Quarta-feira, 30 de Novembro de 2005

BANDEIRA E FERIADOS

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Os “católico-clericais” andam por aí a prometerem revanche se lhes tirarem os crucifixos das paredes das escolas públicas. Nada menos que “nos” tirarem as “chagas de Cristo” da bandeira nacional e “abolirem-nos” os feriados religiosos. As “chagas” ficariam só para eles e os feriados católicos também.

Do que eles se foram lembrar. Bem pensado. O que comprova que, de quando em vez, as sacristias são bons locais de reflexão e criatividade.

Quanto à bandeira, de facto, há muito está obsoleta. Não temos nem império nem nada que tenha a ver com a bola que está lá no meio. Fiquem as cores e basta. Apoio.

Quanto aos feriados, ainda melhor. Metem-se uns tantos outros nos seus lugares (sei lá: dias da criação da Comuna de Paris, do decreto do Afonso Costa para acabar com os privilégios dos curas, da abolição da Inquisição, em que os trabalhadores agrícolas conquistaram as oito horas de trabalho, em que Cunhal fugiu de Peniche, em que o Botas caiu da cadeira, da chegada de Soares do exílio a Santa Apolónia, da primeira emissão com Manuel Alegre a falar na Rádio Voz da Liberdade, etc). E os “clericais” que arranjem “contratos de trabalho” para eles poderem celebrar, nas igrejas, capelas e capelinhas, Pentecostes e coisas dessas.

Combinado? Bora!
publicado por João Tunes às 23:48
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CUIDADO COM AS IMITAÇÕES

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Aos saudosistas do Autoritarismo, aviso: cuidado com as imitações. Nem sempre um Professor Feito de Pau é um Professor de Pau Feito.
publicado por João Tunes às 23:26
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O PROFESSOR DE PAU VISTO POR UM ESCRITOR

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Já aqui contei, mas há gostos por pessoas que nunca nos cansamos celebrar. Sobretudo quando, com elas, temos distância, uma espécie de amizade de uma margem para a outra com o rio da vida a correr pelo meio.

Sou amigo do escritor Mário de Carvalho, talvez pela única razão de gostar dele e nada lhe dever, nem ele a mim. Em momento de aflição, não lhe ia bater á porta, não lhe tenho confiança para desaforos. Vice versa, presumo, mas garanto que, então, não ficaria à porta, pendurado na campaínha. Admiro-lhe a escrita, bebo-lhe o talento de grande escritor e digo, em abuso de intimidade, por aí, “leiam este gajo, escreve bem como o caraças e ... é meu amigo” (coisas que aprendi quando andei pelo marketing - um tom afectivo ajuda a que o cliente se ligue ao produto, desde que o produto valha). É o caso, porque fora amizades, o Mário de Carvalho é um dos nossos melhores escritores contemporâneos.

O Mário de Carvalho, revelação literária tardia mas fulgurante e ciclópica desde que nisso investiu, foi o meu primeiro “controleiro” no PCP depois do 25 de Abril. Estava eu, então, enquadrado numa eclética célula que agrupava os “comunas do cinema” (cineclubistas, críticos, realizadores, produtores, mais coisas afins). Abreviando o relato dessa experiência, o MC cumpria o que tinha a cumprir, não “controlava” nada ou muito pouco, passávamos era horas a fio a dissecar Visconti, Fellini e Fonseca e Costa. Ele aparecia mal amanhado, com o eterno ar de quem sempre se está a levantar da cama (que percebi cedo ser a sua forma de gerir a praxis), um sorriso persistente, sincero e menino metido na cara mal barbeada, despachava o que tinha a despachar lá das missões que eram seu (e nosso) mister, depois perdia-se no prazer imenso da cinefilia desbragada que nunca tem termo porque o cinema tem o tamanho da vida eterna. A vida me ensinaria mais tarde, logo a seguir, que “controleiros” destes eram a grande excepção, muito longe dos da regra da casa. Tanto, presumo, que, por isso mesmo, ele se fartou da função de “controlar” e ainda antes de eu não aguentar mais “ser controlado”.

