. Mas, em cada volta de vontade de síntese superadora, agrava o estrago. Assim que, conciliador, desata a colar cacos e apelar ao bom senso, suscita mais barafundas que ainda partem mais loiça que as peças antes partidas. Uma autêntica cornucópia de concertos e desconcertos. Deliciosa também, na medida em que os demónios escondidos se enfurecem e sopram os ventos medievos. Sem que o nobre liberal de esquerda perca o tino, a paciência e o sentido das alturas. Direi mais, além de uma delícia, um verdadeiro espanto. A não perder, tão refrescante que é.

Como refúgio de síntese superadora ou escapista, pareceu-me, o Lutz socorre-se das práticas da sua terra-mãe e vai buscar o exemplo alemão em que a questão dos símbolos religiosos nas escolas públicas são decididas pela decisão dos pais dos alunos, escola a escola. Se nenhum pai se opuser, o símbolo fica, se pelo menos houver contrariedade manifesta de um dos pais, o símbolo sai. Traduzindo para a prática, a laicidade, mesmo constitucionalmente consagrada, fica ao arbítrio da soberania dos pais, assim a modos que soberania delegada nas comunidades parentais. O que não deixa, sendo aparentemente sábia como meio de derrimir conflitos ao colocá-los nas esferas das responsabilidades comunitárias, de levantar uma outra questão na evolução dos direitos humanos – os direitos e os princípios da protecção e da autonomia das crianças. E se os pais são responsáveis pela protecção e pela educação das crianças, são igualmente obrigados a respeitar a sua autonomia no desenvolvimento da sua personalidade e das suas opções e livres escolhas. Um pai ou uma mãe que educa uma criança para seguimento das suas escolhas ideológicas, políticas ou religiosas, está a pré-determiná-lo como seu seguidor por acto prosélito. E tem esse direito? Com base em que direito de propriedade intelectual ou espiritual? Não basta o efeito da influência do meio sócio-familiar (esse, sim, inelutável)? Porque raio um pai e mãe budistas, hão-de querer garantido que o seu filho também o seja e vá ser educado de pequenino para o ser? E se o pai for budista e a mãe muçulmana, como fazer? Não creio, pois, que, no caso, a “solução alem㔠seja uma boa solução. Num Estado Laico, nem a Escola nem os Pais, devem ter o poder de pré-determinar e influenciar (explicitamente) as escolhas religiosas (ou políticas, ou orientações sexuais, ou outras) das crianças. Deixem-nas crescer e escolher. Só isso. E o melhor crescimento é o que é feito em liberdade, sem baias nem redis. O problema é quando os adultos gostam de estragar ao imporem os seus gostos como "marca de propriedade parental".

[Com os meus dois filhos, foi assim: remeti-os sempre, sem esconder as minhas opções, para as suas escolhas, as suas opções, dando-lhes o conceito que sempre que se escolhe há sempre várias hipóteses para escolher, isso é que valoriza a escolha e que as vidas mais tristes são as feitas em caminhos de sentido único. Não os baptizei, mas sempre lhes disse que se baptizariam e frequentariam igrejas se e quando o entendessem e pela religião que escolhessem (a minha filha mais velha baptizou-se pela religião católica, quando adulta, o meu filho mais novo, nos 17, anda a ponderar a questão); frequentaram e não frequentaram, nas vezes que escolheram, as aulas de Religião e Moral. A minha filha mais velha é adepta ferrenha (sem cartão) do Sporting; o mais novo, é sócio, nada ferrenho, do Benfica. O meu filho mais novo é “laranjinha” (tem cartão e tudo) e “cavaquista”; a minha filha mais velha anda entusiasmada a garantir-me que Manuel Alegre vai à segunda volta e ganha. E eu só me sinto completo com esta diversidade, porque nenhum filho meu é “cópia” minha. E, garanto-vos, um e outro são catitas. E felizes, vejam lá!]
publicado por João Tunes às 15:53
link do post | comentar | favorito
|
7 comentários:
De Joo a 30 de Novembro de 2005 às 14:08
Almoço? Li bem? É pá, mas essa é a minha religião preferida. E obrigatória cá em casa. Do mais velho ao mais novo, incluindo o meu amigo cachorro. Quanto a almoços, não admito agnósticos e ateus ... nem pensar! Dê palpite e avanço logo porque já começo a salivar. Única prevenção: aviso que não como chouriço desde que a parva da Ana Drago (parva não, parvalhona, desde quando ela tem corpo para chouriço? mas talvez ela tenha querido dizer linguiça...) sugeriu meter chouriços no lugar dos crucifixos nas paredes das salas de aula. Escuto.


