Quarta-feira, 30 de Novembro de 2005

SOFRIMENTO ALEGRETE

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Cá na casa e arredores sou o único “alegrete” assumido (a minha filha mais velha também, mas essa mora longe). Tirando o meu filho mais novo, para quem Cavaco é um crucifixo que não lhe podem tirar da parede (antes isso, digo para mim, que um chouriço à Ana Drago), o resto anda a digerir fidelidades e infidelidades, razão e coração, assim pela surra, esperando uma qualquer revelação, escorregadela ou evidência, com dificuldades de fractura entre tantos candidatos de esquerda. Nada ralado estou com isso. Alegre veio para ganhar, mas, primeiro que tudo, para inquietar e desalinhar. E passar do reflexo (És de esquerda, toma lá! És de direita, serve-te aqui!) á quietude da escolha confiante, passando pelo desalinho e pelo inquieto, é coisa que demora o seu tempo, não pode ser meter brasa e soprar no fogo. E, por isso mesmo, modero (tirando no blogue, onde só falta a bandeira e o hino da campanha, mas aqui não faz mal, a “share” é menos que pequenina) a minha pulsão prosélita. Este é o desafio de desasossego de Alegre, que tem os seus riscos, oh se tem, em que o maior é, numa campanha abespinhada, com um frenético infantilizado e um bonzo manequim, não haver tempo nem condições de maturação. Que seja. Teremos ou a seara da vitória ou as sementes de uma nova forma de desejar a política. Ganho sempre, portanto.

Pelo que me vou apercebendo, uma grande parte dos não cavaquistas, malta que vota na esquerda, está-se a pelar por, na segunda volta, votar Alegre. [Descurando que, para se juntarem a essa alegria, é preciso que Cavaco não ganhe à primeira.] Prisioneiros de assumirem o passo importante de darem corpo à mudança político-partidária que, em primeiro lugar, é o mérito maior da existência da candidatura de Alegre. Descontinuando votos que, antes, sempre foram certos ou variáveis mas numa escolha entre os partidos consagrados. Alegre, na segunda volta, daria essa sensação de liberdade fresca e de alívio pois então a alternativa a Alegre seria a escuridão cavaquista. Numa bipolarização esquerda-direita, os problemas eram serenados e, por isso mesmo, não duvido que a única hipótese de continuarmos a ter um homem de esquerda em Belém se reduz a Manuel Alegre. Difícil, muito difícil, o mais difícil, é evitar Cavaco à primeira, exactamente porque os entusiasmos estão guardados para a segunda volta e, por enquanto, poucos são os que querem assar as castanhas nas querelas da esquerda. Entretanto, Soares não entusiasma além das claques xuxas (e nunca ganharia uma segunda volta), Jerónimo e Louçã, aqui só riscam para o folclore. E temos a campanha miserável e disfarçada de Jerónimo a fazer campanha paralela por Soares (porque é o único que não lhe corrói o eleitorado pelo lado esquerdo, confiando que os muitos eleitores comunistas que se dispõem a votar Cavaco lhes voltarão ás mãos noutras eleições). E o povo de esquerda, carente de Alegre, disponível para Alegre, nas encolhas e a ver a banda passar.

Voltando a casa e arredores: ficou tudo espantado por ter sido o único que não viu ontem a entrevista a Alegre na RTP. Preferi, no caso, atentar nas reacções, sem me meter no barulho com bandeirinha na mão. Percebi que gostaram e ficaram um bocadinho mais convencidos. “O homem é sereno, explica-se bem e não é agressivo”, disse o meu sogro, do alto da sua austeridade octogenária. Vamos a ver se o tempo que falta, chega ou ainda falta. Mas, confesso, para este sofrimento de espera e esperança, já me chegavam e sobravam as dores com o Benfica.
publicado por João Tunes às 16:53
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5 comentários:
De Joo a 1 de Dezembro de 2005 às 15:47
Arruma aí na mochila ó Isabella (já agora, quando trocas o mau uso do "oh" - interjeição de surpresa - pelo "ó" - interjeição apelativa?): 1) Continuo a pensar que uma maioria relativa prisioneira do Chico e do Jerónimo, seria pior que a actual maioria absoluta, assim, em vez de empates e empatas, temos a quem pedir responsabilidades absolutas pois antes decidir mal que não decidir; 2) Bem me queria parecer, e confirma-se, a tua Mãe, além de ser uma beleza de espanto e a merecer altar (diga-se: só uma mulher tão bonita como ela, com aqueles olhos que me fazem lembrar uma diva do cinema italiano lá dos meus "amores juvenis", me faria voltar a dobrar os joelhos em terra em oração) é a mais esclarecida e decidida politicamente lá de vossa casa, é "alegrete" e isso tanto diz. Vão lá de boa viagem.


De IO a 1 de Dezembro de 2005 às 00:34
"Descontinuando votos que, antes, sempre foram certos ou variáveis mas numa escolha entre os partidos consagrados." - e agora, provoko eu, já de mochila às costas: olha lá, oh, juanito, quem é que nas legislativas andou a tentar levar a maioria a votar Sócrates?, eu não fui, mas tu.

Quanto aos votos da casa, fizeste-me lembrar as outras presidenciais, em que, à 1ª volta, votei Soares (lol), a minha irmã Pintassilgo e a minha mãe (que vai votar Alegre) votou Zenha! Ainda me lembro que na 2ª volta foi difícil à brava conseguir que a mana engolisse o sapão, mas lá votou...

Outro abraço, IO.


De Cu a 30 de Novembro de 2005 às 19:57
Viva!
É gostoso ler os seus posts sobre o Poeta!
Só espero que haja 2ª volta e a minha tese se confirme. Nesse caso, ninguém precisaria sequer de "engolir sapos"...
Sabe-se lá Quem negociou o Quê, mas quero acreditar que o Próximo Presidente da República será O Poeta ;)!


De M. Conceicao a 30 de Novembro de 2005 às 19:04
João, coloquei lá em baixo um comentário, mas o computador resolveu empancar e agora não me apetece repetir. De qualquer modo, interessa-me muito, esta questão da votação presidencial. Continue a fazer campanha, porque eu preciso de perceber porque é que vou votar Alegre. Já que o resto, está fora de questão.


De Carlos a 30 de Novembro de 2005 às 17:37
Eu espero é que o querido PCP mais o seu apêndice esverdeado não façam uma negociata para trairem a troco de não quantos dinheiros, digo, favores parlamentares. Matavam a candidatura de esquerda pois, como dizes e bem, MS não tem chances de ganhar mano-a-mano ao Cavaco. Sendo mauzinho até quase digo que a ninguém...
Abraço, e haja calma. Sem traições estamos na 2ª volta e, aí, não há panelinhas que lixem isto.


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