Encontrei-o, mais tarde, esporadicamente, já nas suas novas funções de advogado especialista em questões de trabalho e com escritório montado para as bandas da Praça do Chile. O seu sorriso era o mesmo. O sentido do zelo também. Mas pressenti que, se não se reformara como “controleiro”, também não o faria como advogado. Pouco esperei a testar a profecia. Estoirou o escritor e esse anda por aí. Mas quanto a isso, todos sabem o que ele vale (muito).

Reencontro, agora, o Mário de Carvalho como camarada da Alegria. Tinha de ser, se o destino é como dizem. E orgulho-me, atenção o gajo é meu amigo, com esta muito bem esgalhada análise da candidatura do Professor de Pau. Leiam, por favor:

“O velho dito universitário, em paráfrase [Quem só sabe de finanças nem de finanças sabe], parece criado de propósito para o Professor Cavaco. Ei-lo contra os políticos, por não saber que a Presidência é de natureza sobremaneira política; contra a retórica, por não saber que a retórica é a velha e muito estudada arte de persuadir; e contra todos nós, por exibir em público o estendal destas menoridades, sem que o País lhe tenha feito mal nenhum. Aprendeu nos compêndios a lei de Gresham (a tal da má moeda que expulsa a boa), mas talvez ainda ignore que Gresham foi do tempo de Thomas Moore e não de Thomas Mann. Não haveria grande mal nisso, não fora aquela secura esguia, a imitar autoridades de beca, e aquele rasgo de pregador a repisar trivialidades das velhas sebentas, como se fossem revelações do Altíssimo. Eu até nem antipatizo com a pessoa. Não tem culpa por se considerar dotado para exercer a presidência. Convenceram-no disso. Incomoda-me sobretudo a gente que o levou a candidatar-se e que espera aproveitar-se daquela ingenuidade provinciana tão vulnerável às pequenas vaidades e daquela formação tão fechadinha em horizontes convenientes. Com ele em Belém lá teríamos a sarabanda de videirinhos, empresários do dia e da noite, chicos espertos, patos-bravos, autarcas celerados, chatins, tias, reaccionários, espiões, e oportunistas de toda a espécie a moer-nos o juízo. E Cavaco não tem estofo para controlar toda esta gente, nem percebe que alguns se riem dele pelas costas. Não querem um Presidente da República, querem uma cobertura e uma influência.”

Mário de Carvalho (aqui)
publicado por João Tunes às 23:11
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SOFRIMENTO ALEGRETE

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Cá na casa e arredores sou o único “alegrete” assumido (a minha filha mais velha também, mas essa mora longe). Tirando o meu filho mais novo, para quem Cavaco é um crucifixo que não lhe podem tirar da parede (antes isso, digo para mim, que um chouriço à Ana Drago), o resto anda a digerir fidelidades e infidelidades, razão e coração, assim pela surra, esperando uma qualquer revelação, escorregadela ou evidência, com dificuldades de fractura entre tantos candidatos de esquerda. Nada ralado estou com isso. Alegre veio para ganhar, mas, primeiro que tudo, para inquietar e desalinhar. E passar do reflexo (És de esquerda, toma lá! És de direita, serve-te aqui!) á quietude da escolha confiante, passando pelo desalinho e pelo inquieto, é coisa que demora o seu tempo, não pode ser meter brasa e soprar no fogo. E, por isso mesmo, modero (tirando no blogue, onde só falta a bandeira e o hino da campanha, mas aqui não faz mal, a “share” é menos que pequenina) a minha pulsão prosélita. Este é o desafio de desasossego de Alegre, que tem os seus riscos, oh se tem, em que o maior é, numa campanha abespinhada, com um frenético infantilizado e um bonzo manequim, não haver tempo nem condições de maturação. Que seja. Teremos ou a seara da vitória ou as sementes de uma nova forma de desejar a política. Ganho sempre, portanto.