De Marco Oliveira a 29 de Novembro de 2005 às 18:01
Talvez esta conversa esteja a pedir um almoço... :-) Há temas e argumentos para os quais uma caixa de comentários é muito pequena.


De Joo a 29 de Novembro de 2005 às 16:26
Caro Marco, eu não fiz, não faço, doutrina. Entendo que vcs, os religiosos, sejam propensos ao proseletismo. Está-vos na massa da opção. Porque se vêm como ovelhas de um rebanho eleito e as crianças são ovelhinhas também. E se o sonho é expandir o redil, logo há que começar pelas "páginas em branco" (as crianças) e antes que ganhem autonomia. Um pai barrabás alcoólico dirá o mesmo - venho chateado, o meu filho leva porrada, são estes os meus valores morais, culturais e religiosos (o alcool, a porrada). Claro que se dá religião aos filhos por fazer bem, fazendo-lhes bem, e os barrabás dão porrada nos filhos porque não gostam de ninguém incluindo de si próprios. Mas o sentido de posse e de ver seres diferentes mas indefesos (pelo menos, intelectualmente) como "nossos continuadores", é o mesmo. È apenas, uso e abuso de propriedade parental. A criança como propriedade de adultos, para bom uso ou mau uso, mas apenas e sempre ciosidade de posse, é uma posse que permite o gozo de desenharmos as nossas projecções. No seu caso, não duvido que dá o melhor de si aos seus filhos e que os tentará resguardar do pior de si (a menos que seja santo, também terá os seus pecados..) querendo-os melhores e com o melhor. Mas essa aposta na uniformidade continuista, esse afã de prolongar e propagar a sua fé e as suas crenças, não lhe trará monotonia nem sonolência? Não teria a casa mais cheia, mais alegre e mais divertida, se lhe calhasse um filho budista, o próximo lhe saísse muçulmano e o que ainda há-de vir ser ateu militante e combativo? Um lar eucuménico, plural, não é mais divertido e mais rico que todos alinhados nas mesmas adorações e orações? Viver na diferença, com a diferença, não é alegria maior? Desculpe a franqueza, que apenas é moeda de troca com a sua, mas reconheça que até fui moderado depois de me arrepiar com essa barbaridade de dizer que encaminha os filhos para uma certa religião, como lhes escolhe a roupa e lhes prepara a refeição (então, que nível tão comezinho esse, o da influência religiosa). E arrepiei-me, não por ter a ver meter-me na sua vida, mas porque cheguei a pensar que o estimado Marco se tinha convertido ao animismo... O que, diga-se, até nem estava mal, os estimados balantas e manjacos da Guiné que conheci eram animistas e super simpáticos, porreiros e solidários entre si, olé se eram (são). Abraço.


De Marco Oliveira a 29 de Novembro de 2005 às 12:02
"Num Estado Laico, nem a Escola nem os Pais, devem ter o poder de pré-determinar e influenciar (explicitamente) as escolhas religiosas (ou políticas, ou orientações sexuais, ou outras) das crianças."
Meu caro João,
Não podemos confundir Estado laico com sociedade laica. O primeiro é desejável, o segundo não.
Para a enorme maioria dos seres humanos a religião faz parte da sua identificação pessoal. E uma consequência natural dessa identificação que os pais queiram passar aos filhos os seus valores morais, culturais e religiosos.
Eu defenderei sempre a existência de um Estado laico; mas para os meus filhos vou tentar passar-lhes os meus valores religosos. Se não fizesse esse esforço de lhes transmitir a minha religião estaria a entrar em contradição com os meus próprios valores. Claro que eles quando forem maiores tomarão as suas próprias opções e pensarão por si.
Mas por enquanto eu ensino-lhe a minha religião, tal como os ajudo com os primeiros passos, tal como escolho a roupa e as refeições deles.
A minha identificação religiosa é mais forte que a clubistica ou que qualquer opção política que possa fazer num determinado momento. Um grande abraço.


