Terça-feira, 1 de Novembro de 2005

LIÇÃO FERROVIÁRIA

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Se Jerónimo, num intervalo entre um charme público e uma reunião para planificar as “próximas lutas”, na véspera de um treino de baile de salão e a seguir a um jogo de matraquilhos na Sociedade Recreativa de Periscoxe, tiver tempo para ler as “edições avante”, talvez pare para pensar nas lições de um livrinho da sua Casa e dedicado à história do Barreiro (*). Até porque o livrinho é perfeitamente acessível a qualquer autodidacta. Por exemplo, vejamos estas passagens:

“Não restam dúvidas, os anos de ouro da luta dos ferroviários do Barreiro (muitas vezes englobada num âmbito nacional) correspondem à acentuação da corrente sindicalista-revolucionária (ou anarco-sindicalista) na Associação de Classe e depois no Sindicato. A partir de 1917, foi dirigida por Miguel Correia e António José Piloto, que promoverão em 1919 a edição de “Sul e Sueste”, órgão de informação e de mobilização da classe.”
“Assim organizados, os homens dos Caminhos de Ferro do Estado participam numa grandiosa greve, em Novembro de 1918, contra a carestia de vida e por melhores salários. Luta dura e prolongada, com sabotagens, repressão feroz, prisões, despedimentos, espancamentos, enfurecendo os trabalhadores e desacreditando cada vez mais os partidos do poder republicano. Esta viragem gradual contra a “política democrática”, inciara-se nos graves incidentes de 1914, durante uma greve tumultuosa na CP, ferozmente reprimida em Lisboa. Lembrar que, em 1910, uma das profissões mais republicanizadas era a dos homens da ferrovia.”
(...)
“Dando uma imagem nítida do descrédito do poder republicano junto dos ferroviários (e não só) o “Sul e Sueste”, em 1921, dizia: «Em dez meses, em pleno regime republicano, tem havido mais opressão e tirania do que em dezenas de anos de monarquia.». Passe o exagero da afirmação, porque no antigo regime não havia a dinâmica de luta do tempo em questão, talvez assim se compreenda a razão pela qual os ferroviários fizeram greve local de apoio ao golpe de Estado de 28 de Maio de 1926.”
(...)
“Quando surge o 28 de Maio de 1926, o líder dos ferroviários do Barreiro, Miguel Correia, que já estivera quatro vezes preso nas cadeias da República, negociou um compromisso com os revoltosos, prometendo-lhes a paralisação do tráfego normal e todas as facilidades para o transporte de tropas. Esta colaboração era prestada mediante uma lista de reclamações apresentada aos chefes em Lisboa (comandantes Mendes Cabeçadas e Gama Ochoa).”
“Terão os sindicalistas libertários pensado que a situação política era tão má que para pior já não era possível mudar?”
(...)
“Esperanças vãs, desilusão amarga, terão sido os sentimentos dos trabalhadores das ferrovias em relação à ditadura militar, quando o “Sul e Sueste” ficou sujeito a censura prévia (como todos os jornais sindicais) e Miguel Correia foi novamente preso em Setembro de 1926 e deportado para Cabo Verde (e mais tarde para Lourenço Marques).”
(...)
“Nas condições da ditadura, a hierarquização rígida, o controlo opressivo e uma repressão constante, sobretudo nas Oficinas, sufocam os trabalhadores, espartilhados num sistema interno de vigilância e denúncias, patrocinado ao longo dos anos por sucessivos chefes todo-poderosos, autênticos títeres do regime (Rui Ulrich, Fernando de Sousa, Raul Esteves, Mendia, Bruschi, Garcia, Adragão, etc.)...”
“Nos anos da guerra de Espanha, as forças da situação estiveram particularmente activas entre os ferroviários, recrutando para as “lanças” da Legião Portuguesa, denunciando e perseguindo os “subversivos”, que incluíam os republicanos do reviralho, deificando o ferroviário Nº 1: «Salazar manda, os ferroviários obedecem!».”


(*) – “Barreiro, uma história de trabalho, resistência e luta (parte IV)”, Armando Sousa Teixeira, Edições Avante.

Imagem: Do livro citado, a foto é de um grupo de trabalhadores ferroviários do Barreiro, início do Século XX, onde os pequenitos aprendizes da frente seguram um dístico onde se escrevera: «Viva os Operários e o Nosso Chefe».
publicado por João Tunes às 19:25
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ESTA ATÉ EU REZO

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Falo da oração contada aqui.