Pelo que me vou apercebendo, uma grande parte dos não cavaquistas, malta que vota na esquerda, está-se a pelar por, na segunda volta, votar Alegre. [Descurando que, para se juntarem a essa alegria, é preciso que Cavaco não ganhe à primeira.] Prisioneiros de assumirem o passo importante de darem corpo à mudança político-partidária que, em primeiro lugar, é o mérito maior da existência da candidatura de Alegre. Descontinuando votos que, antes, sempre foram certos ou variáveis mas numa escolha entre os partidos consagrados. Alegre, na segunda volta, daria essa sensação de liberdade fresca e de alívio pois então a alternativa a Alegre seria a escuridão cavaquista. Numa bipolarização esquerda-direita, os problemas eram serenados e, por isso mesmo, não duvido que a única hipótese de continuarmos a ter um homem de esquerda em Belém se reduz a Manuel Alegre. Difícil, muito difícil, o mais difícil, é evitar Cavaco à primeira, exactamente porque os entusiasmos estão guardados para a segunda volta e, por enquanto, poucos são os que querem assar as castanhas nas querelas da esquerda. Entretanto, Soares não entusiasma além das claques xuxas (e nunca ganharia uma segunda volta), Jerónimo e Louçã, aqui só riscam para o folclore. E temos a campanha miserável e disfarçada de Jerónimo a fazer campanha paralela por Soares (porque é o único que não lhe corrói o eleitorado pelo lado esquerdo, confiando que os muitos eleitores comunistas que se dispõem a votar Cavaco lhes voltarão ás mãos noutras eleições). E o povo de esquerda, carente de Alegre, disponível para Alegre, nas encolhas e a ver a banda passar.

Voltando a casa e arredores: ficou tudo espantado por ter sido o único que não viu ontem a entrevista a Alegre na RTP. Preferi, no caso, atentar nas reacções, sem me meter no barulho com bandeirinha na mão. Percebi que gostaram e ficaram um bocadinho mais convencidos. “O homem é sereno, explica-se bem e não é agressivo”, disse o meu sogro, do alto da sua austeridade octogenária. Vamos a ver se o tempo que falta, chega ou ainda falta. Mas, confesso, para este sofrimento de espera e esperança, já me chegavam e sobravam as dores com o Benfica.
publicado por João Tunes às 16:53
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UMA PIZZA ALEGRETE PARA A MESA DE UMA SOARISTA

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Vai de férias, esta “soarista”, melhor dizendo: uma “esquerdelha-soarista”, assim a modos que uma Joana não mandatária (e, por isso, mais serena). Férias merecidas, sim senhor, porque, para mais, tem lá, em Itália, rosas do seu jardim de amores à espera, e se uma pessoa não rega de quando em vez as flores dos afectos, adeus vindima, que ficamos com os olhos secos à míngua de uma chuvinha de acenos.

A Isabella, no que me parece, que a bem falar mal a conheço, é mulher de armas e veias como se fossem nervos, sempre a disfarçar saudades bonitas e frescas, ajustando-lhes contas pela escrita. Tão frenética quanto distraída, arrisco no cálculo. E precisa de barulho, confusão, abraços, beijinhos a rodos, cerveja com pouca ou muita espuma desde que muita seja, risadas e interjeições, para poder regressar, cheia e inspirada, à sua solidão de escrita e olhar para dentro de si, nunca perdendo o olhar sobre os outros e para conter a corrosão do apelo laurentino que lhe está agarrado aos pés do seu crescimento.

Pois, a Isabella vai de férias italianas e já se despediu. E deixou, lá, esta mensagem:

“Quando estou fora e quero saber novas de cá, costumo começar por 'clickar' neste terno resmungão, que é eleitor certo do Poeta.”

Quanto ao “terno resmungão” vi logo, mesmo sem confirmar o link, que era comigo. Pois se não é o pior que me têm chamado, segui em frente. E até não está mal visto, não senhora. Mas o que afinei foi com essa réplica da “onda soarista”, em que se critica Cavaco por não saber os Cantos de Camões, mas, depois, pretende-se diminuir Alegre por ser “Poeta”, como se isso fosse achaque na capacidade presidencial, assim a modos que próstata podre para se poder habitar Belém.

