Quarta-feira, 30 de Novembro de 2005

O PROFESSOR DE PAU VISTO POR UM ESCRITOR

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Já aqui contei, mas há gostos por pessoas que nunca nos cansamos celebrar. Sobretudo quando, com elas, temos distância, uma espécie de amizade de uma margem para a outra com o rio da vida a correr pelo meio.

Sou amigo do escritor Mário de Carvalho, talvez pela única razão de gostar dele e nada lhe dever, nem ele a mim. Em momento de aflição, não lhe ia bater á porta, não lhe tenho confiança para desaforos. Vice versa, presumo, mas garanto que, então, não ficaria à porta, pendurado na campaínha. Admiro-lhe a escrita, bebo-lhe o talento de grande escritor e digo, em abuso de intimidade, por aí, “leiam este gajo, escreve bem como o caraças e ... é meu amigo” (coisas que aprendi quando andei pelo marketing - um tom afectivo ajuda a que o cliente se ligue ao produto, desde que o produto valha). É o caso, porque fora amizades, o Mário de Carvalho é um dos nossos melhores escritores contemporâneos.

O Mário de Carvalho, revelação literária tardia mas fulgurante e ciclópica desde que nisso investiu, foi o meu primeiro “controleiro” no PCP depois do 25 de Abril. Estava eu, então, enquadrado numa eclética célula que agrupava os “comunas do cinema” (cineclubistas, críticos, realizadores, produtores, mais coisas afins). Abreviando o relato dessa experiência, o MC cumpria o que tinha a cumprir, não “controlava” nada ou muito pouco, passávamos era horas a fio a dissecar Visconti, Fellini e Fonseca e Costa. Ele aparecia mal amanhado, com o eterno ar de quem sempre se está a levantar da cama (que percebi cedo ser a sua forma de gerir a praxis), um sorriso persistente, sincero e menino metido na cara mal barbeada, despachava o que tinha a despachar lá das missões que eram seu (e nosso) mister, depois perdia-se no prazer imenso da cinefilia desbragada que nunca tem termo porque o cinema tem o tamanho da vida eterna. A vida me ensinaria mais tarde, logo a seguir, que “controleiros” destes eram a grande excepção, muito longe dos da regra da casa. Tanto, presumo, que, por isso mesmo, ele se fartou da função de “controlar” e ainda antes de eu não aguentar mais “ser controlado”.

Encontrei-o, mais tarde, esporadicamente, já nas suas novas funções de advogado especialista em questões de trabalho e com escritório montado para as bandas da Praça do Chile. O seu sorriso era o mesmo. O sentido do zelo também. Mas pressenti que, se não se reformara como “controleiro”, também não o faria como advogado. Pouco esperei a testar a profecia. Estoirou o escritor e esse anda por aí. Mas quanto a isso, todos sabem o que ele vale (muito).

Reencontro, agora, o Mário de Carvalho como camarada da Alegria. Tinha de ser, se o destino é como dizem. E orgulho-me, atenção o gajo é meu amigo, com esta muito bem esgalhada análise da candidatura do Professor de Pau. Leiam, por favor:

“O velho dito universitário, em paráfrase [Quem só sabe de finanças nem de finanças sabe], parece criado de propósito para o Professor Cavaco. Ei-lo contra os políticos, por não saber que a Presidência é de natureza sobremaneira política; contra a retórica, por não saber que a retórica é a velha e muito estudada arte de persuadir; e contra todos nós, por exibir em público o estendal destas menoridades, sem que o País lhe tenha feito mal nenhum. Aprendeu nos compêndios a lei de Gresham (a tal da má moeda que expulsa a boa), mas talvez ainda ignore que Gresham foi do tempo de Thomas Moore e não de Thomas Mann. Não haveria grande mal nisso, não fora aquela secura esguia, a imitar autoridades de beca, e aquele rasgo de pregador a repisar trivialidades das velhas sebentas, como se fossem revelações do Altíssimo. Eu até nem antipatizo com a pessoa. Não tem culpa por se considerar dotado para exercer a presidência. Convenceram-no disso. Incomoda-me sobretudo a gente que o levou a candidatar-se e que espera aproveitar-se daquela ingenuidade provinciana tão vulnerável às pequenas vaidades e daquela formação tão fechadinha em horizontes convenientes. Com ele em Belém lá teríamos a sarabanda de videirinhos, empresários do dia e da noite, chicos espertos, patos-bravos, autarcas celerados, chatins, tias, reaccionários, espiões, e oportunistas de toda a espécie a moer-nos o juízo. E Cavaco não tem estofo para controlar toda esta gente, nem percebe que alguns se riem dele pelas costas. Não querem um Presidente da República, querem uma cobertura e uma influência.”

Mário de Carvalho (aqui)
publicado por João Tunes às 23:11
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2 comentários:
De Joo a 2 de Dezembro de 2005 às 17:50
Calma Odete, o que é preciso é estar-se Alegre (e fazer-se por isso). Abraço.


De odete pinto a 1 de Dezembro de 2005 às 16:14
"Com ele em Belém lá teríamos a sarabanda de videirinhos, empresários do dia e da noite, chicos espertos, patos-bravos, autarcas celerados, chatins, tias, reaccionários, espiões, e oportunistas de toda a espécie a moer-nos o juízo".

Excelente texto de um excelente escritor.
Por mim, só acrescentaria: antipatizo muito com a pessoa.


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