Porque nos anima nestes dia cinzento, despachando uma data de santos, todos ou quase todos, de uma só virada. E traz a alegria de viver que é o melhor da vida, até em dia de todas as necrofilias.
publicado por João Tunes às 17:04
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DÚVIDA ENCENADA

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A chamada “dúvida demagógica”. E de borla. Feita de conversa de desentendido representado. Como se a regeneração da vida partidária tivesse de ser feita (só) por gente que sempre tenha vivido fora dos partidos. Partidos entendidos como realidades rígidas que ou mandam ou se quebram.

Só pode ser desespero exausto de se ver que, além dos bonzos, existe vida política, desejo de intervenção e vontade de mudar, participando, confiando.

Este desejo de mudança do sufoco dos espartilhos e inércias partidárias, não é sequer novidade. O que se assiste com a candidatura de Manuel Alegre, este fluxo temperador de criação de uma alternativa, não contra os partidos mas além dos partidos, já se viu (nem sempre por boas razões, nem sempre com bons resultados) desde o início da reificação partidocrática:

- Nas presidenciais, com Otelo, Maria de Lurdes Pintassilgo e Salgado Zenha;

- Nas parlamentares, com o PRD e com o Bloco.

E, se formos para as autárquicas, exemplos não faltam de como o eleitorado, cada vez mais, premeia as listas de “independentes” face às listas partidárias.

Nesta eleição, teremos os mais fiéis aos seus partidos a votarem Soares, Cavaco, Jerónimo e Louçã. Mas toda a esquerda que se quer livre para construir uma esperança de esquerda, tem Manuel Alegre, um homem de partido, capaz de colocar os valores e as esperanças da esquerda fora dos caixilhos dos partidos. E que não vai à luta para treinar, fazer manutenção com ginástica sueca, mas para ganhar. O que surpreende e irrita uns tantos, aqueles que, quando muito, davam como missão ao Poeta ser símbolo e daí não passar, não contando com a onda de adesão dos que se levantam contra o "status quo" de um jogo combinado, com vencedor e vencido previamente estabelecido. Porque, é evidente, nenhum amigo ou admirador de Soares, entre os sinceros, o sujeitaria à violência de um mandato de cinco anos, reservando-lhe uma missão de aguentar mais uma campanha de que sairia com a sensação de "derrotado mas feliz pelo dever cumprido". Coisa de que Soares não necessita no seu currículo de democrata jubilado.

Adenda: No seu contraditório legítimo, o WR demonstra que não é um demagogo. É, apenas, um homem de má fé. Agarrou nos exemplos que dei, de que ressaltei o impulso do eleitorado para saltar fora do espartilho partidário, mas que não valorizei e até meti o parêntesis "(nem sempre por boas razões, nem sempre com bons resultados)", para ir por aí fora desancar nos casos, fugindo à substância. E, sobre o País, o WR mostra que sabe onde fica Amarante, Felgueiras, Gondomar e Oeiras, mas nunca ouviu falar de Sabrosa ou de Redondo. Não julgava que Soares merecesse este tipo de "soarista". Sei lá, talvez, problema dele.
publicado por João Tunes às 16:28
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REGRESSO À LIDE

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O Miguel é um dos companheiros mais cuidados, sistemáticos e analíticos, entre os que leio por vício de habituação e prazer. Até pelo estilo, talvez por estar nas antípodas do meu. E, dizendo tudo, uma das minhas mais velhas e sempre fieis visitas.

Aqui, dei conta do meu desânimo de o ver desistir, querendo arrastar, com ele, o fim real deste País. Mas como a morte é a única coisa definitiva que temos na vida, ele não aguentou o silêncio e aí está a preparar o escritório, com mobília nova, para voltar ao nosso convívio.

O estimado Miguel saiu daqui e abriu novo cartório de ideias ali.