E não deixei de lhe responder a preceito, aproveitando para usar o meu “tempo de antena” e que me dá jeito reproduzir aqui, senão ainda me acusam, lá da candidatura, de falta de militância alegrete:

”Protesto o modo como referes um candidato (no caso, o meu candidato) a PR como "O Poeta". Manuel Alegre vai ser nosso Presidente, vai-te habituando à ideia, não por ser Poeta mas também por ser Poeta. Não só porque é um homem das palavras, mas por ser homem de palavra. Manuel Alegre traz-nos, pode-nos trazer, o melhor do 25A, porque sempre lhe sacudiu a ganga, o lastro da perversão e do abuso, a generosidade do cravo, a recuperação da alegria abrilista sem o controlo operário e as sobrancelhas carregadas de Cunhal (que tinha o cabelo branco e as sobrancelhas negras, porque pensava muito e bem mas via pouco o que se passava à sua frente) nem a nuvem novembrista do general de patilhas armado em Perón.”
”Manuel Alegre é a esperança de querermos um novo Abril, solto das grilhetas dos aparelhos, desta maioria absoluta inchada de si, um Abril sem PREC nem Novembro. Sem necessidade de se infantilizar como o Soares da Boa Próstata, com o seu séquito de budas xuxas e retroceder ao esquerdismo juvenil para esquecer o "socialismo na gaveta". Nem nos matar a esperança cidadã com os deves e haveres do livro de contas do cavaco de olhar severo e falas engolidas. Entre a oratória oca e repetida de Soares e as falas evitadas de Cavaco (os outros, não contam, nunca contaram, não querem contar), Alegre, o Poeta e o Presidente, é o único que nos pode devolver, reconstruir, a alegria cidadã. Porque é Poeta. E porque vai ser Presidente.”


Toma e embrulha! Mas o mais importante: boas férias, Isabella. Cá te esperamos.
publicado por João Tunes às 15:42
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Terça-feira, 29 de Novembro de 2005

ALJUBARROTA A SAMBA CULO (4)

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Não falta com razões quem desconcerte
Da opinião de todos, na vontade;
Em quem o esforço antigo se converte
Em desusada e má deslealdade,
Podendo o temor mais, gelado, inerte,
Que a própria e natural fidelidade;
Negam o Rei e a Pátria, e, se convém,
Negarão, como Pedro, o Deus que têm.

Mas nunca foi que este erro se sentisse
No forte Dom Nun'Álvares; mas antes,
Posto que em seus irmãos tão claro o visse,
Reprovando as vontades inconstantes,
Àquelas duvidosas gentes disse,
Com palavras mais duras que elegantes,
A mão na espada, irado e não facundo,
Ameaçando a terra, o mar e o mundo.

Como?! Da Gente ilustre Portuguesa
Há-de haver quem refuse o pátrio Marte?
Como?! Desta província, que princesa
Foi das gentes na guerra em toda a parte,
Há-de sair quem negue ter defesa?
Quem negue a Fé, o amor, o esforço e arte
De Português, e por nenhum respeito,
O próprio Reino queira ver sujeito?

Como?! Não sois vós inda os descendentes
Daqueles que debaixo da bandeira
Do grande Henriques, feros e valentes,
Vencestes esta gente tão guerreira,
Quando tantas bandeiras, tantas gentes
Puseram em fugida, de maneira
Que sete ilustres condes lhe trouxeram
Presos, afora a presa que tiveram?

Com quem foram continuo sopeados
Estes, de quem o estais agora vós,
Por Dinis e seu filho sublimados,
Senão com os vossos fortes pais e avós?
Pois se, com seus descuidos ou pecados,
Fernando em tal fraqueza assim vos pôs,
Torne-vos vossas forças o Rei novo,
Se é certo que com o rei se muda o povo.

Rei tendes tal, que, se o valor tiverdes
Igual ao Rei que agora alevantastes,
Desbaratareis tudo o que quiserdes,
Quanto mais a quem já desbaratastes!
E, se com isto, enfim, vos não moverdes
Do penetrante medo que tomastes,
Atai as mãos ao vosso vão receio,
Que, eu só, resistirei ao jugo alheio.