De Joo a 28 de Novembro de 2005 às 23:22
Por quem sois, estimados conversadores. E se o Lutz viu alguma ponta de ironia no tratamento por Cavalheiro que se desengane, foi mesmo sincera. E, não sendo tarde nem cedo, o mesmo tratamento é devida (no caso, Cavalheira) à estimadíssima interlocutora M. Conceição. Acho que, no fundo, se se fôr tolerante e admirador da diferença, a coisa compõe-se. Aproveito para explicar porque sou tolerante relativamente às opções religiosas - um dia, era miúdo, passei férias na região de Santa Marta de Penaguião (Douro), um dia passou por lá uma procissão de uma Nossa Senhora, tudo nos conformes, banda, padre, crentes, bombeiros, GNRs, forças vivas, muitas forças crentes, o pálio cobria o Prior com um Cristo riquíssimo metido no regaço, a banda tocava, o pálio avançava, o padre também, o povo ia ajoelhando e benzendo-se á passagem do Cristo rico nos braços do Prior, só um camponês distraído pelos copos bebidos não se apercebeu do tempo certo para meter os joelhos em terra, veio um GNR mais o regedor e meteram o crente etilicamente distraído, com uma cachaporrada na cabeça que aterrou logo ali de joelhos e levou mais uma coronhada como conta adiantada para prevenir futuras distracções. Ao ver aquilo (teria os meus catorze anos) tomei, então, três decisões imediatas para com o meu íntimo - nunca mais me ajoelhar, não querer aquela religião, ser tolerante com todas as opções religiosas (incluindo a do Prior, do Regedor e da GNR) desde que não invoque previlégios.


De M. Conceicao a 28 de Novembro de 2005 às 18:46
Caro João, vou meter a colher(não é de pau).
Sou assumidamente católica, assim como o meu marido, embora muito divergentes no modo de exprimir e viver o catolicismo. Ele, digamos, muito ultramontano, eu bastante mais liberal (credo). Temos duas filhas que baptizamos de comum acordo, em crianças. As duas cresceram. A mais nova continua a participar nos ritos e comum viver da igreja (celebrações, grupos de serviço, etc.). A mais velha, com 24 anos deixou de ir. Não a vejo nada "traumatizada" com a educação religiosa que teve. Foi enquanto quis, quando livremente, decidiu não ir, não foi mais. Eu, tanto a respeitei enquanto foi, como quando deixou de ir. Quanto à salvação a que o Lutz alude, os caminhos de Deus, são múltiplos. Ela não vai à Igreja, mas é óptima filha, cidadã comprometida, boa profissional, etc, etc. (Ou não fosse a mãe a falar)Enfim não ando desesperada com a sua salvação, nem com a minha, que a única coisa que me vale é a misericórdia de Deus. Ó João, desculpe lá o palavreado teológico.


De Lutz a 28 de Novembro de 2005 às 18:24
Caro João,
muito obrigado pelas palavras simpáticas e pela apelidação "cavalheiro"!

Como procedeu em relação à (não) educação religiosa dos filhos, acho certissimo. Estou a fazer o mesmo.
Mas do ponto de vista político, acho - e o João talvez também - impossível impôr esta postura aos pais...
Quem é ateu ou agnóstico tem aqui a tarefa facilitado, pois se um dos seus filhos acaba por escolher uma religião, não é o fim do mundo.
Mas para um crente, que acredita que a salvação do seu filho depende da religião certa, a ideia de que o filho não a escolhe deve ser aterrador...


Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2007

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


.posts recentes

. NOVO POISO

. OS VOTOS E OS RATOS

. Bom fim-de-semana

. A Guidinha é que sabe...

. SABER CONTAR

. VIOLÊNCIA SOBRE AS CRIANÇ...

. UM CRIATIVO (ou a melhor...

. PROFESSOR EGAS MONIZ

. UM PARA UM

. REVISÃO

.arquivos

. Setembro 2007

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

blogs SAPO

.subscrever feeds