Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2005

INQUISIÇÃO SIM, REPÚBLICA NÃO (?)

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“O Arcebispo emérito de Braga [D. Eurico Nogueira] voltou à ribalta para criticar o programa de comemorações do centenário da implantação da República. Dizendo que não pactua com aqueles que «perseguiram os seus antepassados» e que a Igreja Católica «deve perdoar mas não deve esquecer os factos da história».” [Expresso]

Esta reaparição do jubilado D. Eurico (uma figura vivíssima e polémica, de enorme vigor oratório, retórico, teológico e cultural, com uma história de enormes méritos – nas suas passagens apostólicas e inconformistas por Moçambique e Angola -, como episódios pistoleiros de ferro, fogo e bomba – quando cobriu o Cónego Melo na militância ELP, a partir dos claustros do Arcebispado de Braga) dá que pensar. Na medida em que reaparece para meter achas na fogueira da caça à laicidade do Estado português.

A “defesa do crucifixo nas escolas públicas” anda por aí, com presbíteros e laicos ainda mais presbíteros de pensamento (leiam-se as perorações de Bagão Félix no DN e de Benard da Costa no Público). O que denota que o fundamentalismo católico está impante, agarrado a conservar aquilo que a laicidade republicana se atrasou a resolver, constitucionalmente, nestes anos passados em distracção e em temor de mexer nos privilégios da Igreja Católica, para não a indispor. E já cansa ver nos clérico-católicos os mesmos argumentos estafados de “contra-ataque” (os feriados católicos, a simbologia das “chagas” na bandeira nacional).

Agora, pelos vistos, na contra-ofensiva integralista, é a própria ideia e memória da I República (1910-1926) que está em causa. E que se pretende fazer funcionar, como mancha negra histórica e como ainda mais tenebrosa que a fase da ditadura (1926-1974). Para além das associações negativas e redutoras do “período das convulsões sociais, políticas e militares”, do “descalabro das contas públicas”, vem o realce para a pretensa perseguição à Igreja Católica (belzebu maior – Afonso Costa). Esta trilogia de maldições serviu, durante toda a ditadura, como justificação para o fascismo (que, assim, nos teria salvo do caos, da bancarrota e do ateísmo) e para que se estruturasse o mololitismo de domínio católico absolutista como cimento ideológico do nacional-catolicismo arquitectado pela dupla mandante Salazar-Cerejeira (ambos foram colegas de Seminário e, desde aí, ficaram amigos e cúmplices para os restos das suas vidas).

Quem estudou História nos tempos da ditadura, lembrar-se-á que o período 1910-1926 reduzia-se a duas páginas que o fascismo escolar considerava suficientes para exorcizar o seu diabolismo e justificar a “redenção fascista”. Restou pois, na memória e no conhecimento de sucessivas gerações, uma profunda ignorância sobre o primeiro período republicano e um punhado de preconceitos e de repulsas. Entretanto, na cultura política “de esquerda”, embora por outras motivações (sobretudo advindo, através do marxismo, uma caracterização em que a I República não tinha passado de um domínio da burguesia sobre o proletariado), a avaliação sobre o mesmo período não foi mais benévola. Exceptuando algumas camadas restritas (os “republicanos do reviralho”), da extrema-direita à extrema-esquerda, da ideologia do Estado até à Oposição, a I República foi etiquetada como uma fase má e a não mais repetir historicamente, com partilha de repulsa ideológica.

O enorme silêncio e ignorância sobre a I República, nunca ultrapassados até hoje, permitem que qualquer um, sem escrúpulos de rigor, se necessitado de citar demónios, diga umas tretas sobre o período 1910-1926, sem grande risco de contradita ou de desfeite intelectual. Ou seja, ele é mais um enorme bombo de festa que um período considerado como histórico (multifacetado, contraditório, portanto).

E, afinal, sobre a “questão religiosa”, a I República foi bem modesta e timorata na afirmação laica da separação entre Estado e Igreja. Certo que reduziu alguns privilégios e abusos patrimoniais acumulados e consolidados pelos séculos de Monarquia Católica. Certo que introduziu, nos formalismos do Estado, nos usos e costumes, na Educação Pública, algumas medidas de laicidade. Mas não só não foi longe demais (nunca houve uma verdadeira “perseguição religiosa”) como, pelos avanços, recuos e hesitações, nunca se chegou onde se devia chegar – retirar à Igreja Católica o seu papel absolutista na afirmação religiosa e na sua penetração monopolista como “cultura civil e tradicional”, permitindo-lhe até as manipulações grosseiras de paganismos e superstições nos meios onde grassava a ignorância e o analfabetismo (e não se esqueça que o embuste de Fátima foi fabricado em 1917, o que diz bem da capacidade de reacção e afirmação que a Igreja sempre manteve, usando, no caso, o apelo do paganismo mariano).

A Comissão encarregada de preparar as comemorações, em 2010, do centésimo aniversário da implantação da República, essencialmente composta por personalidades do mundo académico, tem exactamente a grande finalidade que essa comemoração seja um reencontro cultural com um período silenciado e caluniado da nossa História. D. Eurico, no descanso da sua reforma jubilada, entrou em pânico e em desaforo. Formado na cultura de desforra perante os “republicanos”, ele nem quer comemoração nem cultura. Para a República e para Afonso Costa, D. Eurico só tem gasolina de rancor para lhe atear as chamas do inferno. Esperem pelo resto, pois a procissão ainda só se começou a paramentar para sair ao adro.
publicado por João Tunes às 18:27
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4 comentários:
De Joo a 7 de Dezembro de 2005 às 00:56
Cara M. Conceição, se me permite o alvitre, aconselho-lhe a leitura do livro da Doutora (Universidade de Coimbra) Maria Lúcia de Brito Moura - "A Guerra Religiosa na Primeira República", Ed. Notícias. Confirmará que fui tão esquemático e redutor como o Arcebispo de Braga. Mas este foi um post de "combate" às bocas do prelado (usei-lhe as mesmas "armas", não o devia ter feito, mas se um Arcebispo peca, um ateu acha-se no direito de pecar muito mais, abusando). A realidade foi, de facto, muito mais rica, contraditória e complexa. Mas, para ir a ela, é preciso espicaçar. Prestei-me ao "jogo sujo" de um dos lados para que já seja tempo de se falar com propriedade, de todos os lados. E aí, é preciso, antes de todos, dar a palavra aos historiadores. Bem haja por me dar a honra da sua companhia.


De M. Conceicao a 6 de Dezembro de 2005 às 10:52
Gostei do texto, João. Espero mais. Também gostava de saber mais deste período da nossa história. Quanto ao resto;Perdoai-lhes, Senhor...


De Joo a 5 de Dezembro de 2005 às 23:05
Depois de uma ligeira interrupção para ir rir à vontade e sem incomodar os vizinhos, regresso para saudar este excelente humor. Obrigado.


De Carlos Indico a 5 de Dezembro de 2005 às 22:46
Como é costume entre nós estás a especular.
É verdade que o Papa anterior foi mariano, inventou a Santíssiam Quadrade.
Mas não quer dizer que os cristãos o sigam. Aliás,atreve-mo a dizer, João, que a católica - sacando a Hierarquia - é a mais democrática das Confissões. Se o bispo de Braga não entrar nas contas!


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