Eu só, com meus vassalos e com esta
(E, dizendo isto, arranca meia espada),
Defenderei da força dura e infesta
A terra nunca de outrem subjugada!
Em virtude do Rei, da Pátria mestra,
Da lealdade já por vós negada,
Vencerei, não só estes adversários,
Mas quantos a meu Rei forem contrários.


Luís de Camões in “Os Lusíadas” (Canto IV)
publicado por João Tunes às 23:37
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ALJUBARROTA A SAMBA CULO (3)

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O mesmíssimo meu camarada A. Marques Lopes, com um tamanho de sabedoria de alferes até coronel, mas em sensibilidade desde soldado raso até general de cinco estrelas, resolveu ”revisitar” a Professora a quem, trinta anos atrás, lhe tinha costurado a barriga com uma rajada de G3, impedindo, a murro, um soldado de lhe profanar a agonia. Uma daquelas costuras e um daqueles murros que nos ficam a matraquear na cabeça, passem os anos que passarem.

A professora de Samba Culo

Ali estava ela, jovem e bela como a conheci há trinta anos, mas agora com um olhar calmo e um sorriso nos lábios, vi-a na expectativa do meu abraço. E abracei-a... e chorei (...).

Professora, este jovem é o Cinco, que me trouxe de jeep até aqui, e este é o Blétch Intéte, filho da siguê (1) dos balantas de Barro. O outro teu patrício, homem-grande (2), é o Cacuto Seidi, chefe da tabanca (3) de Barro. Foi ele que me disse que o Blétch Intéte tem irã (4) e que só ele podia fazer com que eu te encontrasse. A minha chegada aqui, há trinta anos, foi muito diferente, como deves calcular, e não me refiro, evidentemente, às razões de cada uma das viagens. Desta vez, assim que pisei o aeroporto Osvaldo Vieira (5), tive de levar as mãos ao peito para que o coração não me abandonasse. Por mais esforços, por mais conversas apaziguadoras, durante as quatro horas que durou a viagem, não consegui acalmá-lo nem convencê-lo de que era preciso dominar a ansiedade e moderar os desejos de ti. Perdido, cego de alegria e paixão, chegara a hora da realização do sonho de vários anos, depois de desvanecidos todos os fantasmas, é claro, porque, quando saí daqui a primeira vez, evacuado para o hospital, este coração estava enraivecido com vocês todos, que me tinham ferido e matado amigos meus. Passados nove meses, aqui voltei, para continuar na guerra, é verdade, ainda confuso mas já sem ódio e desejoso de entender o que se passava. Foi nessa minha fase, Professora, que nos conhecemos, quando dei contigo na tua escola de Samba Culo, naquela manhã de 7 de Julho. Da segunda vez que abandonei a Guiné e deixei a guerra, a minha vontade e empenho foi esquecê-la, varrer-vos a todos da minha memória, lavar as marcas do sangue dos meus amigos, do meu próprio, e também do vosso, banir o medo e o cansaço que se me entranhara na alma ao percorrer as matas deste chão que, agora, vê lá!, reguei com lágrimas de alegria e de saudade consolada. Para aqui chegar, frequentei bares e prostitutas, acumulei sessões contínuas no Olímpia (6), fui estudante mas nunca acabei cursos, percorri a Europa, estive em Paris, no Quartier Latin das minhas leituras, Londres, vi a Royal Guard e a rainha, Roma, não vi o Papa porque estava de férias em Castelgandolfo, e vê lá que me atrevi a passar a cortina de ferro, em Praga, Moscovo, onde namorei uma soviética na Praça Vermelha, a tchetchena Aniuska, Leninegrado e Kiev, fui activista sindical e militante político, participei em primeiros de Maio, fiz trabalhos clandestinos e levei porrada da polícia, dormi em esquadras, casei-me, fiz filhos e apanhei bebedeiras, bati nos filhos e descasei-me, conheci muitas mulheres, fiz amor por todo o lado, levei muitas negas e passei noites de solidão, dormi em bancos de jardim e debaixo de árvores, mas nunca te esqueci, não houve prazer-anfetamina que cauterizasse esta memória em carne viva nem bebida que a afogasse, cansei-me da vida, como me cansara antes para não morrer, e pensei em matar-me. Mas, olha, não consegui, não por causa de Deus, pois nesse período nunca fui à missa e nunca me confessei. Não o fiz porque tinha começado a amar-te e não queria morrer sem voltar a ver-te, sem deixar de to dizer.(...)