E como já tinha um título “tremendista” (a insinuar subjugação ibérica), adoptou outro que não é menos apocalíptico, até mais o é. Mas isso é gosto pelo impressionar, assim a modos que marketing comunicacional. O que não só se perdoa como se admira. Faltam os posts, que anúncio de faena já o temos. Siga a fiesta. Para continuarmos a discordar.
publicado por João Tunes às 15:42
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PRENDA A MEIAS

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Se fôr em tecido vulgar, nada de luxos, assim a modos que tecido plebeu, sem brocados, veludos ou seda fina, porque a vida não está para estroinices, pago metade do preço da bandeira que o Jumento se dispôs a oferecer à Menina Leonor, como prenda de nascimento, para ela usar quando for crescida, laica, democrata e republicana.

Se o avô ajudou à transição democrática, se o pai já não tem papel - por mérito hereditário de nascimento - a cumprir, porque a democracia está consolidada, a moça só tem que ser cidadã, crescer, tratar da sua vida para ser feliz, sujeitar-se ao primado do voto e deixar-se de monarquices.
publicado por João Tunes às 12:57
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Não me julgo surpersticioso. Mas nunca se sabe bem o que somos ou não somos, de todo. Pelo sim, pelo não, quando acordar, pé ante pé, vou confirmar que o chão está quietinho a dormir. Não lhe vá dar para as comemorações.

Imagem: xilogravura checa sobre o terramoto de Lisboa datada de finais de 1755 (original do Museu da Biblioteca Nacional da República Checa), agradecendo ao Nuno Guerreiro a identificação.
publicado por João Tunes às 00:44
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A CARTA DA ANA/SIGA

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Sei que é abuso, mas não resisto. Talvez a intenção de clarificar me absolva. Sei lá. Só que esta história calou-me fundo. E confio na cumplicidade dos meus camaradas Luís e Virgínio, para me perdoarem esta (mais uma) parasitagem. Mas, acreditem, aqui o pecado maior é o de gula. Mais, concedo, também o da inveja pela sinceridade descarnada.

Saber o que andámos a fazer por África e nas guerras coloniais, passa necessariamente por entender o “outro lado”. Só quando conseguirmos equilibrar a percepção das partes, saberemos o que aquilo foi em termos de drama comum. Na altura, não era possível. Imediatamente a seguir, também não. Tudo esteve fresco e a queimar a memória com feridas. Ainda agora, anda para aí meio milhão a querer dignificar uma juventude rasgada de canhota na mão. Outros, ainda mais, que apanhámos em cima do corpo e do espaço, ainda clamam contra os “crimes da descolonização” (queriam mais, muito mais!) ou suspiram de saudades do quente feitiço africano na hora do pôr do sol (com serventia de pretos dóceis). E o “outro lado”? O lado dos que nos mataram e nós matámos? Existiram? Quem eram? Seriam pessoas como nós? Um tiro a entrar no peito custava-lhes tanto como a “nós”? Eram?

Esta falha, julgo, é o que falta para completar o quadro. Sentirmos a humanidade concreta do “inimigo”. E, por essa via, completarmos o ciclo humano de ligação entre “nós” e os “outros”. Ultrapassando, assim, o racismo impregnante que perpetua a cultura colonial que nos está agarrada à pele, sendo capazes de olhar os africanos como humanos nossos iguais, do melhor até ao pior, recompondo-nos de um estatuto de supremacia que precisava de Pide e de pólvora, onde só os podíamos olhar de cima para baixo, tornando-os, finalmente, vistos como homens. E, assim, tornando-nos homens, nós, como todos os homens. Não para nos diminuirmos ou autoflagelarmos, apenas para crescermos como homens e agentes históricos. Ou seja, em termos de “psicanálise social”, superarmos a nossa falha narcísica como europeus e como colonos que impede adquirirmos uma personalidade adulta e estruturada como povo que andou séculos por África e necessita, sem dor ou com dor necessária, de se libertar do peso dessa “fatalidade”, em que oprimimos para compensarmos as nossas debilidades de povo de país pequeno. Até para nos reencontrarmos como povo europeu, que agora trilha caminhos da Europa. Em que nos queremos iguais.

Mais tarde ou mais cedo, a coragem perante a memória teria de servir a luz em cima da mesa. Pingo aqui e acolá, acabaremos por construir o nosso caminho de povo adulto. A história da Ana/Siga, uma enfermeira/esposa/mãe do PAIGC, capturada pela tropa colonial com uma carta de amor e cuidado, é um excelente testemunho contado aqui. Obrigado Virgínio, obrigado Luís.

Imagem: carta apreendida à Ana/Siga, do arquivo do Virgínio Briote.
publicado por João Tunes às 00:27
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