Terça-feira, 29 de Novembro de 2005

ALJUBARROTA A SAMBA CULO (4)

lisboa-jeronimos-camoes.jpg

Não falta com razões quem desconcerte
Da opinião de todos, na vontade;
Em quem o esforço antigo se converte
Em desusada e má deslealdade,
Podendo o temor mais, gelado, inerte,
Que a própria e natural fidelidade;
Negam o Rei e a Pátria, e, se convém,
Negarão, como Pedro, o Deus que têm.

Mas nunca foi que este erro se sentisse
No forte Dom Nun'Álvares; mas antes,
Posto que em seus irmãos tão claro o visse,
Reprovando as vontades inconstantes,
Àquelas duvidosas gentes disse,
Com palavras mais duras que elegantes,
A mão na espada, irado e não facundo,
Ameaçando a terra, o mar e o mundo.

Como?! Da Gente ilustre Portuguesa
Há-de haver quem refuse o pátrio Marte?
Como?! Desta província, que princesa
Foi das gentes na guerra em toda a parte,
Há-de sair quem negue ter defesa?
Quem negue a Fé, o amor, o esforço e arte
De Português, e por nenhum respeito,
O próprio Reino queira ver sujeito?

Como?! Não sois vós inda os descendentes
Daqueles que debaixo da bandeira
Do grande Henriques, feros e valentes,
Vencestes esta gente tão guerreira,
Quando tantas bandeiras, tantas gentes
Puseram em fugida, de maneira
Que sete ilustres condes lhe trouxeram
Presos, afora a presa que tiveram?

Com quem foram continuo sopeados
Estes, de quem o estais agora vós,
Por Dinis e seu filho sublimados,
Senão com os vossos fortes pais e avós?
Pois se, com seus descuidos ou pecados,
Fernando em tal fraqueza assim vos pôs,
Torne-vos vossas forças o Rei novo,
Se é certo que com o rei se muda o povo.

Rei tendes tal, que, se o valor tiverdes
Igual ao Rei que agora alevantastes,
Desbaratareis tudo o que quiserdes,
Quanto mais a quem já desbaratastes!
E, se com isto, enfim, vos não moverdes
Do penetrante medo que tomastes,
Atai as mãos ao vosso vão receio,
Que, eu só, resistirei ao jugo alheio.

Eu só, com meus vassalos e com esta
(E, dizendo isto, arranca meia espada),
Defenderei da força dura e infesta
A terra nunca de outrem subjugada!
Em virtude do Rei, da Pátria mestra,
Da lealdade já por vós negada,
Vencerei, não só estes adversários,
Mas quantos a meu Rei forem contrários.


Luís de Camões in “Os Lusíadas” (Canto IV)
publicado por João Tunes às 23:37
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1 comentário:
De IO a 30 de Novembro de 2005 às 00:32
Um grande abraço, João!! - IO.


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