Está a ficar noite e tenho três horas para chegar a Bissau. “Cinc, prépare le jeep, nous en allons tout de suite”. Sabes, professora, porque é que o meu condutor se chama Cinco? Nasceu no dia 5 de Maio e é o quinto filho de sua mãe, que decidiu dar-lhe esse nome tão significativo. Não, não te preocupes que ele não percebeu nada da nossa conversa, além do crioulo só sabe francês, pois frequentou apenas uma escola em Dakar. É que, professora, nasceu há 23 anos, muito depois daquele dia em que tive de te abrir o ventre com uma rajada de G3 por te ver empunhar a kalash que tinhas pendurada no quadro da escola. Ele não estava aqui entre os teus meninos. Se tivesse estado, saberia falar e escrever português, com certeza. Sei que foste uma boa professora. Vi que escrevias no quadro as palavras com o desenho correspondente para os teus alunos identificarem bem em português os objectos do seu dia-a-dia. Vi os livros por onde aprendiam a ler, vi os cadernos de redacção e de cópias. Está descansada, não matei nenhum deles, garanto-te. Devem estar por aí, cidadãos do teu país (...).

Tenho de partir, de voltar a Portugal. Gostei muito de falar contigo, tinha mesmo necessidade de o fazer, já que, naquele dia em que nos encontrámos pela primeira vez, só eu te disse “firma lá!” (7) e tu não me disseste nada. Percebo que nem me quizesses ouvir... E nunca mais dormi descansado até agora. (...) Quero pedir-te uma última coisa, que desculpes aquele meu soldado que tentou violar-te quando estavas agonizante. Conseguiste ver ainda que não o deixei fazer isso. Perdoa-lhe, era bom rapaz, um camponês minhoto que para aqui foi lançado e, sabes, é fácil perder a cabeça numa guerra de inimigos fabricados. Talvez o encontres por aí, o teu camarada Gazela matou-o em Jobel e o corpo dele por cá ficou. Deve andar, como tu, no meio desta floresta do Oio. Fala com ele agora. (...)


A. Marques Lopes

(1) Feiticeira tribal
(2) Homem idoso, respeitável, aceite como autoridade pelos mais novos da povoação.
(3) Povoação.
(4) Irã, entre os balantas, que são animistas, é qualquer ser da natureza, árvore ou animal, ou qualquer objecto a que é atribuído poder mágico. «Tem irã» significa ter poder sobrenatural que é preciso respeitar e temer.
(5) Aeroporto de Bissau, a que foi dado o nome de Osvaldo Vieira, herói do PAIGC, morto durante a guerra de libertação.
(6) Cinema popular na Rua dos Condes, em Lisboa.
(7) Está quieta aí!

Imagem: Foto do Coronel DFA A. Marques Lopes (2005)
publicado por João Tunes às 23:32
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ALJUBARROTA A SAMBA CULO (2)

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O meu camarada A. Marques Lopes deu e levou no toutiço quando, alferes miliciano, foi metido, em 1967, no braseiro da Guiné. Andou por Catacumba, Banjara, Geba e Barro. Foi ferido em combate. Hoje é Coronel DFA (continência, meu Coronel e Camarada!). Mas não perdeu a memória. Difícil perder-se a memória, sabe-se. E nessas brumas das lembranças, ele recordou aqui uma operação em Samba Culo:

