Quinta-feira, 8 de Dezembro de 2005

SOBRE A DIVERSIDADE ÉTNICA DA GUINÉ-BISSAU E O “SEU PROBLEMA” DA UNIDADE NACIONAL

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A diversidade étnica da Guiné-Bissau, tendo para mais em conta o elevadíssimo número de etnias concentradas num pequeno território, é um problema, mas também um bem.

Um problema, porque é favorável, ainda nas suas condições sócio-económicas locais, mais à divisão e aos egoímos do que à consolidação da unidade nacional.

Um bem, na medida em que enriquece o mosaico cultural e de usos e costumes da Guiné e exprime a força das persistências culturais e sociais das várias etnias ali presentes e que souberam, face à ocupação colonial e militar portuguesa e á proximidade de etnias muito diferentes, preservar as suas culturas e os seus hábitos. E julgo que o “milagre” desta permanência de vizinhanças, mantendo-se intocáveis as endogenias próprias de cada etnia, foi possível pela conjugação de dois factores – a unificação de salvaguarda perante o ocupante europeu (quando ele existiu); o país ser pobre (não propício a processos de acumulação capitalista e á consequente estratificação social) e, simultaneamente, o terreno ser de tal forma fértil que os mais desvalidos não correm o risco de serem derrotados pela fome (as doenças, sim, são os grandes “exterminadores”).

O fim da ocupação portuguesa, levou os guineenses a terem de resolver, entre si, dois problemas (novos, mas que já existiam no seio da guerrilha):

– Por um lado, a questão dos “caboverdianos”, cuja supremacia, pela sua escolarização, se manifestava – no lado colonial – pela sua ocupação dos lugares administrativos do aparelho de domínio colonial, e, na guerrilha, por serem a maioria nos quadros destacados do PAIGC e, na altura da independência, serem os que tinham melhores condições para substituírem os portugueses nos comandos do aparelho do Estado, aos mais diversos níveis. Sabe-se como o problema foi “resolvido”.

- Segundo, como, “resolvido” o primeiro, se iam arrumar as várias etnias em termos de prevalência social, contando aqui a superioridade numérica forte de uma das etnias (com um correspondente peso no aparelho militar) face a outras, com hábitos e tradições de se auto-atribuírem finalidades aristocráticas na escala de valores infra-africanas. Ao mesmo tempo que tinham de se entender com a afirmação virgem de um espírito de unidade nacional, por si próprios, desaparecido que foram os factores “unificadores” quer da simetria ao ocupante colonial e, depois, liquidada que foi a “supremacia caboverdiana”.

O domínio colonial tudo fez, dividir para reinar, para explorar e acirrar os conflitos infra-guineenses. A “psico” tentou virar as populações indígenas e os guerrilheiros contra os “chefes caboverdianos” do PAIGC; deu um claro favorecimento às etnias islamizadas (sobretudo, os fulas) por considerar que, por via dessa influência religiosa, seriam mais relapsos a aceitarem os fundamentos ideológicos do PAIGC, com maior capacidade de penetrarem no comunitarismo próprio das etnias de cultura animista (e não foi por acaso que o PAIGC penetrou mais profundamente nas regiões balantas e menos nas regiões fulas). Entretanto, o assassinato de Amílcar Cabral, com as batutas e os dedos da Pide e de Spínola, só foi possível como fruto da exploração das divisões inter-étnicas e da aversão aos caboverdianos e que a “psico” conseguiu transportar para o campo inimigo. Uma das nossas heranças que ficaram na Guiné, foi essa.

A unidade nacional não se decide nem se decreta. É mais uma questão de tempo que de vontade. E de condições sociais, políticas, culturais e económicas, umas objectivas e outras subjectivas. O exemplo da “uniformidade” portuguesa, como contraponto, não colhe, porque uma excepção nunca vale para valer como regra. Olhe-se aqui, para o lado, para os espanhóis. Para os belgas, os suíços, os franceses, os da Grã-Bretanha, os italianos, os jugoslavos, por aí fora. E como é nada ou muito pouco (tirando a moeda e a liberdade de circulação de pessoas e mercadorias), a identidade e a unidade europeias. Portugal, no quadro europeu, é um caso quase único, verdadeiramente excepcional, beneficando da uniformidade longeva das fronteiras e do expansionismo ultramarino e migratório que aliviou tensões internas, mais o efeito da força centrífuga do periferismo europeu e mesmo peninsular. E se o caso português não serve como exemplo para a Europa, como podia funcionar para África? Quando, exactamente, a herança que lá deixámos foi a do acirrar rivalidades para impedir o espírito de unidade nacional que nos era um factor adverso (em termos de domínio colonial e de actuação militar) e uma pedra de toque da ideologia independentista?

Voltando ao bem que é a riqueza da diferenciação étnica da Guiné. Se for possível “unificarem-se”, não sei se é, nem sei se não é, seria óptimo para os guineenses e para o mundo, que em vez de o fazerem num quadro uniforme de africanos engravatados, de pasta numa mão, computador na outra e telemóvel ao ouvido, eles não perdessem a sua enorme e polifacetada riqueza cultural das suas diversidades e raízes. De qualquer forma, tudo o que se faça para um povo se “alhear” das suas realidades, imprimindo-lhe uma uniformidade não aceite, é chover no molhado. É adiar e agravar o problema. Como querer acelerar sem ter combustível no depósito. Que só é problema se não for sublimado culturalmente e quiser ser resolvido pela força das armas (o que, infelizmente, tem acontecido vezes demais). De qualquer forma, é um problema (até de soberania cultural) que só os guineenses devem e podem resolver. Nós, portugueses, não temos nada para “ajudar” (deixámos maus exemplos e péssimas heranças, não temos “psico” para ajudar á festa). Persistir na ideia de “ajudar os guineenses” a resolver os seus problemas políticos é, parece-me ser, um paternalismo retardado. Perdemos essa oportunidade nos séculos que lá estivemos, e em vez disso, trouxemos escravos e o amendoim, dividimos e metralhámos. Agora, resta cooperar e confiar na sua capacidade de que resolvam, entre si, os seus problemas de diferenças, mas, se possível, preservando-as como património cultural (não só seu, mas de toda a humanidade). Desejando-lhes o melhor resultado nesta difícil façanha.
publicado por João Tunes às 23:31
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1 comentário:
De milocas pereira a 12 de Dezembro de 2005 às 08:21
seria bom k um dos jornais de 'maior audiência' (preferencialmente «política»)tivessem (sobretudo) o profissionalismo e a humildade suficientes para publicar esta salutar reflexçao.
isso, sem descurar (obviamente) a responsabilidade dos próprios guineenses pensarem de forma tão clara e objectiva como pensou...
um abraço 'fraterno' - milocas
(jornalista e docente universitária, guineense)


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