Sábado, 3 de Dezembro de 2005

CIDADANIA E PARTIDOS

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Não se vão cansar até ao fim, comentadores, jornalistas, outras candidaturas, de baterem na tecla moída de que Manuel Alegre sofre da contradição grave de “ser contra os partidos” mas ser não só uma “criatura de um partido” como gerir mal o balanço entre a sua fidelidade partidária e a sua distância partidária. Nesta retórica, em que se pretende apagar a força da figura e do seu carisma, através de uma pseudo evidente dificuldade de gerir o seu posicionamnto e as suas contradições, não vão faltar nem a chicana nem os episódios parlamentares e pitorescos contados à maneira conveniente. É natural e faz parte do jogo de contra-ataque perante a onda cívica que se está a formar com esta candidatura.

A base de ataque a Manuel Alegre comporta um jogo de sofismas. Por um lado, a querer fazer esquecer que a candidatura de Manuel Alegre não se perfila contra os partidos e, por outro, que o passado do cidadão, do político e do candidato Manuel Alegre nunca se esgotou na esquadria redutora de um simplório "homem de partido". Ele foi, sempre, antes e depois do 25A, um homem da política e de partido, mas sempre deu à sua intervenção cívica uma dimensão além do quadro partidário (foi rebelde quando foi caso disso, sendo-o muitas vezes) e nunca se esgotou no “político-partidário”, isto é, a sua intervenção política e cultural voou sempre em áreas abrangentes de uma cidadania que se pode sintetizar como "abrilista" e muito polarizada e matizada na vertente de homem da cultura.

Se a candidatura de Manuel Alegre, e o movimento gerado, não é contra os partidos (que sentido fazia isso?, onde levava isso?), tem, no entanto, duas características que perturbam o sono do conservadorismo dos aparelhos dos partidos:

- A “esquerda com Manuel Alegre" é transversal a todos os partidos de esquerda (chegando, inclusivé a penetrar nas franjas centro-esquerda do PSD e de independentes), absorvendo o essencial dos sentimentos dos aderentes às várias forças partidárias, sobressaindo o que une e secundarizando o que divide ou separa. Neste sentido, como fenómeno político, é o factor de aglutinação mais abrangente, à esquerda, que alguma vez se posicionou como escolha eleitoral. Não violenta cada e qualquer opção ou fixação ideológica em particular, oferecendo uma plataforma, de génese supra-partidos, á superação das querelas e disputas autofágicas com que os partidos de esquerda se vêm dedicando desde sempre e que cristalizaram em bloqueios graníticos. Naturalmente, os partidos preferiam continuar a gerir autonomamente as perdas e ganhos dos bloqueios e das esperanças das oportunidades egoístas de assegurarem hegemonias na hipótese de qualquer eventual plataforma de entendimento (e o que temos é história única de resultados em desentendimentos). Uma dinâmica sobrenadante, fora de controlo, assusta, inquieta, cria repulsa. Ou seja, enquanto atrai militantes e não militantes, amalgamando-os num projecto comum, perturba os aparelhos. Que mais não seja, por conseguir o que não foi conseguido, até hoje, por cada um e por todos os partidos de esquerda.

- A dinâmica de aglutinação e vivificação de um movimento de esquerda, que incorpora forças e militâncias adormecidas bem como figuras e sectores recém-despertados para a política e a cidadania, fazendo circular sangue envelhecido pelo pessimismo e injectando sangue novo de relapsos à intervenção política, introduz um código de conduta política mais abrangente e menos rigidificada em obediências de disciplinas partidárias, mais solta dos condicionamentos maniqueístas (onde se classificam os "nossos", os "outros", os "aliados", os "adversários", os "inimigos") próprios e específicos em cada partido, se não perturba o sentimento de pertença de cada um ao seu partido, eleva automaticamente a exigência de cada um perante o seu partido, sobretudo ao nível da perspectiva da dimensão de exercício infra-partidário de cidadania. Militantes cidadãos, mais exigentes, só podem perturbar as nomenklaturas partidárias instaladas e que sobrevivem e se reproduzem pela “quietude” partidária, pela “serenidade burocrática” dos seus processos e rituais sucessórios e programáticos, pelo seus conservadorismos na gestão do poder. Esta tendência de preservação de universos endogâmicos que é típica de qualquer aparelho partidário, tinha de se assustar, e fazer reagir, perante a perspectiva de terem de lidar com organismos, secções, militantes mais exigentes e menos delegativos nas suas responsabilidades, competências e cumprimentos dos postulados programáticos.

Uma candidatura á Presidência da República, dado o carácter unipessoal desta eleição e associado à natureza do cargo, é oportunidade única para uma regeneração da militância da esquerda portuguesa, ultrapassando bloqueios e egoísmos de fortalezas, pela possibilidade específica de dar um programa de cidadania comum à esquerda, impulsionando convergências centradas no essencial, acima das particularidades ideológicas e programáticas de cada partido. Manuel Alegre não é contra os partidos, não é prisioneiro dos partidos. Comporta, além de outros méritos, essa diferença importante, talvez crucial, perante todos os restantes candidatos. Mas, assim sendo, só pode assustar e irritar os partidos (unificando, nesse pânico, uma aliança do pior de todos os aparelhos partidários). E com os partidos assustados e ciosos dos seus bloqueios e poderes condicionantes, o problema sobra para os eleitores. Não é fácil, não é impossível. Depende de nós, eleitores.
publicado por João Tunes às 18:42
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