" (...) o que mais me impressionou nesta operação foi o seguinte: Samba Culo tinha uma escola; quando lá chegámos, vi escrito no quadro preto, em perfeito português: "Um vaso de flores". Tinha desenhado, a giz, por baixo, um vaso de flores. E o que nunca mais esquecerei na minha vida: quando atacámos a base, uma jovem dos seus 18 anos ficou com a barriga aberta por uma rajada de G3. E mais (coisas terríveis desta guerra!): o Bigodes, o Armindo F. Paulino (que foi, depois, feito prisioneiro pelo PAIGC e que acabou por morrer em Conakri), quis saltar para cima dela. Tive que lhe bater. Esta é uma situação que nunca me sai do pensamento... e da minha consciência. Tinham muitos livros em português, que era o que estavam a ensinar aos alunos (miúdos ou graúdos?). Trouxemos também (imaginem!) uns paramentos completos de um padre católico! Lembranças que se me pegaram para toda a vida".

Imagem: Foto do Alferes Miliciano A. Marques Lopes (Guiné, 1967)
publicado por João Tunes às 23:30
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ALJUBARROTA A SAMBA CULO (1)

nuno_alvares3.jpg

A guerra? Houve guerra? Ainda por cima, guerra colonial? Então, se houve (vá-se lá saber se houve!?), cante-se o Hino, icem a bandeira, levantem o Crucifixo mais as cinco chagas de Cristo, celebre-se missa, D. Januário - nosso Major-General - homilie às tropas, cumprimente-se o novo CEMFA, meta-se uma farda no Jorge Sampaio se ele é - como diz - Comandante Supremo, grite-se “Angola é Nossa”, “Moçambique é Nosso!”, “Guiné é Nossa!”, “Portugal do Minho a Timor!” e mandem-se as tropas, em parada, descansar.

Chega? Se não chega, diga-se que esse meio milhão de velhos marados que por aí restam, se tantos foram, não contando os que lá ficaram depois de cozerem as tripas ao sol, e ao fim de treze anos deram de penates e arrearam a bandeira, a nossa bandeira, então não valeram nenhum ao pé do Dom Nuno, o Condestável. Esse sim, o Vencedor de Aljubarrota. Ai Dom Nuno, Dom Nuno, casto eras, santo até, virgem se calhar e se para o mal não foste tentado, mas tinhas uns tomates do tamanho dos sinos de Mafra (e por isso lá ficaste padroeiro da Escola de Infantaria)! E tamanhos tomates tinhas, ó Nuno, ó Santo Nuno, que tu que eras tão baixinho (vão a Monsaraz e vejam a altura pequenininha da porta da casa dele), que quando avançavas contra os castelhanos te desatavas a rir porque o matagal de Aljubarrota te roçava o tomatal e as cócegas te davam para o riso. E, rindo-te, foste valente e nosso Herói. Herói Nacional. Nada a ver com esse meio milhão de marados de G3 mal aviadas. Tão mal aviadas que deram de frosques e deixaram os retornados às voltas com os caixotes das economias todos desorientados nos cais de partida e de chegada.

Isto atrás é conversa brava e ímpia. De militar que foi mal fardado. Sem decoro, nem sequer maneiras. Não liguem. Peço desculpa. Por favor, passem ao post seguinte.
publicado por João Tunes às 23:28
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EFEMÉRIDE FIM DE CICLO

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E para fechar este ciclo teo-religioso, porque há muitos mais mundos no mundo, além do outro mundo, veio mesmo a calhar saber aqui que hoje é dia de aniversário do finado Cardeal Cerejeira, assinalando o JG assim a efeméride:

“Em 29 de Novembro de 1888, nasce Manuel Gonçalves Cerejeira que, uns anos mais tarde, viria a ser o 14º Cardeal Patriarca de Lisboa. Desde 1926 e durante muitos anos, manteve uma relação muito próxima com António de Oliveira Salazar. Dessa relação não houve descendentes.”

E se agradeço a lembrança, não pode ser mais viva do que aquilo que é a discordância sobre a fatídica frase final. É que – bolas ! – “não houve descendentes”? Irra, descupe-me a irritação, mas o JG não deve sair à rua (nem ler blogues... e muito menos os “comentários”)!
publicado por João Tunes às 18:04
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